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Homem do Leme: A Pancrácia

Homem do Leme

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A Pancrácia era uma das mais populares modalidades dos Jogos da Antiguidade. Uma luta corpo a corpo verdadeiramente livre de regras. É daí que vem a expressão vale tudo menos arrancar olhos. Ora, Portugal tornou-se especialista na Pancrácia política

No ranking de medalhas da história dos jogos olímpicos, Portugal ocupa um modesto 59.º lugar. Sem contar com os países recentes, na Europa, apenas a Islândia e o Luxemburgo apresentam uma classificação inferior. E mesmo alguns países formados há menos de duas décadas, como a Geórgia ou a Bielorrússia, encontram-se acima. Isso deve-se, claro está, a um desinvestimento no desporto, num país que só dá futebol - mas atenção, porque maus resultados olímpicos, em geral, são sinónimo de subdesenvolvimento.

Podemos queixar-nos que nunca conseguimos convencer nenhum comité a aceitar o Hóquei em Patins como modalidade, ao contrário do que acontece com o Hóquei Campo, praticado pela Commonwealth. Contudo, há um outro desporto que por cá muito se pratica, mas que entretanto foi extinto.A Pancrácia era uma das mais populares modalidades dos Jogos da Antiguidade. Uma luta corpo a corpo verdadeiramente livre de regras. É daí que vem a expressão vale tudo menos arrancar olhos. Porque, de início até arrancar olhos valia, mas alguém resolveu impor essa interdição, para restringir a morbidez: arrancar orelhas à dentada ainda vá que não vá, olhos é que já é demais.

Portugal tornou-se especialista na Pancrácia Política. Que tem a ver com, sob o pretexto de um imenso ringue chamado crise, arrancar-nos tudo o que foi conquistado ao longo dos anos: o sistema nacional de saúde, a educação, a cultura, os direitos laborais, a biodiversidade das nossas florestas, os serviços públicos mais básicos... Sem dó nem piedade, nem sequer vergonha.

O mais caricato é o caso de José Relvas. Talvez seja o ministro mais agarrado ao lugar desde o tempo do Estado Novo. Primeiro foi o caso das secretas, depois o da pressão à jornalista do Público e finalmente o da Lusófona. À sua volta tudo se desmorona, mas como um velho lutador de pancrácia ele mantém-se, talvez já não de pé, mas agachado na cadeira. Vale-nos o humor, nas redes sociais e não só, com o episódio caricato do "Vai estudar Relvas" exibido na Volta à França em bicicleta. No Facebook até foi criada uma página só com piadas do ministro dos Assuntos "Para Lamentares", que vão desde um cartaz erguido por Neil Armstrong, na Lua, a outro exibido por José Sócrates, com o dizer: "Vem estudar Relvas". Saudável, apesar de tudo, esta capacidade que os portugueses têm de se rir --  sinal que ainda temos olhos para ver... e chorar.