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Celina da Piedade: As sete vidas do acordeão

Música

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Tem pisado palcos ao lado de Rodrigo Leão, Mayra Andrade, António Chainho, Donna Maria ou Ludovico Einaudi, já participou em mais de 40 discos e em inúmeras bandas sonoras para cinema, televisão, teatro e dança. Lança-se agora a solo, com o disco duplo Em Casa, que nos convida a entrar no seu 'universo particular' - a reinvenção da música tradicional portuguesa.

Carolina Freitas

O nome desta rubrica pode gerar um malentendido junto dos mais distraídos. Vale a pena esclarecer: Celina da Piedade não é uma novata no mundo da música. Tem pisado palcos ao lado de Rodrigo Leão, Mayra Andrade, António Chainho, Donna Maria ou Ludovico Einaudi, já participou em mais de 40 discos e em inúmeras bandas sonoras para cinema, televisão, teatro e dança. Lança-se agora a solo, com o disco duplo Em Casa, que nos convida a entrar no seu 'universo particular' - a reinvenção da música tradicional portuguesa. Trata-se de um conjunto de temas que reuniu e compôs ao longo de mais de uma década em que, a par da colaboração com outros músicos, se dedicou à promoção da música e da dança tradicional, quer enquanto instrumentista e formadora, participando em bailes e oficinas, quer como investigadora na Associação PédeXumbo e no Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa.

"O mais difícil foi escolher de entre o vasto repertório", diz, ao JL. Mas de uma coisa estava certa: os amigos tinham que fazer parte da festa. O resultado é um disco duplo, com 20 faixas, que junta temas da sua autoria ('Assim me Explico" ou 'Janeiro Lento em Lisboa'), composições de, entre outros, Samuel Úria, Rodrigo Leão e Paulo Pereira, canções tradicionais com arranjos seus, e "experiências" como 'Calimero e a Pêra Verde' - onde mistura uma composição belga com um tema do Baixo Alentejo - ou 'Rebola a Bola' - que une um corridinho de Torres Vedras a outro de Loulé. "Vejo a folk como uma matriz coletiva. Também toco a francesa, irlandesa, alemã... Faz-me todo o sentido ir buscar essas sonoridades e trabalhar com elas. É esse o meu caminho".

Descobriu-o quando foi para Évora, estudar Património Cultural. "Tinha acabado de sair do Conservatório de Setúbal e sentia-me um pouco perdida. Não havia nenhum repertório que me enchesse as medidas. Até que um dia fui a um workshop de danças tradicionais, organizado pela PédeXumbo, e apaixonei-me por aquela folk desempoeirada", conta. Começou, a partir de 1998, a colaborar regularmente nos bailes e workshops da Associação (da qual é atualmente Presidente Honorária) e, em 2000, funda os projetos de música tradicional Uxu Kalhus e Modas à Margem do Tempo (entretanto extintos).

Foi também nessa altura que recebeu o telefonema de Rodrigo Leão, convidando-a a tocar com ele. Um momento tão inesperado quanto feliz: "Se nessa época me perguntassem com quem gostaria de tocar, eu diria com os Madredeus. Adorava o Gabriel Gomes [acordeonista do grupo], costumava tocar por cima dos discos... Aliás, gostava muito de projetos de música portuguesa moderna que usavam acordeão. Era muito refrescante perceber que aquele era um caminho possível". E foi. Depois de integrar o ensemble de Rodrigo Leão, as portas abriram-se. Hoje, podemos ouvi-la nos mais variados contextos, desde a música clássica até à intervenção humorística dos Homens da Luta. Celina da Piedade está na música como quem está em casa. É ver para crer, já amanhã, 20, no concerto de lançamento do álbum, às 21 e 30, na Fnac do Chiado, em Lisboa.