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Outro tempo, em Mateus

Música

Originalmente publicado com o título “The great chaccones of the Baroque”, o disco gravado por Marie Leonhardt regressa agora sob o nome de “Chaconnes & Passacailles”.

Maria Augusta Gonçalves

A imagem da capa deste disco pode ser um enigma – o pormenor de um quadro holandês do final do século XVII, com o conhecido recorte dos edifícios da margem do Herengracht, um dos principais canais de Amesterdão. Ao virar da página, aparece a reprodução integral do quadro; na volta seguinte, a entrada principal da Casa de Mateus, em Vila Real. Mais uma volta, e surge nova fotografia do solar setecentista, com a igreja do lado esquerdo, e o reflexo da composição barroca, no grande lago fronteiro.


O nome da violinista Marie Leonhardt, a “outra parte” do Leonhardt Consort, do cravista e regente Gustav Leonhardt, dissipa qualquer suspeita. O Ensemble Baroque de Mateus, que encima o título do disco, “Chaconnes & Passacailles”, é mesmo o de Mateus, criado a poucos quilómetros de Vila Real, e não o francês Matheus, de Spinosi. A expectativa inicial tem assim todos os motivos para se transformar em entusiasmo, porque esta também é a memória de um tempo mais do que extraordinário, dos extraordinários Encontros de Música da Casa de Mateus.


Sim, este é o regresso do disco gravado por Marie Leonhardt, no palácio trasmontano, no início dos anos 1990, com uma dúzia de jovens músicos, então em início de carreira, como os violinistas Florian Deuter, Andrew Manze e David Watkin, ou o cravista Richard Egarr, que aí frequentavam os cursos de verão, com os mestres, como o casal Leonhardt, o violoncelista Anner Bylsma ou o violetista Jurgen Kussmaul, entre muitos mais. Sim, este é o disco há muito esgotado, originalmente publicado com o título “The great chaccones of the Baroque”, com o “selo” Grande Canal, agora acrescentado da “Chaconne em Ré menor”, da 2.ª Partita para violino solo de Johann Sebastian Bach, gravada por Marie Leonhardt, em 2003. Mas esta não é “apenas” a reedição desse tesouro, agora com mais um rubi. É muito mais. É testemunho de um tempo determinante da prática musical, gravado já nos anos de maturidade da mudança, mas no seu epicentro.


Bastam as imagens que acompanham este disco, para se perceber o gesto de reconhecimento aos músicos que mudaram os paradigmas de interpretação, nos últimos 60 anos, em particular ao cravista e regente Gustav Leonhardt e à violinista Marie Leonhardt. Pode ser um sinal discreto, talvez subtil, mas é o suficiente para se perceber que esta é, sem dúvida – e provavelmente até por essa subtileza –, uma das maiores e mais fortes homenagens a essa geração, do tempo que viveram, da história que definiram.


Logo à partida, este álbum oferece uma reprodução do quadro de Jan van der Heyden, no qual se encontra retratado o edifício Bartolitti de Amesterdão, onde, cerca de três séculos mais tarde, viria a residir o casal Gustav e Marie Leonhardt. O disco reúne gravações que remontam a 1990, dirigidas pela violinista, quase todas feitas em diferentes edições dos Encontros de Mateus. Revive histórias e o pequeno livro que o acompanha recupera imagens desses encontros, dos ensaios na biblioteca, às aulas nos anexos junto à igreja, durante os cursos de verão. Este título inaugura ainda o catálogo da editora independente L’Autre Monde, novo desígnio do melómano, musicólogo e programador francês Jean-Paul Combet, que retoma as preocupações estéticas/éticas do seu antigo projeto, a editora Alpha, entretanto assimilada pelo grupo belga Outhere.


No texto que acompanha o CD, Combet recorda o último encontro com Leonhardt, no natal de 2011, poucas semanas antes da morte do mestre, e explica a determinação de continuar a publicar “objetos um pouco arcaicos”, como um disco, em jeito de resistência, “porque os humanos precisam sempre de ter alguma coisa entre as mãos” – dissera-lhe o regente.


