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João Berhan: Canções a fugir para a frente

Música

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Passados dois anos, a compôr e a subir aos palcos de várias salas lisboetas, sai, finalmente, o seu primeiro álbum, Toda a gente a fugir para a frente. O próximo concerto é já a 23 de julho, às 22 e 30, na Pensão Amor, ao Cais do Sodré, em Lisboa.

Carolina Freitas

Quando ouvimos 'Toda a gente a fugir para a frente', a primeira faixa do disco, surge-nos a imagem de uma multidão que caminha sem saber para aonde, nem porquê. "É como sinto as pessoas à minha volta: não sabem o que pensar sobre o que está a acontecer, têm sempre uma crítica na ponta da língua, mas não fazem nada com isso. Fogem para a frente", explica João Berhan, 25 anos. E, embora diga fazer parte do grupo, quando se viu numa encruzilhada - com um curso de Direito e a consciência de que não era esse o caminho que queria seguir -, não se deixou ficar. Começou a fazer canções.

Pegou na guitarra e em textos que já tinha escrito, e lançou mãos à obra. "Nem precisei de mexer muito nos textos porque, mesmo a escrever em prosa, sempre tive a tentação de cair na rima e na brincadeira com as palavras", adianta. Assim, as letras davam-lhe o ritmo e com a voz procurava a harmonia das canções. Passados dois anos, a compôr e a subir aos palcos de várias salas lisboetas, sai, finalmente, o seu primeiro álbum, Toda a gente a fugir para a frente. E o que era para ser um disco "cru", só com voz e guitarra, transformou-se num "projeto megalómano". "Estudei piano durante dois anos, toquei com uma banda num ou outro concerto de covers, mas, de resto, sempre tive muito sozinho na música. Mas entretanto conheci pessoas com quem senti vontade de partilhar o disco", conta. Às violas, guitarra elétrica, cavaquinho, teclados, melódica e xilofe, tocados pelo próprio, juntam-se bateria, contrabaixo, baixo, clarinete, trompete e uma voz feminina, Teresa Campos.

O resultado são 11 canções a que nos rendemos à primeira audição, e que fazem crer que João Berhan é um cantautor com muito a dar à música nacional. Desde logo, pela habilidade com que brinca com a língua portuguesa, ou não fossem Sérgio Godinho, Chico Buarque e Manel Cruz algumas das suas grandes referências. E se o jogo com as palavras é comum a todos os temas, o mesmo não acontece quanto ao registo. Berhan oscila entre canções repletas de humor e provocação e outras profundamente intimistas, levando-nos ora a soltar gargalhadas, como na hilariante 'Batata Frita', ora a sentir nossos os seus amores e desamores,  em 'Bairro Alto' ou 'Babel'. "Tenho esses dois lados: um em que não me levo muito a sério, penso 'sou só mais um gajo a cantar as suas agruras', e outro em que tenho a pretensão de me expor, de mostrar os meus processos interiores", diz, deixando adivinhar que essa dualidade será uma das marcas do seu percurso. Outra terá que ver com a estrutura "pouco ortodoxa" das canções, que, salvo raras exceções, nem chegam a ter refrão - "São textos que têm de ser cantados de alguma forma sobre uma harmonia". Dito de outro modo, são ideias que escorrem. Letras que mandam nelas próprias. Canções a fugir para a frente, e nós com elas, presos à voz trovadoresca de João Berhan (na linha de B Fachada), como quem ouve uma história e quer saber aonde vai dar, porquê, e se, por acaso, não tem mais 11 para contar.