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Homem do Leme: No tempo dos Rabanetes

Homem do Leme

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No tempo em que via muita televisão, nem sempre havia televisão para ver. O horário de emissão era restrito, o segundo canal só abria à tarde, o primeiro, de manhã, mas não demasiado cedo. Por vezes, ao sábado, ficava ansiosamente a olhar para a mira técnica. Se já tivesse o relógio, era sinal que não faltava muito para o Tempo dos mais Novos.



No tempo em que via muita televisão, nem sempre havia televisão para ver. O horário de emissão era restrito, o segundo canal só abria à tarde, o primeiro, de manhã, mas não demasiado cedo. Por vezes, ao sábado, ficava ansiosamente a olhar para a mira técnica. Se já tivesse o relógio, era sinal que não faltava muito para o Tempo dos mais Novos.

No tempo em que via muita televisão, ao sábado, na RTP2, dava um programa de desporto, que ocupava a tarde inteira. Praticamente não falava de futebol (cujas transmissões eram raras), dedicavam-se antes a todo um leque de outras atividades, do hóquei em patins ao corta-mato, do voleibol ao ciclismo.

No tempo em que via muita televisão, havia umas senhoras muito simpáticas e elegantes que, volta e meia, apareciam sentadas em estúdio, de perna cruzada, e contavam-nos o que ia acontecer a seguir. As locutoras de continuidade evitavam sobressaltos. Desde que desapareceram do ar, que a emissão fica meia descontinuada, o que nos deixa desacompanhados e mal preparados para o programa seguinte.

No tempo em que via muita televisão, a emissão fechava cedo, mesmo ao fim de semana raramente passava da uma da manhã. E quando a emissão terminava tocava o hino nacional, com a imagem da bandeira a ondular ao vento. Não sei se era antipatriótico desligar o aparelho a meio do hino, mas era o que a maioria dos senhores telespetadores fazia.

No tempo em que via muita televisão, as manhãs de domingo eram particularmente aborrecidas. Passava a Eucaristia Dominical e depois o 70 x 7 e depois o TV Rural. Era uma penitência matinal à espera dos desenhos animados, que era o que realmente me interessava, fossem eles as fascinantes aventuras de Vickie ou Dartacão, ou a cambada de heróis órfãos ou abandonados como Marco e Tom Sawyer.

No tempo em que via muita televisão, toda a gente via a mesma telenovela, porque só havia uma. Passavam séries portuguesas de qualidade duvidosa, como Zé Gato ou Duarte & Companhia. Havia programas inacreditáveis, como o Vamos Jogar no Totobola, o Trinta Minutos Com ou o TV Rural. Eram tão risíveis, mesmo à luz daqueles tempos, que foram ridicularizados nas séries de humor que Herman José fazia na altura.

Agora que vejo menos televisão, há televisões a toda a hora. Agora que vejo menos televisão, extinguem ou ameaçam extinguir os melhores programas transmitidos no serviço público. Agora que vejo menos televisão, a RTP acaba com o Câmara Clara e a maioria pede o renascimento do TV Rural. A Cultura pela Agricultura, livros por rabanetes, as contas dos merceeiros e um molho de brócolos. A agricultura está de rastos (assim como a pesca e a indústria). Mas agora sim vai ter um programa na TV, para que os agricultores, os poucos que restam, aos domingos, descansem a enxada, enfiem os bonés, se refastelem no sofá, e comentem: "Que bela batata!"  E, quem sabe, assim, animados pelo que veem, possam vir a exportar couves de Bruxelas para a Bélgica.