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Homem do Leme: Pen Friend

Homem do Leme

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Querida Ebba,
Escrevo para te dizer que há momentos em que uma folha de papel se confunde com a vida eterna.

Querida Ebba,

Escrevo para te dizer que há momentos em que uma folha de papel se confunde com a vida eterna. Lembras-te de mim? A caligrafia avivar-te-á a memória. Continua redonda, com largas pintas nos is, talvez esteja um pouco mais rude e apressada, mas não muito. Por agora, estou a escrever devagar, com o esforço de não rasurar nada. Os computadores tiram-nos a prática, mas recupera-se o jeito, logo ao segundo parágrafo. Hás de experimentar. Aquele que te escreve agora, Ebba, é o mesmo miúdo que te enviava cartas há 20 anos. Tenho saudades desse miúdo que tinha saudades tuas sem nunca te ter visto. Como eram felizes os dias em que, ao chegar a casa, o meu pai, desatento, dizia-me que havia uma carta para mim. Fechava-me logo no quarto, ansioso, sustendo a respiração, em busca das tuas palavras em azul-turquesa. Julgo que a própria tinta era perfumada. Tu contavas-me como tinhas passado o Natal. Falavas-me de ski e bonecos de neve. Do nevão que te obrigou a ficar uma semana sem ir à escola. Uma semana inteira, imagine-se! Do pequeno trenó que o teu avô te tinha oferecido. Um dia enviaste-me uma fotografia dos teus cães, meigos e imponentes, com um pelo que valia por dez casacos. E eu sonhava com a Suécia, como se fosse um paraíso branco, não me apercebendo dos dissabores do frio e da falta de sol. Enquanto tu mostravas entusiasmo pelas minhas férias na praia, a areia e o sol. Eu queria ser esquiador e tu surfista.

Minha querida Ebba, estava a empacotar a minha vida em duas dúzias de caixotes, quando me cruzei com um maço de envelopes cor-de-rosa com um elástico à volta. Sem querer, sentei-me no chão e reabri os melhores momentos. Julguei ainda sentir o cheiro das tuas palavras, talvez seja só uma impressão, mas o perfume parecia continuar lá. Passei a tarde a ler as tuas cartas, a sorrir entre lágrimas. Até que cheguei à última. Lembras-te da última carta que me escreveste, tão triste e tão terna? Ou talvez fosse apenas banal, mais uma carta. Mas eu, que andava há anos a juntar moedas no porquinho para te encontrar na neve, encarei-a como uma inexcedível traição. Lá para o terceiro parágrafo, entre assuntos nossos quotidianos, contavas-me que agora tinhas um namorado, que se chamava Björn e também estava desejoso por me conhecer. Nunca te perdoei. E não te voltei a escrever. Até agora. Talvez estejamos demasiado adultos para ansiar por cartas perfumadas, julgo que não.

Não sei se ainda moras na mesma casa. Espero que a tua mãe ou o novo inquilino tenha a amabilidade de te reenviar a correspondência. Podia procurar-te no Facebook, pesquisar-te no Google, trocar uns emails. Mas prefiro esperar ansiosamente pela volta do correio. Sinceramente teu.