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Festival de Música Júnior: Uma colónia de férias musical

Música

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Termina hoje, sexta-feira, 8, o prazo de inscrição para o Festival de Música Júnior. Cinco dias de intensa atividade musical, com masterclasses e ensaios de Orquestra de Cordas e Big Band, para estudantes de música de Portugal e Espanha, entre os 8 e os 21, a decorrer de 18 a 23 de março, na Escola de Música do Colégio Moderno, em Lisboa. O JL/Educação falou com António Jorge Nogueira, coordenador artístico, sobre esta iniciativa ímpar no ensino artístico nacional

Carolina Freitas

Uma "colónia de férias musical". É como António Jorge Nogueira descreve o evento que criou em 2012, através da Followspot, empresa de agenciamento e management na área do clássico e do jazz, que dirige - o Festival de Música Júnior (FMJ). Uma iniciativa que convida estudantes de música de Portugal e Espanha, entre os 8 e os 21 anos de idade, para uma semana de intensa atividade musical, com masterclassses e ensaios de Naipe e Tutti em várias formações, como Orquestra de Cordas, Sinfónica, Big Band e Coro. A decorrer sempre em períodos de férias escolares.Não será exagero afirmar que a 1.ª edição do FMJ foi um momento histórico para o ensino artístico nacional. E até ibérico - "é um evento inovador, aqui e em Espanha", sublinha, ao JL/Educação, António Jorge Nogueira, coordenador artístico. No verão passado, acorreram a Montalegre cerca de 200 estudantes oriundos das melhores escolas de música da Peninsula Ibérica, para participar na iniciativa. E, no final, valeu-lhes a boa vontade da polícia e dos bombeiros, que 'fecharam os olhos' a duas salas a rebentar pelas costuras para assistir aos concertos de encerramento, no auditório municipal de Montalegre, com mais de 600 espectadores, e no Teatro de Vila Real, com cerca de 1200. Dois concertos "incríveis", recorda o mentor, onde os vários grupos tocaram durante mais de duas horas, ao lado de Maria João e Mário Laginha, os convidados desta 1.ª edição dedicada à música jazz.Agora, a história repete-se no FMJ - Estágio de Páscoa, a acontecer na semana de 18 a 23 de março, na Escola de Música do Colégio Moderno, em Lisboa, onde António Jorge Nogueira dá aulas de violino. Mantém-se o público-alvo - há 150 vagas para alunos entre os 8 e os 21, de Portugal e Espanha, com prática instrumental mínima de 3 anos, que podem inscrever-se até ao próximo dia 8 no sítio do evento (www.fmj.pt). Mas existem alguns 'ajustes' em relação à edição anterior. Desde logo, as formações: o estágio pode ser feito apenas em Orquestra de Cordas (iniciação e nível avançado) e na Big Band. Além disso, ocorre em regime de externato, o que só à partida poderá parecer menos apelativo. "Promovemos a vinda de miúdos de localidades distantes para ficarem em casa dos de Lisboa, e isso é muito interessante", revela António Jorge Nogueira. "Um senhor de Lisboa acabou de inscrever a filha e disse-nos que vai alojar uma estudante de Viseu. As duas ficaram amigas em Montalegre e arranjaram maneira de estarem juntas nestas férias da Páscoa", conta, de sorriso aberto. Para estimular o intercâmbio, os alunos hospedeiros têm um desconto de 25% na sua inscrição.Depois do Jazz, O Legado de Piazzola é o tema desta edição. De segunda-feira, 18, a sexta-feira, 22, entre as 10 e as 17 e 30, os alunos ensaiarão repertório do bandeonista e compositor argentino, que será apresentado em concerto no sábado, 23, às 18, no auditório da Faculdade de Medicina Dentária, em Lisboa, com a participação do saxofonista Henk Van Twillert e da acordeonista Carisa Marcelino. Além das aulas, o programa integra masterclasses de violino, com Augusto Trindade, e de técnica vocal de jazz e pop, com Joana Rios.E porquê Piazzola? "Cada edição terá um tema, e a ideia é dar-lhes oportunidade de aprenderem repertórios que, geralmente, não dão na escola. Fora do clássico", esclarece o coordenador. Música para Filmes ou O Humor na Música são outros dos temas na calha.

UMA INICIATIVA PEDAGÓGICA ÚNICA

Tudo começou em 2007, quando António Jorge Nogueira, então professor na Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML), foi convidado a organizar o Workshop OML Júnior. Em 2010, deixou a coordenação do projeto, porém, ficava a experiência e a vontade de "criar algo de novo" a partir dela. "Queria dar um salto qualitativo, e de dimensão", explica.

A importância da apresentação pública é uma das particularidades do Música Júnior. Afinal, o grande desafio é que os participantes consigam, em apenas uma semana, tocar o repertório que lhes é dado, sabendo que, no horizonte, está o palco. "Normalmente, o estudo nos conservatórios e nas escolas de música termina com um exame final. Quisemos dar o salto para a apresentação pública; criar-lhes condições para sentirem o que é estar em palco de uma maneira mais séria. É completamente diferente da experiência de um exame", assevera. No futuro, a ideia é mesmo aumentar o número de concertos de encerramento, criando um circuito em Espanha e em cinco municípios da região do Alto Tâmega - Montalegre, Chaves, Boticas, Vila Pouca de Aguiar e Ribeira de Pena.A descentralização é, de resto, outra das linhas de força do FMJ, sediado em Montalegre no verão e que, noutros momentos do ano, andará um pouco por todo o país. Não só porque a segurança e a monitorização dos jovens é mais fácil de garantir numa localidade sossegada, mas também para combater a desertificação cultural do interior, formar públicos e... também intérpretes. É que existe um Coro Juvenil, aberto a qualquer criança da região, com ou sem formação musical, cuja inscrição é gratuita.  "Um dia, depois do Festival, estava a passear à noite por Montalegre e veio ter comigo uma senhora, aldeã, de 80 e tal anos, para me dizer que tinha adorado o concerto. Disse-me: Fiquei até ao fim e se mais música houvesse, mais tinha ficado", recorda António Jorge Nogueira, confessando que, por ser natural de Montalegre, a reação teve um gosto especial. "Não há palavras para descrever o que senti".

TRABALHAR COMPENSA

As palavras também não lhe chegam para 'responder' ao feedback positivo de pais, alunos e professores, que falam sobretudo de uma "grande motivação". Para António Jorge Nogueira, essa é, de resto, a principal vantagem pedagógica do FMJ, e deve-se à conjugação de três fatores. Primeiro, o facto de trabalharem arduamente (mais de seis horas por dia) em função de um objetivo. O concerto. "Os alunos ficam surpreendidos com o nível que conseguem atingir numa semana e, no fim, é muito gratificante. Percebem que vale a pena lutar por objetivos, que trabalhar compensa", assegura. A motivação vem, ainda, da perceção da "importância do indivíduo no coletivo", diz. "Percebem que um músico não consegue fazer batota. Nos testes escritos, podem copiar do vizinho do lado ou levar cábulas. Num concerto não. Estão completamente despidos: ou aprendem a superar as dificuldades com prática e estudo, ou nada feito". Em terceiro lugar: o ambiente do Festival. O convívio. A partilha. As novas amizades. No verão, também o contacto com a Natureza. As atividades lúdicas depois das aulas: jogos tradicionais, campeonatos de futebol, kayak, BTT, rappel, escalada, a piscina, os banhos em cascatas naturais. E, claro, os "excelentes" professores. Porque, sem eles, nada disto seria possível.