Jornal de Letras

Siga-nos nas redes

Perfil

Homem do Leme: Por um défice mais feliz

Homem do Leme

  • 333

As melhores coisas da vida não dão lucro. Mas nem por isso se devem considerar luxuosas, pelo contrário, é mesmo por esses pormenores essenciais que vale a pena viver.

As melhores coisas da vida não dão lucro. Mas nem por isso se devem considerar luxuosas, pelo contrário, é mesmo por esses pormenores essenciais que vale a pena viver. Os governos deveriam zelar pela felicidade dos cidadãos. Uma ideia básica que, hoje em dia, é tida como irresponsável, só porque não dá bons resultados na folha do Excel. Que mais será preciso fazer para lembrar governantes e afins que o que mais conta são as pessoas, e que a cegueira pelo lucro financeiro causa-nos um imenso e irrecuperável prejuízo?

Talvez alguns desses homens de gravata apertada e cinto largo nas calças façam contas pela manhã, quando beijam o filho antes de sair para escola. Pensarão: "Se eu der algum carinho ao meu filho, pagar-lhe comida e educação, aumento a probabilidade de ele ser bem-sucedido na vida. Se ele for bem-sucedido na vida, talvez ganhe dinheiro suficiente para cuidar de mim quando eu ficar velho. Se ele cuidar de mim quando eu ficar velho, escuso de gastar dinheiro numa conta poupança reforma. Por isso, é um bom investimento dar um beijo ao meu filho pela manhã". A outra hipótese é dar-lhe um beijo seco e depois apresentar-lhe a conta de toda a despesas lá para os 40 anos, assim que ele finalmente arranjar o primeiro emprego. Há quem, por pensar demasiadamente assim, opte mesmo por não ter filhos, pois é um investimento demasiado arriscado, abaixo do nível do lixo na tabela da Moodys.

E se não é rentável ter filhos, tão pouco é ter velhos, que só dão prejuízo e ainda escrevem cartas às juntas de freguesia. Muito menos doentes, que nem cartas escrevem; para não falar dos desempregados que, aprofundando a lógica, deviam morrer à míngua e assim aliviar as taxas que tanto preocupam os nossos parceiros europeus. Se o avô não dá lucro, atira-se da janela.

Defenestrar avôs não é permitido por lei. À sociedade resta algum bom senso e respeito por valores básicos. E mesmo a atual política não prevê tal ato, embora possivelmente a lógica do custe quanto custar talvez caminhe nesse sentido.

Há uma cegueira do curto prazo, da lógica imediata, que invalida saídas futuras. Esta lógica não só compromete o médio e o longo prazo como, por absurdo, inviabiliza a eficácia no prazo mais curto. Na Bélgica, há já muitos anos, resolveram iluminar as autoestradas. Através de um estudo, chegaram à conclusão que a melhoria das condições de segurança na via compensava financeiramente, poupando-se não só em vidas humanas como em tratamentos hospitalares. Por cá, desinvestem na saúde, nos transportes, na educação, na cultura, sem que se apercebem que a médio e longo prazo o prejuízo (mesmo o financeiro) será altíssimo. O problema não é da folha do Excel, mas sim da fórmula utilizada.