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Homem do Leme: Até Ver

Homem do Leme

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Em vez de um Luke Skywalker, com espadas de lazer coloridas para cortar a cabeça a inimigos, desembocaremos todos num filme de Pedro Costa, de um preto e branco realista e lúgubre



Nunca vi nenhum carro com asas e não se fazem viagens ao encontro das magníficas criaturas do centro da Terra, só mesmo em busca de jazidas de petróleo, onde as máquinas vão centenas de metros à frente dos homens. Este futuro não foi o que imaginámos, este não é o futuro que nos prometeram as séries de ficção científica. Por esta altura já devíamos andar em guerra com alienígenas esverdeados, com ar falsamente simpático, em vez de insistirmos nos conflitos do Médio Oriente. Ou então a Terra já devia ter explodido e nós, os sobreviventes, senhores de um universo por explorar, vaguearíamos por um espaço sem fim e com muitas surpresas, enquanto mastigávamos refeições energéticas em formato de drageia. A futurologia está pela hora da morte. Para ficção científica, temos apenas as fantásticas previsões do governo, com défices imaginários e crescimentos económicos fantasma, temendo nós a conclusão que, em vez de um Luke Skywalker, com espadas de lazer coloridas para cortar a cabeça a inimigos, desembocaremos todos num filme de Pedro Costa, de um preto e branco realista e lúgubre.

É frustrante poder chegar à conclusão que o nosso futuro não depende de nós, em nenhuma medida. Até a um certo ponto é uma realidade inevitável: não controlamos as doenças que nos atingem, nem as calamidades, nem os acidentes, nem as fúrias de quem nos ordena. Mas em termos sociais nada é assim. As sociedades podem e devem controlar o seu próprio destino. Tal não é feito apenas através do direito de voto. Tal é feito com a insurreição quando os governos faltam descaradamente aos seus compromissos perante o povo que os elegeu. Foi o que aconteceu a 2 de março.

Desde setembro que se inverteu uma tendência: o povo já não está apático, perdeu a paciência e saiu à rua. Irritantemente apáticos perante os protestos do povo, tornaram-se os governantes. Por cada pessoa que sai à rua, há dez descontentes que ficam em casa. O povo protesta contra o governo, enquanto este governa contra o povo. A manifestação de 2 de março foi de semblantes tristes e carregados. Não é apenas um movimento de jovens e estudantes. Estavam lá muitos idosos, geração amargurada, que, provavelmente, não pensou que fosse necessário voltar a sair à rua depois das conquistas de 1974. Mas que, perante os cortes na sua reforma, e falta de emprego e de perspetivas de filhos e netos, quis fazer sentir a sua voz ou, pelo menos, a sua presença.

As manifestações são campos de batalha, mostras da força popular, numa longa luta para uma vitória custosa. Antes disso houve um trabalho de guerrilha. Os ministros ouviram Grândola, Vila Morena, pediram-se faturas com os números de contribuinte de Passos Coelho, Vítor Gaspar e Miguel Relvas. Noutros países, por menos, partem-se montras, incendeiam-se carros, colocam-se bombas. Em Portugal, protesta-se cantando e pedindo faturas falsas. Em Portugal, o povo é sereno. Até ver.