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Homem do Leme: Pedro e Maria

Homem do Leme

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Pedro perguntou-lhe: "Estás no Facebook?", lugar comum dos tempos que correm. Como ela disse que sim, adicionou-a como amiga naquele instante, através do seu Blackberry. Ela confirmou no iPhone.

A Maria e o Pedro encontraram-se numa festa de um bar. Simpatizaram um com o outro, trocaram dois dedos de conversa e foram-se embora. Se isto tivesse acontecido em 2002, talvez, por gentileza, tivessem trocado números de telefone e e-mails, mas nunca se telefonariam nem se escreveriam, sobretudo porque não saberiam o que dizer. E, passadas algumas semanas, olhariam com espanto para a agenda, "Quem é este? Como é que este número veio aqui parar?" E apagariam o contacto, para poupar a memória do telemóvel. Mas como isto se passou em 2012, o Pedro perguntou-lhe: "Estás no Facebook?", lugar comum dos tempos que correm. Como ela disse que sim, adicionou-a como amiga naquele instante, através do seu Blackberry. Ela confirmou no iPhone. Riram-se e foram-se embora. E o que aconteceu? Por um lado, ficou o registo, como numa espécie de diário, o Pedro conheceu oficialmente a Maria no dia 5 de março de 2012, e Mark Zuckerberg sabe disso. Por outro lado, prolongou-se o efémero: aquele que estava para ser um encontro sem história passou a ter uma continuação potencial, a virtualidade deu-lhe um segundo início.

E foram felizes para sempre? Vamos lá experimentar. Primeiro, descobriram que tinham uma carrada de amigos em comum, depois verificaram uma imensa afinidade musical. Às tantas o Pedro já só colocava posts na esperança que a Maria pusesse um 'gosto' e a Maria punha um 'gosto' mesmo nas coisas que não gostava. Depois aperceberam-se que ambos não ligavam ao futebol, mesmo quando jogava a seleção. E dos gostos e comentários passaram para o chat. E do chat para aquele bar onde se tinham conhecido. E do bar, enfim, para outros sítios. Mesmo antes de se casarem, oficializaram a relação na rede. E hoje fartam-se de trocar coraçõezinhos e smiles a propósito de nada, para irritação dos amigos.

Ou então... A Maria, que tinha mais de um milhar de amigos virtuais, punha posts de músicas modernas que Pedro gostava. Ficou impressionado com a afinidade e as referências comuns. E colocava sempre um gosto. Também ia postando músicas, na esperança que ela ouvisse. A maior parte das vezes, ela nem sequer via os posts. Mas, uma vez ou outra, quando se cruzava com um vídeo de uma banda de que gostava, lá punha o like, mesmo sem ouvir. Passaram-se meses. Até que, por coincidência, voltaram ambos ao mesmo bar. Ao vê-la, Pedro, embevecido, aproximou-se e disse-lhe: "Olá! Lembras-te de mim? Somos amigos no Facebook". Disse isto com uma segurança estranha, como se uma amizade virtual garantisse a memória ou a permanência física. Se ele lhe dissesse que era aquele cujo ícone era uma imagem do Spirou, ela talvez se lembrasse, mas ele não lhe disse nada disso. A Maria, despachada, agiu como se se lembrasse perfeitamente do Pedro, e exclamou um "Olá, estás bom?", Deu-lhe dois beijos na cara e continuou para o fundo da sala. Para ir ter com os amigos.