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Cinco músicos para o futuro

Música

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Quinteto de Sopros da Metropolitana

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Tocam a 9 e a 16 de setembro, às 19 horas, no Jardim do Arco do Cego, integrando a programação do 4.º festival Lisboa na Rua. O JL foi conhecer o Quinteto de Sopros da Metropolitana

Francisca Cunha Rêgo

Estão alinhados num semicírculo. Concentrados no quinto andamento de Seis Bagatelas, do compositor húngaro György Ligeti. Cruzam olhares, dão entradas com um meneio de cabeça. Recomeçam. Voltam atrás. Apontam, a lápis, notas nas partituras para que olham fixamente. Param. Comentam o que fizeram. Riem. Insistem. Conseguem. O Quinteto de Sopros da Metropolitana constituído por Hugo Azenha, no clarinete, Tatiana Martins, no fagote, João Gaspar, na trompa, Catarina Castro, no oboé, e Irina Camões, na flauta transversal, ensaia para o primeiro de cinco concertos dos 'Clássicos na Rua', iniciativa que integra a programação do Lisboa na Rua, um projeto EGEAC, que decorre até 16 de setembro.

O Quinteto de Sopros da Metropolitana toca a 2 de setembro, no Jardim do Arco do Cego; a 9, no Jardim Fernando Pessa; e a 16, na Praça Luís de Camões. Sempre às 19 horas."Quisemos dar ao público um bocadinho de tudo. Vamos tocar Pierné, Piazzola, Ligeti, Schuller e Favre. E também Cinco Elegias, de Eurico Carrapatoso. Pensamos que é muito importante tocar um compositor português", conta ao JL, Tatiana Martins, fagote ao colo, 22 anos, natural de Avanca, perto de Aveiro. O trompista João Gaspar, 21 anos, nascido em Leiria, completa o raciocínio: "Temos que fazer música de compositores portugueses. Neste momento atravessamos uma crise não só económica, mas também de valores, e precisamos de sentir, e de fazer ouvir, que em Portugal existem autores de alto nível no panorama da música mundial". "Eurico Carrapatoso faz uma homenagem a cinco compositores que influenciaram o seu percurso e todos temos algo a aprender com ele. Esta obra ainda não está editada e o compositor deu-nos a autorização para a tocarmos. Foi muito especial para nós", completa o clarinetista Hugo Azenha, 22 anos, natural de Gançaria, Santarém. "Além disso, veio assistir a um dos nossos concertos. E, diga-se, gostou muito", acrescenta, entre risos, Catarina Castro, 21 anos, oboé nas mãos.

Catarina, que é natural de Amares, perto de Braga, e está a fazer um mestrado na Universidade de Artes e Música de Zurique, refere-se a um dos muitos concertos que este agrupamento fez - apenas com uma ligeira alteração no trompista, que era Gonçalo Pedrosa - durante o ano passado, em resposta a um desafio de criação de um quinteto proposto pelo diretor artístico da Metropolitana, Cesário Costa. "Desenvolvemos o projeto no âmbito da disciplina de Música de Câmara, com a professora Catherine Stockwell, mas depois ganhamos asas", diz Irina Camões, natural de Coimbra, neste momento a fazer um mestrado em Ensino da Música, na Metropolitana. Além de vários concertos em Lisboa e Coimbra, o quinteto participou no Harmos Festival (iniciativa com sede na Casa da Música, no Porto), num concerto na Antena 2, além de ter concorrido ao Prémio Jovens Músicos, tendo ficado entre os oito primeiros. Continuar a fazer música de câmara é um sonho futuro para todos. Irina Camões, que há quatro anos quando começou a dar aulas a crianças numa filarmónica, descobriu a "paixão" de ensinar, confessa que a música de câmara é "um enorme prazer". E com este agrupamento mais ainda. Hugo Azenha, que terminou a licenciatura este ano e pensa já num mestrado na Metropolitana, atira: "Fazer concertos deste tipo, a tempo inteiro, seria, conjugado com o trabalho numa orquestra, o ideal. Além de poder também tocar a solo". Para Tatiana Martins, que adora Vivaldi - muito por causa dos seus 38 concertos para fagote - e frequenta o 3.º ano da licenciatura, tocar a solo não é para si: "Gosto da ideia de grupo e de contribuir para um todo". João Gaspar, que frequenta o 1.º ano da licenciatura em trompa, acrescenta: "Nem todos temos que ser solistas. Se fizermos um trabalho digno e com afinco estaremos a respeitar a música. Isso é fundamental. Em Portugal temos muito bons exemplos de bons músicos. Eu quero ser um bom exemplo". No futuro, todos gostariam de continuar a tocar juntos. "Além de gostarmos muito de trabalhar em quinteto, somos amigos, e é por isso que o grupo funciona tão bem", refere Catarina Castro, uma 'fã' de Mahler, embora goste de todo o tipo de música, da clássica ao pop. João Gaspar remata: "Acredito que são jovens como nós que, com este tipo de apostas, ajudam a promover o nível cultural no nosso país. É preciso que as pessoas compreendam que estes projetos são importantes para nós, músicos, mas também para o público".

E no Lisboa na Rua há muito mais para ver e ouvir também nas áreas de dança, vídeo arte e cinema. Ainda na música, destaque para a iniciativa 'A Arte da Big Band', com orquestras de jazz portuguesas a tocar, todas as quintas, às 19 horas. A 30 de agosto, no Jardim de Campolide, a Tora Tora Big Band; a 6 de setembro, no Largo da Estação do Rossio, a Big Band da Nazaré; e a 13, no Largo de São Carlos, a Lisbon Underground Music Ensemble.