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Perfil

Luiz Goes (1933-2012); CANÇÃO DA ALMA

Música

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Na morte de Luiz Goes, recodamos o perfil que traçámos a esta hrande figura da cidade de Coimbra, em 2003, no JL 845



Luiz Goes, canção da alma  Toada Beirã, Canção Pagã, Cantiga para quem sonha, É preciso acreditar. Luiz Goes é uma das vozes mais conhecidas da canção de Coimbra. O JL traça o perfil deste médico estomatologista e cantor, de 70 anos, que celebra meio século de carreira, com a edição de um caixa de 4 CDs, com a sua obra integral. São 68 canções para quem vier  Agora que me reformei e queria descansar um pouco é que as solicitações não param" . queixa-se Luiz Goes, não escondendo uma certa vaidade por 50 anos depois do começo, continuar a ser admirado como músico. Nas paredes da sala de jantar, na sua moradia em Cascais, estão emolduradas as mais preciosas distinções, como a de Grande Oficial da Ordem do Infante Dom Henrique, a Medalha de Ouro da Cidade de Coimbra ou a Medalha de Mérito da Cultura da Câmara Municipal de Cascais. Fechadas numa gaveta, de forma aparentemente desorganizada, mais umas quantas medalhas, recordações, um poema que José Jorge Letria lhe escreveu, uma carta do Presidente da República, Jorge Sampaio, um postal de Almeida Santos. "Há muito mais lá em cima, mas eu deixo isto tudo desalinhado" .  explica, com modéstia. "A única coisa que me envaidece é que eu recebi isto tudo sem ter mexido uma palha, sem ter metido uma cunha".  Entre as homenagens, uma muito especial, os antigos colegas de trabalho despedem-se do dentista que escrevia canções, num jantar. Mas, como faz questão de sublinhar "ainda não está morto", pelo que, nesta nova fase da sua vida, espera ter tempo para voltar a compor. Só lhe sobra uma dúvida: "É que sou muito pessimista e julgo que é função de um artista mostrar também algum otimismo". 



A COIMBRA DO POVO 



Luiz Goes nasceu em Coimbra, em 1933. O pai era diretor da Caixa Geral de Depósitos.  Era monárquico, democrata convicto e anti-salazarista furioso, o que o ajudou de cedo a tomar consciência política. A música esteve sempre presente na sua família. A mãe tocava piano e os tios cantavam todos de forma afinada. Mas a grande influência terá sido a do tio Armando Goes, um proeminente cantor de Coimbra, com o qual, desde cedo sentiu uma grande afinidade.  Outra importante companhia na sua adolescência foi o professor Virgílio Correia, diretor do Diário de Coimbra e do Museu Machado de Castro e um dos principais dinamizadores das escavações de Conímbriga. Este professor deu-lhe a conhecer a Coimbra real, do povo, que se esconde por detrás da universidade. Luiz Goes começou por se dedicar à música erudita. Foi aluno de Arminda Correia (conhecida professora do conservatório de Lisboa),no Instituto de Música de Coimbra, que considerava que ele tinha uma belíssima voz, mas "jogar à bola nem que fosse com uma pedra e fazer noitadas era muito mais divertido", pelo que a vocação de perdeu. "Não estou arrependido" . diz . "Seria um cantor vulgaríssimo, enquanto na canção de Coimbra sempre tive uma palavra a dizer".  As primeiras experiências musicais surgiram logo no Liceu D.  João III, onde teve como companheiros Zeca Afonso, Leonel Mora, José Dias, António Portugal, Costa Brás, entre outros. Começaram por visitar a herança da geração da Presença. Luiz Goes tinha uma fixação especial em Edmundo Bettencourt. Foi numa récita no Liceu que atuou em público pela primeira vez, cantando Feiticeira, um tema de Ângelo Araújo, que tinha surgido em Capas Negras (1947) . filme criticado pela Associação Académica de Coimbra. Os primeiros discos, ainda em 78 rotações, vieram em 1952.  Durante os tempos de estudante em Coimbra, Luiz Goes vivia rodeado das mais ilustres personalidades. Num espaço de 100 metros moravam Manuel Alegre, Miguel Torga, Bernardo Santarento, Paulo Quintela, Yvette Centeno e Teolinda Gersão.  Também conheceu e chegou a ser acompanhado por Artur e Carlos Paredes. Considera que a música de Coimbra se pode dividir entre antes e depois de Artur Paredes, pois até este surgir estava demasiado colada ao fado de Lisboa.  Por Carlos tinha uma enorme admiração: "Sei explicar melhor opai do que o filho. O pai é terráqueo, o filho paira acima de nós. Ultrapassa-me. É um génio, não tem explicação." 



