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The Devil's Choice, canção por canção

Música

Bruno Pires

Em The Devil's Choice, que é como quem diz Venha o Diabo e Escolha, Raquel Ralha e Paulo Renato oferecem-nos um álbum de versões, onde percorrem algumas das suas maiores referências musicais. A pedido do JL, a dupla percorre o disco canção por canção.

Lado A:


PEEK-A-BOO

Além de gostarmos imenso do disco em que saiu originalmente este tema (Peepshow) sempre achámos a banda Siouxsie & the Banshees (curiosamente nesta fase mais tardia) um projecto com grande liberdade criativa, sem perder de vista um lado estético bastante aguçado e muito próprio.

Este tema, em particular, é um terreno bastante fértil para revisitar, uma vez que nos atrai imenso a forma como a canção foi construída a partir de riffs, melodias e arranjos vários, inclusivamente um lado B de um single de Louis Armstrong em ‘reverse’, que foi motor suficiente para construir uma música brilhante sem harmonia aparente ou, pelo menos, predominante.


UP JUMPED THE DEVIL

Apesar do facto de qualquer tema deste excelente disco de Nick Cave (Tender Prey) poder ser igualmente um candidato tão ou mais forte, este tema pareceu-nos um pouco mais pertinente para integrar esta lista, tendo em conta a temática condutora que queríamos seguir em The Devil´s Choice Vol.1.

PEOPLE ARE STRANGE

Embora não sendo o tema mais atraente dos The Doors para nós, quisemos que o nosso álbum tivesse alguns temas conhecidos do grande público. Consequentemente, People Are Strange era um tema que se prestava a uma recriação que tivesse pertinência no conceito do disco.

IN THE NIGHT

In The Night foi uma escolha se calhar menos óbvia de entre toda a discografia de Bauhaus, discografia essa que rodou até à exaustão em nossas casas e que, de vez em quando, ainda revisitamos. Abrandámos um pouco o ritmo da música na nossa versão, apesar de a intensidade esquizofrénica se ter mantido! Bauhaus foi uma das bandas reincidentes deste projecto, uma vez que tínhamos já incluído uma versão de Nerves no CD single de estreia.


SHINE ON (YOU CRAZY DIAMOND)

Dada a intensidade e a obscuridade da maior parte deste disco, sentimos a necessidade de ter alguns temas que funcionassem como “despressurizador” dessa energia mais negra, mantendo, ainda assim, algum peso característico da primeira metade da carreira dos Pink Floyd. Shine On (You Crazy Diamond) funcionou, neste disco, da mesma forma que tão bem serviu a Marilyn Manson para espantar das salas os seus seguidores mais ferrenhos após os concertos da tour Mechanical Animals. Esta “private reference”, por nós vivida em 1998, foi o mote para a escolha deste tema, quase 20 anos depois.

LADO B:


LEVITATE ME

Pixies teria que marcar, inevitavelmente, presença neste disco. Qualquer tema dos três primeiros discos seria igualmente interessante de revisitar; porém, optámos por nos dirigir a uma primeira fase mais crua e directa da banda. Levitate Me, de uma forma bastante objectiva, é um tema que nos fascinou desde sempre na carreira de Pixies. As estruturas musicais assimétricas presentes nos primeiros trabalhos da banda de Frank Black estão condensadas de forma brilhante nesta canção, fazendo dela um tema difícil de evitar.

GO TO HELL

Esta música emblemática cantada pela Nina Simone faz parte do alinhamento de um disco desta cantora que nos é muito querido (Silk and Soul). Para além disso, as palavras cantadas por Nina Simone faziam todo o sentido neste enquadramento temático. O cunho forte da voz desta intérprete, que fez com que versões de Beatles, Bee Gees, Duke Ellington, etc, soassem com a mesma coerência quando se debruçava sobre elas, foi um dos motivos para que Go To Hell fizesse completo sentido no alinhamento do disco.


I’M DERANGED

Não poderíamos fazer um disco de versões sem incluir uma homenagem ao David Bowie. Embora músicas de uma fase inicial fossem escolhas mais óbvias e fortes, decidimos focar-nos na década de 90 deste autor. I’m Deranged é o que mais próximo se pode estar do fado dentro da pop. O equilíbrio frágil entre a cadência da secção rítmica e a voz de Bowie que flutua ao longo desta foi um elemento preponderante na escolha deste tema.


A QUESTION OF LUST

Quisemos incluir uma música de uma das bandas mais emblemáticas na electrónica dos anos 80 e escolhemos este tema dos Depeche Mode, que nos levou a uma recriação mais orgânica e com uma fragilidade que quebra um pouco com alguma aspereza da abordagem geral de The Devil’s Choice Vol.1. No original, este tema é cantado pelo Martin Gore, cuja voz espelha essa mesma fragilidade que optámos por não “destruir”.

MOTHER

Embora John Lennon não fosse uma escolha óbvia, este primeiro disco com a Plastic Ono Band sempre foi um disco que nos atraiu pelas suas características e escolhas de produção, bem como a quase rudeza objectiva e directa das composições de John Lennon, sobretudo tendo em conta o contexto cronológico desse álbum. Mother resume e condensa em si todas estas qualidades do disco enumeradas e com a mais-valia da composição honesta e sentida que Lennon imprime a este tema.