Segue-se o texto original de Marie Leonhardt, sobre as danças desta recolha e os seus compositores: Henry Purcell, Biagio Marini, Danis Gaultier, Maurizio Cazzatti, Antonio Martin y Coll, Heinrich Ignaz Franz von Biber, Antonio Caldara, Johann Caspar Ferdinand Fischer. Por fim, um perfil da violinista, assinado por Gaëtan Naulleau, da France Musique e da revista Diapason.


A origem do chamado movimento da interpretação historicamente informada, e o percurso da violinista, são recordados por Naulleau. Os sujeitos da primeira frase são os protagonistas dessa revolução (de facto), iniciada na suspeita de que Bach e Handel e Purcell não soariam exatamente como o gosto dominante, na época, fazia crer. São Marie e Gustav Leonhardt, Alice e Nikolaus Harnoncourt (falecido a 05 de março), o britânico John Eliot Gardiner, o catalão Jordi Savall, alguns mais.
Essa suspeita de que tudo poderia soar de diferente maneira, essa inquietação, a capacidade de estabelecer pontes de décadas ou de séculos, entre gerações de músicos e de compositores, é provavelmente um dos mais belos acontecimentos, na prática musical das últimas décadas. Talvez um dos mais belos, desde sempre. E teve impacto a todos os níveis da interpretação, exigindo – poderá resumir-se desta maneira – pensamento, muito pensamento caso a caso e, acima de tudo, vida.


A história de Marie Leonhardt, a história desta gravação e, necessariamente, a história dos Encontros de Música da Casa de Mateus são exemplos desse processo.


As gravações aí efetuadas, que se encontram em “Chaconnes & Passacailles”, datam de 1990-91 e possuem a riqueza do ambiente dos Encontros. A antologia atravessa os séculos XVII e XVIII, de Biagio Marini a Antonio Caldara, numa sequência de danças e de representações dos “estados da alma”, da melancolia de Purcell, à grande expressão programática de Biber, nas obras aqui reunidas: a “Passacaglia”, para violino solo, das “Sonatas do Rosário”, a terceira Partita, da “Harmonia artificiosa”, e a outra terceira Partita, da “Mensa Sonora”.


A “Chaconne” de Bach encerra a sequência. Foi gravada por Marie Leonhardt, em 2003. Até agora, estava disponível apenas num pequeno “disco-amostra” dos “Diapason d’Or”, do número de setembro de 2005 da revista francesa, dedicado ao mestre de Leipzig. Com a sua entrada nesta edição, algo da ordem do mundo se repôs. De um “outro mundo”. De um outro tempo.


Na última década, muito mudou. A casa Bartolitti, em Amesterdão, deixou de ser a residência dos Leonhardt e a coleção de arte do regente, que morreu em 2012, foi leiloada, na Sotheby’s, em Londres.


Marie Amsler-Leonhardt vendeu igualmente o violino Jacob Stainer de 1676, a prenda de casamento, que sempre a acompanhara. É um instrumento de “temperamento forte”, um dos protagonistas de “Chaconnes & Passacailles”.
O gesto, porém, traduz confiança no futuro e, de algum modo, na violinista Sophie Gente, atual detentora do instrumento. “Claro que vendi o ‘meu’ Steiner”, disse Marie Leonhardt, citada por Naulleau, no final do seu texto. “Parei de tocar – ‘vous savez’ – e um instrumento é feito para ser tocado. Não se punha sequer a questão de o deixar a vegetar numa gaveta, como uma relíquia. Não suportaria vê-lo parado, inerte, como um amigo incapaz de entender por que motivo deixaram de falar com ele”. A edição de “Chaconnes & Passacailles” é um gesto pelo pensamento, que prossegue essa revolução interpretativa encetada há décadas, e que assenta no mais humano dos dons: a capacidade de cada um se colocar no lugar de outro