O DOUTOR CANTA 



Nunca lhe ocorreu tornar-se músico profissional, apesar de confessar que hoje é uma ideia que lhe agradaria. Luiz Goes formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra e seguiu a especialidade de Estomatologia. "Tinha uma ideia romantizada da Medicina, mas a evolução técnica e científica foi tal que se esbateu o lado romântico. Nessa medida posso dizer que não me realizei a 100% como médico" .  confessa. Contudo, cumpriu. E apesar de haver testemunhas que afirmem tê-lo ouvido cantarolar no consultório, não consta que tenha alguma vez cometido um erro grave na sua profissão.  Terminado o curso, casado e à espera de filhos, Luiz Goes migrou para Lisboa, para trabalhar com o seu tio Armando, pensando que a carreira musical estava acabada. Eis senão quando surgiu uma oportunidade única. O professor Mário Silva, discípulo da Madame Currie, que o Estado Novo pôs de lado, foi contratado para representar a Philips na Península Ibérica. No contexto de uma série de discos que visavam ilustrar a música popular de cada país, sugeriu a formação e gravação de um álbum dos Coimbra Quintet, que integrava Luiz Goes. O álbum saiu em 1958. Foi um sucesso.  Pouco depois Goes foi recrutado para a Guerra Colonial. Desempenha as suas funções de médico militar, na frente da Guiné. "Enviaram-me para o pior sítio, mas eu avisei logo: .à primeira cumpro, mas se me recrutarem uma segunda vez, deserto.". A estada na Guiné acabou por ser importante, até para reforçar as convicções políticas e ideológicas. Tinha acesso a mensagens que "passavam por baixo do arame farpado", de que se guardou segredo, e até ganhou alguma admiração por Amílcar Cabral. "Havia uma proposta de acabar com a guerra imediatamente e proceder a dez anos de transição pacífica que ficou guardada na gaveta".  Quando Luiz Goes partiu para o Ultramar vários jornais anunciaram o fim da carreira do músico. Mas, na verdade, foi quando regressou que compôs e gravou alguns dos seus temas mais conhecidos. Um pouco, devido à cumplicidade com o grupo com que se reuniu em Lisboa, que integrava Leonel Neves, João Bagão, António Toscano, Aires de Aguilar, entre outros. A gravação de êxitos como Homem só, meu irmão ou Canção quase de embalar, permitiu também a digressão por alguns países estrangeiros, como Estados Unidos, Brasil, Áustria, África do Sul ou Índia. 



SEM BENGALAS NA ALMA 



Luiz Goes foi um dos principais dinamizadores de um movimento que quis renovar a música coimbrã, sem nunca ofender a tradição.  Esta renovação passava por uma maior ligação ao quotidiano e também, mais tarde, por uma consciência cívica de luta pela liberdade. "Nunca falei explicitamente em canhões, nem em espingardas, mas de que é que estou a falar quando digo .boneca de trapo/ que vestes o sonho/ de verde encarnado/ no dia medonho?".  Em nome próprio, Luiz Goes lançou apenas quatro álbuns . Coimbra de Ontem e de Hoje, Canções do Mar e da Vida, Canções de Amor e de Esperança e Canções para Quase Todos ., mas participou em muitos outros. Tem tido edições muito espaçadas, porque diz não conseguir escrever sem sentir qualquer coisa de muito forte para dizer.  A viola, onde constrói as canções, está guardada há quase 20 anos.  Agora tem vontade de a tirar da caixa. Considera-se socialista democrata, mas não tem partido e pensa que sobre a sociedade de hoje ainda há muito para cantar. Assume-se como pessimista. Preocupa-lhe a falta de valores, o "estado reverencial das almas em relação ao grande capital" e quer fazer o que sempre fez: "Utilizar a voz em prol dos princípios pelos quais vale a pena lutar".  Também julga que vai aparecer uma nova corrente na música de Coimbra, graças ao bom trabalho que academia está a fazer. Quanto a si, não se queixa. Continua a ter muitas solicitações, que tenta satisfazer, assim o corpo responda. "Isto qualquer dia mete um pouco de bengala", afirma. E acrescenta: "Mas não na alma. Enquanto for no corpo, isto lá vai andando".