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Mind da Gap: Eles não 'bazaram'

Música

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"Há dias em que te apetece mandar tudo pelo ar / Há dias em que te apetece desistir de lutar / Há dias em que 'tás cansado demais para continuar / Há anos que 'tamos aqui todos juntos manos", dizem os Mind da Gap, numa das faixas do novo disco, onde falam das vitórias e agruras do seu percurso. Passados quase 20 anos desde o EP de estreia (Mind da Gap, 1995), os veteranos do hip-hop português Presto, Ace e Serial acabam de lançar o seu sétimo disco, Regresso ao Futuro.

Carolina Freitas

JL: No álbum anterior, A Essência, quiseram voltar às vossas raízes: o hip-hop 'puro e duro'. Este Regresso ao Futuro é uma nova fase?

Presto: Sim. Depois de termos cumprido esse objetivo, sentimos que podíamos voltar a olhar para a frente, a testar novas sonoridades, sem nos prendermos a uma certa ideia de identidade. Em cada novo álbum que lançamos, há uma quebra em relação ao anterior e, embora neste isso não seja tão acentuado como, por exemplo, no Edição Limitada [de 2006], existe qualquer coisa de diferente no que toca à sonoridade e às temáticas. Não há músicas como a 'Não Para', do anterior, que é um autêntico hino ao hip-hop... Os tempos são outros e nós vamos reagindo ao que vai acontecendo.

Como se vê, desde logo, pelo single 'O Jardim', onde dizem que "este país não é para velhos nem novos / é para corruptos e preguiçosos". Sentiram que era uma 'obrigação' apresentar temas de natureza política neste momento de crise?

Uma obrigação, não. Foi um reflexo natural. Não somos um grupo extremamente politizado, mas sempre tivemos músicas de intervenção ao longo da nossa carreira. Falamos sobre o que se está a passar porque sentimos na pele. O facto de sermos músicos não significa que não tenhamos que ganhar dinheiro para sustentar as nossas famílias, e não está fácil: há cada vez menos concertos, trabalhamos a recibos verdes, não temos quaisquer seguranças. É difícil ficarmos calados. Mas este disco não é só político. Há temas mais românticos, como 'És Onde Quero Estar' (com o Sam The Kid), ou outros 'bem dispostos', como 'Nada Complicado', que é uma viagem que eu e o Ace fazemos nos nossos transportes favoritos (eu de bicicleta e ele de carro). É um tema diferente do que costumamos fazer, muito relaxado.

Além do Sam The Kid, participam no disco o Dealema, Rey, Mundo e Berna. Como surgiram estas colaborações?

As participações são uma forma de refrescar a nossa música. Quando vem alguém de fora, os temas dão logo uma volta em termos líricos. Há muito tempo que queríamos fazer uma música com o Sam, mas, por questões de calendário, só agora se concretizou. Não quisemos que fosse aquela música de representação, óbvia, que muitas vezes se faz no hip-hop (e que não tem problema nenhum), mas preferimos dar-lhe um tema e uma direção. Depois temos 'O Jardim' com o Rey, que é a pessoa ideal para entrar num tema mais político. A 'Sete Miras' com o Dealema, que já participou noutros álbuns, e é o que se espera: uma música com força. A 'Há dias' com o Mundo, onde falamos do nosso percurso em comum. E a 'Já Chegámos' com o Berna, um MC que já tem algumas edições num circuito mais underground, e que participou no Suspeitos do Costume. Gostamos muito do trabalho dele, tem um discurso calmo, consciente, positivo. Quem está fora do mundo do hip-hop talvez não o conheça, esta é uma boa oportunidade para fazê-lo.

O que mudou no mundo do hip-hop português desde o início da vossa carreira, há mais de 15 anos, até hoje?

Quando começámos havia um movimento em Lisboa: lembro-me de lá ir a um encontro de rappers, onde estavam os Black Company, Boss Ac, Melo D, Family, muito desse pessoal que participou no Rapública, e no Porto não havia praticamente nada. Acabei por conhecer o Ace e o Serial com quem tinha pouco mais em comum do que a música. Não havia internet, então trocávamos discos, cassetes, informávamo-nos com revistas. E muito pouca gente ouvia hip-hop. Nas nossas primeiras atuações, quase não tínhamos público e os que estavam não percebiam muito bem o que era aquilo: uma banda que não toca, não canta, só debita palavras. Hoje não, o hip-hop é reconhecido. Embora seja um género flutuante: há alturas em que é mais aceite, outras em que volta a passar para um circuito mais underground.