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Homem do Leme: A fim do mundo

Homem do Leme

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Passei a semana a armazenar latas de atum e garrafões de água, para o caso do fim do mundo ser mais brando lá para as minhas bandas. Por volta do meio-dia, embocámos as máscaras de oxigénio.

Passei a semana a armazenar latas de atum e garrafões de água, para o caso do fim do mundo ser mais brando lá para as minhas bandas. Por volta do meio-dia, embocámos as máscaras de oxigénio. Por prevenção, não ligámos de imediato as botijas, mas não perdi o botão de vista, ficou ao alcance de um braço estendido. E sentámo-nos no chão, com a cabeça entre os joelhos, junto à ombreira da porta. A avó começou a rezar novenas em voz alta, mas, com a máscara na cara, dificilmente se distinguiam os padres-nossos das ave-marias. Achei tudo aquilo um bocado deprimente e, para não atemorizar as crianças, pus-me a entoar cânticos de Natal, alguns deles em latim. A mulher pediu-me que me calasse, disse-me que eu cantava horrivelmente mal e que a situação já era demasiado grave por si só e não precisávamos de mais aquilo. Eu não levei a mal, porque o mundo estava à beira do fim e pareceu-me que seria um desperdício passar o resto do tempo amuado. As crianças agradeceram. Não estavam nada assustadas, achavam divertido usar aquelas máscaras que só conheciam dos filmes e fingiam-se monstros desfigurados. Só lhes incomodava estarem proibidas de se levantar e de andar a pregar sustos por aí. Ainda assim, volta e meia, erguiam a cabeça e emitiam um grunhido, que quase desconcentrava as preces da avó.

Quando o mundo não se acabou, levantei-me, com cuidado, e fui espreitar à janela. Sei que foi uma irresponsabilidade, mas eu era o elemento da família mais indicado para correr o risco. A rua vivia uma tranquilidade pré-apocalíptica. Ouvia-se o ladrar dos cães e os gritos das gaivotas. O céu tingia-se de cinzento-catástrofe e o vizinho da frente não parava de ver televisão - os principais canais transmitiam as últimas cenas das novelas, para satisfazer a curiosidade aos espectadores.

Como era a primeira vez que contactávamos com um evento apocalíptico, não sabíamos da sua pontualidade. Se começava sempre à hora, como os jogos de futebol, ou se se atrasava, como os autocarros. Por isso esperámos, ainda ansiosos, mas já um pouco descuidados nos gestos. Aos poucos, o prédio recuperou os seus pequenos barulhos. E depois, gritos de regozijo. Afinal, o mundo não tinha acabado. As crianças levantaram-se e foram jogar playstation, mulher pôs-se à conversa ao telemóvel com as amigas e a avó saiu para ir à missa. Eu fui preparar o jantar: batido de atum para toda a gente.