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Homem do Leme: Ich bin ein Lisbonner

Homem do Leme

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O filme de Marcelo Rebelo de Sousa não foi selecionado para o Festival de Berlim. Se calhar, o professor devia ter pedido ajuda a João Salaviza ou a Miguel Gomes. Assim como está, só poderia passar num desses festivais de cinema publicitário. Aliás, a sua estrutura é semelhante à de um anúncio de telemóveis. Em termos cinematográficos, não vale um meio-urso, nem sequer um daqueles de goma. Mas também não foi pensado enquanto tal. É antes um objeto de propaganda, só que não temos cá nenhum Leni Riefenstahl à mão de semear e então a coisa ficou assim chochinha.

O filme de Marcelo Rebelo de Sousa não foi selecionado para o Festival de Berlim. Se calhar, o professor devia ter pedido ajuda a João Salaviza ou a Miguel Gomes. Assim como está, só poderia passar num desses festivais de cinema publicitário. Aliás, a sua estrutura é semelhante à de um anúncio de telemóveis. Em termos cinematográficos, não vale um meio-urso, nem sequer um daqueles de goma. Mas também não foi pensado enquanto tal. É antes um objeto de propaganda, só que não temos cá nenhum Leni Riefenstahl à mão de semear e então a coisa ficou assim chochinha.

Ich Bin ein Berliner (grande título!), para quem não sabe, é um pequeno filme impulsionado por Marcelo Rebelo de Sousa, do género daquele que foi feito para os finlandeses (fica-lhe atrás). O objetivo seria dar a conhecer ao povo alemão a dura realidade portuguesa. Explicar-lhe que nós por aqui andamos à míngua, enquanto eles continuam a viver à grande e à... alemã. Boas intenções, portanto. Em nada me espanta que os alemães, que são criticados no filme, não o queiram exibir em público, seria preciso um desportivismo extraordinário. O que me espanta é o espanto de Marcelo Rebelo de Sousa ao descobrir que os alemães não vão querer exibir na Praça Sony lá do sítio. Estaríamos nós dispostos a mostrar uma resposta alemã no Terreiro do Paço? Pareceria a guerra do Solnado: como só temos um avião, nós bombardeamos-vos às segundas, quartas e sextas, e vocês bombardeiam-nos às terças, quintas e sábados.

Tal como aconteceu com o vídeo dos finlandeses, isto só pode funcionar enquanto fenómeno viral na Internet. Mas, neste caso, considerando que Rebelo de Sousa não será propriamente ingénuo, parece-nos óbvio que o destinatário do vídeo não é propriamente o povo alemão, que quer lá saber do vídeo do Marcelo, mas antes o povo português. Eventualmente, subirá a auto-estima, impulsionará uma revolta maior e levará Marcelo à Presidência da República.

Desconheço se o professor Marcelo vai abraçar uma nova carreira cinematográfica, ou se este é o seu ocaso épico. Contudo, há uma sequela que se impõe. É urgente fazer um vídeo em que se explique ao governo quem são os portugueses. Muito mais do que os alemães ou a senhora Merkel, Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar, Paulo Portas, que se mantêm fechados em gabinetes, precisam desesperadamente de saber o que se passa cá fora, de conhecer o povo que (des)governam.