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AS BOAS PRISÕES

Música

Tiago Guillul

Tiago Ramos

Enquanto Tiago Cavaco, casado, com quatro filhos, não é ordenado Pastor da igreja Batista de São Domingos de Benfica, Tiago Guillul, o músico, deu à luz mais um disco, desta feita o V, e ainda encontra tempo para a editora FlorCaveira, o blog, ou para o skate. A edição especial (vinil e CD) é limitada a 333 unidades. Ao JL fala sobre a sua música, o 'Panque roque'.  

Sérgio Coimbra

 

JL: V é quinto disco, que há para ver neste novo álbum?

Tiago Guillul: É uma pergunta simples, mas difícil de responder. Há pelo menos 12 canções para ouvir. Acaba por ter alguma importância, porque há dois anos que não editava, (apesar de um projecto com uns amigos), e há três que não gravava nada.

 

Quando registou o IV, queria de imediato gravar o V?

É um instinto. Arranjei uma forma de atenuar essa fome, na segunda edição do IV, trazia uns extras, com duas músicas acústicas, que gravei na altura. Tenho me aguentado sem gravar nada, até porque a minha vida se tem tornado mais atarefada.

 

Quando diz 'aguentar' é no sentido de conter-se?

Não sou um grande génio ou talento, que está sempre a tentar 'furar', mas resulta da minha liberdade discográfica. No V, eu pensei - ok, depois de ter casado, dois anos é razoável -, e dei-me a alguma liberdade, para pegar na guitarra. O que sucede comigo, é que ao longo dos anos, quando tenho essa liberdade, as coisas surgem naturalmente. Funciona de modo a criar uma rotina. Portanto, se por um lado tento-me controlar, por outro lado, não me custava muito, porque também não pegava em instrumentos.

 

É fundador da FlorCaveira, o quê é? Uma congregação musical? Amigos que se juntam?

Se calhar é uma mistura dessas coisas. Sem dúvida é uma editora. Uma das ideias que passa, também porque nós a admitimos, é que somos uma espécie de família. Provínhamos de uma adolescência passada no 'panque roque'e no hardcore, a partir de 2008, quando a imprensa especializada se apercebeu de nós, basicamente funcionou como um rótulo, que agregava os desdobramentos musicais do meio. A partir dessa data, começa-mos a gravar pessoas, de quem gostamos e julgamos que fazem sentido, mas no fundo, somos um grupo de amigos, e tanto mais, que ainda continuamos a fazer discos em CD-R, como antigamente...

 

Não há uma liderança, ou cabeça dirigente?

Espero que seja uma 'cooperativa'. Às vezes chamam-me ditador, talvez seja revelador, espero que não, mas a verdade é que os fundadores, acabam por ter uma preponderância superior, eventualmente uma liderança, mas é uma coisa natural. Até porque acaba por ser um lugar de surpresas e muita liberdade, e o alargamento vai nesse sentido.

 



É editora que, num tempo de vida tão curto, 11 anos, tem uma grande produtividade...

Temos mais ou menos 30 discos. Essa produtividade, na minha opinião, é fruto de uma saudável diversificação (e alguma falta estratégia), que marca a editora desde o início. Basicamente é o resultado do que alguém quer fazer, um espaço de experimentação. Por exemplo, os Pontos Negros, têm um vínculo 'familiar e espiritual' connosco, gravaram a solo, apesar de agora pertencerem a outra etiqueta.

 

Beneficiaram com o sucesso dos Pontos Negros...

Acho que foram o projecto mais transformador. Foram eles que abriram a porta e captaram atenção para a editora. Tenho a noção que, sem eles não estaríamos aqui a ter esta conversa, se bem que, num primeiro momento custou, não foi fácil lidar com isso, mas isto faz parte da minha infantilidade. Já cá andava há tanto tempo, e pensar que os miúdos, a segunda geração, que apreenderam connosco, conseguiram uma receptividade melhor. Mas, é por mérito deles, pegaram em muitas das coisas que nós fazíamos, e conseguiram poli-las, a um ponto de as tornar mais acessível ao público.

 

Voltando ao disco. O meu carcereiro, quem é o seu?

A música fala da tensão que existe quando os meus amigos saem (muito), e eu não. E sobretudo, o escândalo de descobrir, ao fim de algum tempo, que sabe melhor ficar em casa. Já não tenho a disponibilidade boémia que tinha - sou casado, tenho quatro filhos -, e o meu carcereiro, no fundo é a minha família. São as prisões boas que nos acontecem na vida.

