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A vaga de refugiados que acode através de diferentes rotas ao coração da Europa é um daqueles problemas complexos, que desafia qualquer raciocínio simplista. É um problema estratégico, relacionado com erros de política externa do Ocidente no Iraque (2003), na Líbia (2011), na Síria (2012-13)? Sem dúvida, mas não é só isso. É um problema da guerra secular que divide o mundo islâmico, entre sunitas e xiitas? Parece claro que sim, mas é muito mais do que isso. 

Viriato Soromenho Marques

A vaga de refugiados que acode através de diferentes rotas ao coração da Europa é um daqueles problemas complexos, que desafia qualquer raciocínio simplista. É um problema estratégico, relacionado com erros de política externa do Ocidente no Iraque (2003), na Líbia (2011), na Síria (2012-13)? Sem dúvida, mas não é só isso. É um problema da guerra secular que divide o mundo islâmico, entre sunitas e xiitas? Parece claro que sim, mas é muito mais do que isso. 

Nas vagas de refugiados encontra-se gente que foge da morte violenta (refugiados políticos), mas também gente que foge de sociedades que se deixaram degradar ao ponto de não oferecerem a possibilidade de alimentar a sua população. Como distinguir um refugiado político e um refugiado económico, se ambos fogem da morte? Por entre as múltiplas e entrecruzadas causas, espreita também a sombra de longa duração e de profundo impacto da crise global do ambiente, e em particular das alterações climáticas. 

Na verdade, politicamente, este processo de deslocação das placas demográficas foi acelerado com a chamada "Primavera Árabe", começada na Tunísia no início de 2011. Sabemos hoje que a Revolução Árabe de 2011, tal como a Revolução Francesa de 1789, foi (também) despoletada por uma enorme escassez e carestia de alimentos. Em 2010, as ondas de calor anormais na Rússia, que incendiaram milhões de hectares de florestas, levaram-na a suspender as suas exportações agrícolas. Tal como ocorrera em 2007, quando as exportações de cereais dos EUA sofreram uma quebra brusca, registou-se um aumento acentuado de preços, numa combinação de especulação e equilíbrio da oferta e da procura através do mecanismo dos preços. 

As massas árabes de 2011 protestavam, em primeiro lugar, por pão e não tanto por liberdade. Um pão que, com as alterações climáticas em curso se tornará cada vez mais inseguro, dependendo tanto ou mais de flutuações climáticas do que de jogos de mercado. A atual "crise de refugiados" é apenas o sinal do perigoso e inquietante mundo novo que se abre à nossa frente. E estamos apenas no início do princípio.