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Ricardo Rocha: Quarteto de heterónimos

Música

Na guitarra portuguesa ainda está quase tudo por ser feito. Embora pese o trabalho de Pedro Caldeira Cabral, Ricardo Rocha ou Luísa Amaro, há todo um percurso de possível dessacralização, de retirada da guitarra da sua igreja, e levá-la livremente por outros caminhos, eventualmente para a igreja dos outros. O disco de Ricardo Rocha, Resplandescente, surge dentro de um contexto de profunda inovação. 

Na guitarra portuguesa ainda está quase tudo por ser feito. Embora pese o trabalho de Pedro Caldeira Cabral, Ricardo Rocha ou Luísa Amaro, há todo um percurso de possível dessacralização, de retirada da guitarra da sua igreja, e levá-la livremente por outros caminhos, eventualmente para a igreja dos outros. Tal pode ser feito pelas mais diversas vias, não pondo em causa a manutenção do instrumento no seu contexto habitual, ligado ao fado de Lisboa e à canção de Coimbra, como acompanhante ou a solo (as brilhantes guitarradas de Armandinho estão legitimamente alicerçadas no fado e as de Artur Paredes na canção de Coimbra, não se rompe qualquer cânone por aí). Com Carlos Paredes avançaram-se mil passos em direção ao infinito: um génio irrepetível, na tripla função de compositor, executante e improvisador, que abriu a guitarra a caminhos que lhe estavam vedados, criando um estilo só seu, uma categoria à parte, que acaba por romper com a própria tradição coimbrã, sem por isso se aproximar de Lisboa. Ainda hoje é assim: uma coisa é guitarra portuguesa, outra é Carlos Paredes.

No pós-Carlos Paredes, dois nomes se realçam: o investigador de sons Pedro Caldeira Cabral, com um trabalho notável na guitarra e outros cordofones; e o virtuosíssimo Ricardo Rocha, filho do guitarrista de fado Fontes Rocha, com cultura e formação erudita, que fez um esforço de transposição da guitarra para a música contemporânea. (recentemente a estes nomes acrescenta-se Miguel Amaral que buscou novos horizontes para a guitarra, ora a solo, ora no novo trio de Mário Laginha). 

É dentro deste contexto de profunda inovação que surge Resplandecente, de Ricardo Rocha, cuja primeira parte é composta por uma peça em cinco andamentos para um quarteto de guitarras. O Quarteto Boreal é composto por quatro dos melhores guitarristas da atualidade. A saber, Ricardo Rocha, Ricardo Rocha, Ricardo Rocha e Ricardo Rocha. Após algumas experiências, o guitarrista chegou à conclusão que ninguém estaria mais apto a interpretar as suas peças do que ele próprio e acabou por regravar as guitarras uma sobre a outra, provocando um quarteto de heterónimos, de existência possível apenas em estúdio. Não é nada de excessivamente arrevesado, a gravação em pistas separadas é prática recorrente no pop-rock. Contudo, ao mesmo tempo que, como o próprio diz, desafia o cânone da guitarra portuguesa com o cânone do quarteto, não se liberta do estereótipo do instrumentista-compositor, que é um conceito típico da música popular e invulgar na música erudita e/ou contemporânea. Ou seja, sendo uma obra incrivelmente inovadora, desafiante, rara e preciosa, tal como no reportório de Carlos Paredes a composição fecha-se no compositor-intérprete, deixando pouca margem de manobra para reinterpretação, ou releitura como é prática na música erudita. Mais por isso do que pelo seu minimalismo formal, Quarteto Boreal é uma obra hermética.  Talvez tal seja considerado mais à frente nas quatro peças a solo, até porque duas delas são prelúdios de Scriabi transpostos para guitarra. Nos outros dois temas não esconde o ecletismo das suas referências musicais, do romantismo ao barroco. Resplandecente é pois um marco na música portuguesa (não só na guitarra) e só pode ser entendido como tal. 

Em datas coincidentes é lançado o álbum de João Alvarez e Tiago Inuit, Rota do Sul, que trilha outros caminhos para a guitarra portuguesa, tangenciais ao fado, mas mais próximos das chamadas músicas do mundo ou de fusão. De alguma forma um trabalho que se aproxima daquele realizado com brilhantismo por Luísa Amaro. O disco tem como base o diálogo entre guitarra e baixo, mas veste-se com muitos outros instrumentos, como violino, precursão, guitarra flamenco ou viola de fado. Não se trata, portanto, de um simples trabalho de guitarra solo; o violino, dadas as suas características, muitas vezes comparte o protagonismo nos temas. Há contudo grande criatividade nas composições, não recusando influências e transmitindo a sensação de viagem, mesmo quando reelaboram e recontextualizam Mudar de Vida, de Carlos Paredes. E não é por acaso que o único tema vocal (que não é um fado) é interpretado por Maria Ana Bobone (também escolhida por Ricardo Rocha em álbuns anteriores): é a fadista que melhor concilia a tradição popular com a formação erudita, e assim permite que o rigor se alie à emoção. 

Na guitarra, como no fado, cresce uma variedade de propostas que a retiram do seu habitat natural, de A Naifa de Luís Varatojo a Miguel Amaral, passando por este refrescante João Alvarez. Ricardo Rocha é o seu ex-líbris.