 

Não será Síndrome de Estocolmo?

(Risos) O truque com que Deus inventou a família é esse. Vai parecer muito mal, mas passado uns tempos, não se quer outra coisa. Talvez me tenha apaixonado pelos meus raptores...



E a Febre de 1993, "é 2010, mas sabe a 1993", o que significa?

1993 tem para mim uma importância simbólica. Tinha quinze anos, comecei a fazer bandas, tive a minha primeira namorada, e de alguma forma, mitifiquei a data. É uma forma de dizer que, me sinto tão predisposto para fazer música como nessa época. Agora, que me ouvem e escrevem sobre mim, acabam por não encontrar muitas diferenças.

 

Mas era mais punk?

Sim, era uma coisa mais 'panfletária'. Era mais novo, assumia uma postura natural dessa idade. Por outro lado, há uma certa vontade em fazer música, e de dizer coisas, algo que não mudou desde então para cá.          



Tem uma colaboração com o com o Rui Reininho. Os GNR são uma das referências do rock em português. O rock em Português voltou?

Essa espécie de regresso do rock, foi explorado pela imprensa. Nos anos 90, quando começamos a fazer música, havia muito pouco que achasse bom, no que se fazia em Portugal. E havia uma certa fuga para anos 80, para os GNR, Heróis do Mar, António Variações, e tentámos estabelecer com uma herança. O Rui, na minha opinião, é aquele continua a merecer toda a admiração. É de facto, das poucas estrelas de Rock que temos.



Uma linha condutora, que me parece reconhecível, na vossa editora, é a propensão para fazer a crónica da classe média ou mesmo da burguesia (João Coração). Cantam a classe média?  

Talvez. Apesar de não ser de esquerda, talvez seja uma certa consciência social, que volta e meia aparece. Há quem ache isso irritante. Nós crescemos na classe média e média-alta, vivemos experiências concretas nesse contexto, por isso parece-me natural. Por exemplo, Praia Verde, era um campo de campismo, no Algarve, que fechou no início dos anos noventa, para construírem um empreendimento de luxo. Foi o refúgio de muita classe média, que encontrou no campismo, uma forma de fazer férias.



Pode-se falar da falência da classe média, pelo menos, como a conhecemos?    

Bastava ver a situação de crise. Mas, por um lado acho que sim, na medida em que, a classe média de hoje permitem-se a luxos que outrora não tinham; por outro lado, somos mais ricos do que no tempo do meu pai.

Ao invocar a infância, pode-se incorrer no perigo de perverter a verdade, porque tudo parece perfeito. Ao observar com atenção, até era pior, mas tinha encanto. Hoje vivemos com cepticismo, não é fácil ir buscar forças a uma noção de optimismo, se as coisas não correm como julgávamos. E no meio desta embrulhada, surge uma certa nostalgia, uma certa saudade. Embora, com cuidado, para não mitificar o passado.    

 

A cantar é mais fácil passar a Mensagem?

Tudo o que dê para as pôr pessoas bater o pé, entra mais facilmente. Por isso, há uma diferença entre fazer música, e pregação. Apesar de algumas letras serem hermenêuticas, aquilo soa bem e passa na rádio, está óptimo para as pessoas. Nesse sentido possibilita uma aparência de comunicação que se calhar é ilusória, não significa que percebam. Aliás, admiro artistas que estão nos antípodas daquilo que eu acredito. O importante é que a música cumpra o seu espaço.    



Mas é um objectivo passar a Palavra nas músicas?

Não é um programa, mas também não é uma ideia completamente nítida para mim. Converter é o espaço da pregação, embora na adolescência o fizesse na música, mas pode surgir por uma sensibilidade natural, afinal são áreas que se invadem umas às outras. Sinto-me mais grato quando as pessoas gostam da música, e ainda mais, quando atraídas pela fé.



Ao contrário do que acontece, nos Estados Unidos, onde a seguir à celebração vão cantar para o bar, em Portugal, olham para si com alguma estranheza...

É verdade. A imprensa diz que ao Sábado, à noite, estou a rockar, e ao domingo de manhã, estou a pregar. Bem, já o deixei de fazer, mas é o facto do suposto recolhimento da espiritualidade, e a extroversão do rock, quando são metidas no mesmo frasco, dá origem a essa estranheza. Também há questões culturais que explicam essa diferença. Nos Estados Unidos, por exemplo, basta olhar para a cultura popular para perceber que está repleta de referências: Johnny Cash, Bob Dylan ou mesmo o disco-sound dos Boney M.

