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Homem do Leme: Amor Trolha

Homem do Leme

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Se um desconhecido lhe oferecer flores isso é... um piropo, punível por lei, caso o projeto de duas militantes do Bloco de Esquerda tenha pernas para andar (atenção não quis aqui fazer qualquer tipo de comentário sobre as pernas das militantes do BE, é apenas uma expressão idiomática).

Se um desconhecido lhe oferecer flores isso é... um piropo, punível por lei, caso o projeto de duas militantes do Bloco de Esquerda tenha pernas para andar (atenção não quis aqui fazer qualquer tipo de comentário sobre as pernas das militantes do BE, é apenas uma expressão idiomática). A proposta não esclarece se, apesar de tudo, a 'lesada' pode ficar com as flores. Seria uma pena deitá-las fora. Até porque cada vez há menos desconhecidos a oferecer flores. Mas ainda há muitos que comentam os rabos das mulheres que passam. É uma espécie de desporto nacional, bastante popular em certos meios, por vezes feito em despique, à desgarrada como no fado, a ver quem manda a boca mais forte: um ponto se ela olhar, dois pontos se ela sorrir, três pontos se te der um estalo na cara. "O teu pai deve ser escultor", pois, não é justo que as mulheres se tenham que submeter passivamente a uma certa alarvidade masculina. Mas determinados tipos de 'piropos' já são puníveis por lei, caso se possam enquadrar nas figuras de 'assédio', 'injúria' ou 'ofensa'. A proposta das militantes do BE é acabar com os piropos em geral ou pelo menos aqueles ditos por desconhecidos na rua. Como este de Augusto Gil: "Ó sua descaradona, tire a roupa da janela, que essa camisa sem dona, lembra-me a dona sem ela". Que maroto. Imagino que Camões teria alguns problemas com esta lei. "Quero fazer contigo o que a primavera faz com as cerejas", esta é do Neruda, elegante e poético, mas que na essência vai dar ao mesmo que outros piropos menos sofisticados. Como este piropo à moda do norte: "Gira, gira, gira... e boa, boa... como um helicóptero". O pragmático: "A menina dança ou já tem gajo?" Em forma de trocadilho espacial: "Ó estrela, queres cometa?". O religioso: "Tens um corpinho que... valha-me Deus". O político: "Quero fazer contigo o que o governo faz com a Constituição".

Enfim, levado a um extremo, esta ideia pode chegar ao absurdo que se passa em alguns estados da América, em que são tão fáceis as condenações por assédio, que os homens têm medo de andar sozinhos de elevador com uma mulher. "Boa noite?! Mas está a querer insinuar alguma coisa?". Mais difícil ainda é saber como é que a lei pode ser aplicada na prática. Montaremos um estado policial ou quem sabe um piropómetro. Talvez as mulheres possam andar com um piropómetro, que, ao detetar uma frase indesejada, dispare um alarme diretamente ligado à esquadra mais próxima. Mas nunca se sabe o desfecho final de um piropo. Lembro-me de um casal responder assim à pergunta "como é que se conheceram?': "Ele disse-me 'vai-te foder', eu disse 'vai tu', conversa puxa conversa e fomos felizes para sempre."