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O triunfo do barroco português

Música

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Francisco António de Almeida - II Trionfo d'Amore

Maria Augusta Gonçalves

No final do ano passado, o Ensemble Il Fondamento, de Paul Dombrecht, um dos mais importantes agrupamentos na investigação e resgate da música pré-romântica, interpretou, em Ghent, na Bélgica, a oratória “La Giuditta”, de Francisco António de Almeida. “Um compositor à dimensão de Handel”, lia-se no programa do grupo belga.


Paul Dombrecht não podia fazer por menos. Handel é Handel. E Francisco António de Almeida é um compositor que lentamente se descobre, com grande parte da sua produção provavelmente perdida no terramoto de 1755 (de que ele mesmo, terá sido vítima), mas que, a cada obra resgatada, se revela um dos melhores e mais notáveis criadores, a nível europeu, no esplendor do Barroco tardio.


“Il trionfo d’amore” é mais uma “peça” nesse edifício magnífico que tem vindo a ser desvendado. Vem pelas mãos dos Músicos de Tejo, depois do sucesso da ópera cómica “La Spinalba”, e, à semelhança desta, surge em disco cerca de dois anos depois da passagem pelos palcos.


“Il trionfo d’amore” é uma serenata, um “scherzo pastorale”, algo que se situa entre uma cantata profana e uma ópera. Inscreve-se nos espetáculos de câmara da corte, e foi estreada em dezembro de 1729, em homenagem a D. João V.


Como serenata, o seu enredo não tem grande densidade. É, na prática, um divertimento, uma sucessão de quadros – recitativos, árias – que conduzem à conclusão desejada, o elogio do amor e o seu inevitável triunfo.


A música, no entanto, tem uma dimensão que transcende as possíveis “limitações” do libreto, com árias inspiradas, que traduzem toda a contradição dos “afetos”, em extraordinários contrastes, que vão da melancolia ao puro contentamento, da dor à mais pura festa. E tudo emerge de uma “construção” espantosa, de uma escrita riquíssima, de uma sofisticação surpreendente, em particular a nível harmónico, e de uma inspiração melódica contagiante, que também apela à dança, ao envolvimento do próprio corpo.


Depois, é a orquestra, a eloquência da instrumentação, como impõe a essência do barroco, a sedução que vai da abertura – que deixa perceber como devem ter sido belos os concertos de Almeida –, à plenitude do coro final.


“Il trionfo d’amore” é uma obra posterior a “La Giudita” (Roma, 1726), que antecede em cerca de dez anos a ópera “buffa” “LA Spinalba”, e que faz justiça ao bolseiro de D.João V, em Roma (à semelhança de António Teixeira e João Rodrigues Esteves), e ao domínio do melhor dos recursos técnicos da época.


A interpretação é soberba. Reúne cantores de primeiro plano no repertório – os portugueses Ana Quintans (soprano que recentemente foi Jonathas, de Charpentier, com o maestro William Christie, em Aix-en-Provence e Edimburgo), Fernando Guimarães (tenor que este ano protagonizou “O regresso de Ulisses”, de Monteverdi, em Boston), Joana Seara, soprano, e Catia Moreso, meio-soprano, João Fernandes, baixo, e ainda Carlos Mena, o contratenor espanhol, protagonista de muitos projetos de Jordi Savall, entre outros regentes de primeiro plano, aqui no papel de Arsindo, o amante secreto de Nerina (Quintans). Aos solistas junta-se o coro Voces Caelestes, de Sérgio Fontão, e Os Músicos do Tejo, em instrumentos em uso na época, sob a direção de Marcos Magalhães.


Atente-se em “Se m’abbandoni”, dueto de Arsindo e Nerina, ou na ária “In queste lacrimae”, entre tantos outros momentos de exceção, para se perceber a vitalidade de Francisco António de Almeida e como é possível o desabafo do agrupamento de Paul Dombrecht: “Um compositor à dimensão de Handel”.


A versão aqui gravada resulta da consulta do manuscrito autógrafo original, depositado na biblioteca do Paço de Vila Viçosa (uma versão anterior, editada pelo maestro Jorge Matta, foi apresentada em Lisboa, no âmbito da Capital da Cultura, durante a temporada de música da Fundação Calouste Gulbenkian).


“Il trionfo d’amore”, em disco, surge cerca de década e meia após a gravação de “La Giudita”, por René Jacobs (Harmonia Mundi), e do mais recente “Te Deum”, por João Paulo Janeiro, Flores de Música e a Capella Joanina (MAAC). Há cerca de três anos, a Orquestra Barroca Casa da Música fez a estreia moderna da serenata “L’Ippolito”, mas sem edição discográfica.


Em 2012/13, “La Spinalba” (Naxos), também pel’Os Músicos do Tejo – que assinalam dez anos com esta gravação –, foi um dos discos mais vendidos do ano, a nível mundial. “Il trionfo d’Amore” tem tudo para repetir o feito..