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Grigory Sokolov: Uma aproximação ao inacessível

Música

O pianista russo, Grigory Sokolov, lança novo disco, após mais de uma década sem atuações em público.

Maria Augusta Gonçalves

É o pensamento constante sobre o piano e a interpretação, que marca o percurso do pianista russo Grigory Sokolov. Por isso, há sempre algo de novo nos seus recitais, nas suas (raríssimas) gravações, há sempre algo superado em cada apresentação, em relação à anterior.
Há mais de uma década que Sokolov não atua em público com uma orquestra. Mas o novo disco do pianista, na Deutsche Grammophon, reúne dois dos mais sedutores concertos do repertório: o n.º 23, em Lá maior, K.488, de Mozart, e o 3.º Concerto, em Ré menor, op. 30, de Sergei Rachmaninov. O de Mozart, com a orquestra de câmara Gustav Mahler, e o maestro (e pianista) Trevor Pinnock, recua até ao Festival de Salzburgo de 2005; o de Rachmaninov, por seu lado, vai mais atrás, aos Proms de 1995, e ao entusiasmo do festival de verão da capital britânica, com a Filarmónica da BBC e o regente Yan Pascal Tortelier.
Um e o outro testemunham assim um passado, ou vários passados, de Sokolov. E permitem, sobretudo, uma rara e improvável abertura ao universo do pianista – uma “aproximação ao inacessível”, como o próprio texto do CD o define. Uma porta aparentemente entreaberta para o seu universo.
A “chave” está no documentário “A conversation that never was”, de Nadia Zhdanova, que acompanha esta edição. É uma história sobre a história de Sokolov, uma recolha de imagens passadas, uma soma de depoimentos, que congrega amigos, familiares, que tem nos poemas de Inna Sokolova, mulher do pianista, um possível fio condutor, e que, no limite, permite iludir uma aproximação, através de uma conversa que, na prática, nunca existiu.
O novo disco é o terceiro de Sokolov na editora alemã, em pouco mais de dois anos. Sucede ao programa levado ao festival de Salzburgo, em 2008 (as Sonatas para piano KV 280 e KV 332, de Mozart, os 24 Prelúdios, op. 28, de Chopin, os dois “Poèmes”, op. 69, de Scriabin, “Les Sauvages”, de Rameau, e o coral “Ich ruf zu dir, Herr Jesu Christ”, de Bach), e ao que reuniu Schubert (o Impromptus, op. 90, e as três peças D946) e Beethoven (Sonata em Si bemol maior, op. 106), que deu origem a um duplo CD e um triplo LP, com as gravações em Salzburgo e em Varsóvia, assim como a um filme de Bruno Monsaigeon, feito na Filarmónica de Berlim, e publicado em DVD.
Sokolov apresentou-se em Portugal, há cerca de dois meses, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, na Casa da Música, no Porto, e no Convento São Francisco, em Coimbra, e regressará para o ano, de novo em abril.
O pianista atuou pela primeira vez em Portugal há 50 anos, a 14 de abril de 1967, no Teatro Tivoli, em Lisboa, com a antiga Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional e o maestro Silva Pereira, numa interpretação do 2.º Concerto para piano de Saint-Saëns e do 5.º Concerto, “Imperador”, de Beethoven (mais um encore de Stravinsky).
Sokolov tinha então 16 anos (nasceu em São Petersburgo, em 1950) e vencera o Concurso Tchaikovsky do Conservatório de Moscovo, em 1966, com uma decisão unânime do júri, presidido pelo pianista Emil Gilels.
Na altura, Sokolov começou a desenhar uma carreira internacional. Mas a morte do agente, o isolamento durante a Guerra Fria e a discrição habitual do pianista, que se dedicou ao ensino, limitaram o seu raio de ação ao Leste europeu.
Só nos anos de 1980 a sua presença no Ocidente readquiriu regularidade, confirmada na década seguinte. Datam desse período, concertos em França, em particular, e as primeiras gravações para a antiga editora Opus 111 (Naïve) – cerca de uma dezena de álbuns, em pouco mais de dez anos, e sempre de recitais ao vivo.
Em 2000, regressou a Portugal para o Festival de Música de Sintra, onde interpretou Schubert, Schumann e Chopin. Em março do ano seguinte, na Fundação Calouste Gulbenkian, ofereceu o 1.º Concerto para piano e orquestra de Tchaikovsky. Regressou em 2002, para os festivais de Sintra e da Póvoa de Varzim.
Desde então, tem sido regular a sua vinda a Portugal, sobretudo para as temporadas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e da Casa da Música, no Porto.
Em mais de 50 anos de carreira, Sokolov deu poucas e curtas entrevistas. Em quase todas confessou admiração pelos mestres da pintura europeia, como Rembrandt, Vermeer ou Van Gogh, por pianistas como Emil Gilels, Glenn Gould, Arthur Schnabel ou Rachmaninov, e recusou sempre a filiação na chamada "escola russa de piano", por entender que esse tipo de catalogação aniquila a arte, "conduz à morte". "O piano não é para mim um trabalho", disse. “É a minha vida, 24 horas por dia".