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Homem do Leme: Futuro Perdido

Homem do Leme

Fomos enganados pelos filmes e séries de ficção científica. Por esta altura já devíamos andar pelo espaço a pilotar naves ultrassónicas, ao lado de astronautas lindíssimas que falam inglês com sotaque da Califórnia. Afinal ficámos para aqui encalhados, a discutir economia, a sofrer consequências da crise, sem dinheiro para comprar o ipad, nem outros sonhos que nos impingem, esmagados pela força da gravidade, curvados pela gravidade das circunstâncias.

Fomos enganados pelos filmes e séries de ficção científica. Por esta altura já devíamos andar pelo espaço a pilotar naves ultrassónicas, ao lado de astronautas lindíssimas que falam inglês com sotaque da Califórnia. E a conhecer populações alienígenas, algumas simpáticas, outras perigosas, que tentariam atacar a nossa nave, mas nós conseguiríamos sempre escapar, porque confiamos na força e somos amigos do argumentista. Prometeram-nos mundos e fundos, mil e uma aventuras, adrenalina, planetas, estrelas, galáxias, buracos negros, planícies de vácuo, raios lazer de todas as cores e afinal...

Afinal ficámos para aqui encalhados, a discutir economia, a sofrer consequências da crise, sem dinheiro para comprar o ipad, nem outros sonhos que nos impingem, esmagados pela força da gravidade, curvados pela gravidade das circunstâncias. Como é que se chamava a série? Espaço 1999:  já passaram 13 anos e nada, tudo na mesma. Como é que se chamava o filme? 2001 Odisseia do Espaço: passaram 11 anos e nada, tudo na mesma. O que é feito do futuro? Quem nos deixou para trás? Porque não voamos a não ser em aviões comerciais, com os joelhos encolhidos para não incomodar o passageiro da frente. Quem decidiu que o espaço era só para astronautas? Porque não podemos partir nós à procura de novos planetas, que este já nos aborrece, como outrora os garimpeiros na terra nova? Que raio de futuro este que agora vivemos, tão fraquinho em efeitos especiais, que mais parece um filme neorrealista, daqueles italianos que queriam mostrar o presente no passado e que, ironicamente, se mantêm atuais? Onde estão os foguetões vermelhos e brancos do Tintim, que espetam o nariz na lua, porque não se sabiam virar? E o canudo do Meliés, lançado por um conselho de sábios astrónomos, que ferem a lua no olho?

A lua não tem olhos, os foguetões sabem dar a volta e os astronautas andam aos pulinhos. Estranho, não? Quem lhes disse que não preferíamos viver nas histórias de Júlio Verne? Agora, já nem podemos fantasiar sobre a lua a não ser em contos infantis.

Mas um dia... Um dia pequenos homens verdes virão resgatar-nos deste planeta que está a perder a cor. Até lá continuaremos a definhar neste mundo neorrealista, sem graça, nem aventuras. E só avisto o futuro prometido quando me cruzo com o vizinho que tem as orelhas iguais às do Spock.