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Homem do Leme: A ler o mar

Homem do Leme

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Gosto de sentir a força do vento a tentar virar as páginas do meu tablet. O vento tem a mania de me levar para páginas tantas, apressando ou adiantando a minha leitura, como quem anseia pelos capítulos finais ou sugere que deveria voltar a ler algumas frases do início, já que, provavelmente. não me voltarei a cruzar com elas tão cedo. O vento tem a mania que sabe mais de literatura do que eu. Mas não fez a atualização do software.

Gosto de sentir a força do vento a tentar virar as páginas do meu tablet. O vento tem a mania de me levar para páginas tantas, apressando ou adiantando a minha leitura, como quem anseia pelos capítulos finais ou sugere que deveria voltar a ler algumas frases do início, já que, provavelmente. não me voltarei a cruzar com elas tão cedo. O vento tem a mania que sabe mais de literatura do que eu. Mas não fez a atualização do software. Por isso ele não vira as páginas do tablet. Anda por ali, às voltas, à minha volta, levantando areia, distraindo os meus olhos, mas sem efeito. Ao vento, faltam-lhes os dedos. Mas tem bons pulmões. Por isso, levanta um exército de grãos de areia, que me deixa nervoso, não por ter medo da areia, mas porque não quero que esta me risque a leitura. Nem sequer nas frases mais importantes. Porque, no tablet, o que se risca é uma zona do ecrã, onde tanto pode estar um verso de Camões como a manchete do jornal A Bola. A areia não percebe nada de literatura.

O sol torna a leitura mais introspetiva. Quando leio ao sol, vejo apenas o meu próprio reflexo, tal como me acontece quando leio Javier Marías à sombra.

O cheiro dos livros não me faz espirrar. Pelo contrário, desentope-me as narinas da alma e refresca-me o pensamento, como num banho de papel molhado. Isto quando o livro cai à água. Algumas letras ficam borradas, esticam-se ou encolhem-se, as páginas soltam-se. Umas boiam, outras não sabem nadar, algumas são entregues aos peixes como o Sermão do Padre António. Os peixes maiores comem os mais pequenos, mas todos gostam das folhas de um bom romance desfeitas em mil pedaços. A água dilui os sentidos da escrita, mas ainda é possível fazer um puzzle entre as páginas desfeitas. Isto quando se trata de um livro em papel. Se for o tablet, simplesmente desaparece. Os livros digitais recusam-se a ser lidos molhados, têm a sua dignidade.

O meu tablet muda de odor consoante os livros que leio. Quando li o Moby Dick, claro, tudo em volta se encheu de maresia. Ao fim, já tinha o cheiro a peixe de tal forma entranhado, que os meus amigos pediram-me que mudasse de lugar. Ou de livro. Qualquer coisa que se passasse num palácio. As Mil e Uma Noites, O Perfume, Anna Karenina. Mas que por favor não relesse A Guerra e Paz, não durante o verão, que o odor a morte, o cheiro das latrinas, afugenta todos os banhistas e o mar fica mais ondulado. Gosto de sentir as ondas do mar ecoarem no meu tablet. E arrastarem-me para fora de pé. Dar um mergulho, suster a respiração, uma braçada por página, uma página por braçada... E ficar assim, náufrago, com preguiça em ligar o GPS e encontrar o caminho de regresso à praia.