Lá, a Bíblia sempre dialogou mais com a cultura, e não causa surpresa, pela maioria ser Protestante. Em Portugal, a cultura religiosa é outra, nunca foi um país de Bíblia aberta.



Doxologia, é um agradecimento a Ele, que está sempre presente nos seus discos...

Embora retorcida, é uma forma de deixar um statement, relaciona-se com o facto de ser pregador. É dizer que, para mim, a fé é o mais importante, e se tenho de agradecer a alguém, é a Deus. Por exemplo, no hip-pop é ultra frequente.  



Já que fala sobre hip-hop, o Samuel Úria, diz que na FlorCaveira, algo como, "fazemos Rock porque somos demasiado branco para fazer hip-hop". É por serem da classe média?

É justo pensar assim. O nosso objecto é facto mais suburbano, também tem a haver com os estudos, mas sobretudo, o facto de sermos permeáveis às modas - o hardcore, ou até mesmo ao hip-hop. Mas ele (Samuel Úria) vem de Tondela, não é urbano. Num certo sentido, faz discos mais clássicos, que resistem melhor às modas.



Mas o punk junta-se ao rap na crítica e no protesto...

É verdade. Dizem que fazemos crítica social ou de intervenção, mas acho que não, nem é uma preocupação nossa. Trata-se apenas de cantar em português, parece mais directo.   

No punk, há duas bandas distintas que o tempo ajudou a vingar: os Sex Pistols, mais niilista, e os Clash, mais interventivos em termos sociais. Uma das coisas que eu notei, logo nas primeiras bandas, é que o punk é um espaço fechado. Associavam-nos sempre à direita, por sermos cristãos. Era espaço tolerante, mas não nos toleravam muito, por fazer e pensarmos de forma diferentes.



Falou nos Clash, este disco soa um pouco a Clash?

Eu gosto muito deles, e muito mesmo, e nos últimos tempos andei a ouvi-los muito...



Mas sei que em jovem, nem sequer os ouvia...

O primeiro punk que ouvia, era muito hardcore, nessa altura tinha uma ortodoxia rígida. O que queria, basicamente, era mosh. Apenas comecei a ouvi-los na faculdade, porque num certo sentido, era música mais intelectual. Uma das coisas que fazem os Clash enormes, é o facto de se abrirem e experimentarem, o gosto de quem faz discos com prazer e sem medo.



Quando preparava a entrevista, percebi que colocam sempre as mesmas questões - música, religião, abstinência, filhos -, parece que Tiago se esgota nesses rótulos. Que questão lhe devia ser colocada, e ainda não foi feita?  

(pausa) Acho que não responder de imediato, é sinal que andava a passar muito tempo a pensar no que haveria de responder. Um narcisismo ainda mais insuportável. Por vezes, as músicas já dizem tanto, parecem uma fonte mais interessante. Compreendo que continuem a falar de religião, porque também me ponho a jeito. O que digo é que, a partir de determinado momento, o público vai querer outra coisa. Penso que seria interessante que as pessoas fossem mais alguma coisa do que estão a dizer.



O videoclip tem muito futebol, calculo que goste?

Alguém disse que a música parecia um hino para o mundial, e acabamos por explorar essa ideia, a relação nostálgica com os cromos. Em determinado momento percebi que não era grande jogador e deixei de seguir. E, honestamente, creio que o futebol, enquanto fenómeno, não é assim tão interessante.



O futebol compete com a religião?

Acho que não se compara. Eventualmente, há jogos que chamam mais atenção. Alguém fez a comparação que o Benfica levou 200 mil pessoas às ruas, mas o Papa levou muito mais, sobretudo em Fátima.  



Deu-se demasiado destaque à passagem do Papa?

Não acompanhei muito, porque aquando a sua passagem, tinha um filho a nascer. Penso que faz parte de um tempo e um lugar que, a religião católica tem, e, afinal de contas, não é todos os dias que o Papa cá vem. Há mais de 90% de católicos, por isso compreendo. Eu convivo bem com isso, e julgo que existe um privilégio em ser maioria e em ser minoria.



Participa no programa a Fé dos Homens, transmitido na Rpt2. O tempo de antena da igreja católica é o maior, em relação às outras confissões religiosas. É justo?  

A maioria das pessoas que provêem de outras confissões religiosas, é de opinião que o tempo de antena é excessivo. A discrepância é enorme, mas é discrepância de uma televisão estatal, que tenta ser representativa, mas também proporcional.