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PZ: Música para gente estranha

Música

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Conheça em primeira mão O Que Me Vale És Tu"!. o novo teledisco do álbum de PZ, "Rude Sofisticado". E leia a entrevista



Tem uma música para elogiar os croquetes e outra para falar da corrupção nas autarquias. Eletrónica de intervenção é uma classificação estranha para falar da nova aventura de PZ. Um one-man-show de um músico irrequieto, membro da Zany Dislexic Band e fundador da Meifumado. O JL conversou com este rude sofisticado.



JL: Rude Sofisticado é um álbum de eletrónica de intervenção?

PZ: Parece uma definição possível. Este não estava para ser um disco de intervenção, mas depois de ouvir há um sentido de crítica política implícita. Gosto de fazer música de intervenção não muito séria, mais humorística, trabalhando o sarcasmo e a ironia. Em alguns temas encaixa bem essa definição.



O trabalho musical é solitário?

Tal como em Anticorpos, de 2005, que foi todo feito por mim, com as máquinas que tenho para lá, os sintetizadores, os samplers. Surge uma letra e depois a música ou vice-versa. É um trabalho de overdubs, de ir gravando camadas por cima de outras. Com muitos improvisos, às vezes também a nível das letras. É tudo feito à noite no meu estúdio, que é também o meu quarto. Coisas que vou ouvindo na minha cabeça e exprimo assim.

 

Ao ponto do próprio design da capa ser feito por si.

Também tenho formação em design e em edição de vídeo. Por isso, alguns dos telediscos são feitos por mim.



E o de Autarquias?

Não, esse se o fizesse sozinho ainda estava por acabar. Foi a Sardinha em Lata, que trabalha na animação. Para aquela música queria oferecer um presente envenenado à sociedade portuguesa. E através da animação sobressai a ideia do monstro que ninguém vê, mas existe, e vai sugando as nossas economias. Foi muito bem realizado pelo Nuno Beato.



O primeiro tema, Introdução Maligna, como que define um público-alvo que ainda não se sabe bem qual é.

É uma das músicas mais antigas. Já tinha imaginado como um chamamento estranho e surreal para as pessoas fora do normal que se podem rever na música e na atitude do disco. É uma introdução maligna, mas sem ser para magoar ninguém.



Só as pessoas estranhas é que podem entender este disco?

[Risos] Espero bem que não apenas essas. Mas todas as pessoas têm o seu lado estranho, algumas não gostam muito de abraçá-lo, preferem escondê-lo. E estão no seu direito. Mas há sempre um lado estranho e interessante na vida de cada um.



O que este disco tem de rude e o que tem de sofisticado?

Houve uns amigos que me disseram que eu era um rude sofisticado. Achei graça e identifiquei-me com essa imagem. Aqui, rude serão as letras, a maneira de cantar, o tom e o minimalismo das músicas. O sofisticado será a ironia e a beleza das coisas estranhas que tento pôr nas minhas música e nas minhas letras., Há sempre várias interpretações e um mal-humorado bem-humorado.



O disco insere-se, em termos mais latos, na estética da Meifumado, editora que tem feito um trabalho notável sobretudo na eletrónica.

A Meifumado é um projeto que tenho com o meu irmão, o Renato Araújo e o Sérgio Freitas, que também são elementos da Zany Dislexic Band. Aliás, foi aí que tudo começou. A ZDB é uma banda de improviso com um estilo muito elétrico, não há nada de eletrónico no disco a não ser a estética. Há outros discos que são mais eletrónicos. Começou pelas influências que tivemos, a cena pop dos anos 80 e 90 e o trip-hop. Mas esse foi o início e agora temos um pouco de tudo, até editámos um disco de jazz. Procuramos sempre coisas diferentes. Abrange todo o tipo de música, mas nunca são géneros muito qualificáveis. Não vejo a Meifumado como uma Ninja Tune ou uma Warp, mas mais como uma Matador Records. Temos tido um bom feedback. E mantemos o utópico objetivo de criar e editar boa música.



Manuel Halpern



PZ, Rude Sofisticado, Meifumado