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Vitorino Nemésio: O conhecimento da perda

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Nemésio diz que a morte é a "foz das vidas", de modo que o finito se torna completo como um rio o é em si mesmo na sua infinidade

Fernando Guimarães

O Verbo e a Morte é o título de um livro de poemas de Vitorino Nemésio (hoje podemos lê-lo nas Obras Completas, Poesia, vol 2.º, editado pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda). Neste livro, Nemésio soube conjugar uma incipiente e difusa reflexão filosófica com uma segura expressão poética, abrindo caminho a uma viva inquietação de raiz existencial ou, mesmo, ontológica. Isto não nos deve surpreender num livro onde uma ocasional, mas percuciente, referência ao filósofo alemão Martin Heidegger dá o tom à inquietação reflexiva do poeta que nos fala do "tempo de ser", das "espiras tonais do desespero", do "possível de Deus", da heideggeriana "casa do Ser", do "estame do amor, pólen do Logo, / que é maneira de Deus com nossas vidas".

A obra de Nemésio tem vários registos, há nela múltiplas derivas expressivas, enfim é animada por uma grande diversidade: a incidência no tempo através da recordação, a procura de um paraíso perdido que pode ser o da infância, a exploração por vezes surrealizante de um imaginário desbordante, o súbito encontro do "grande segredo" das vozes ou da linguagem, o modo como se aperta nele o círculo da família ou o do amor, a ironia, o aceno de uma religiosidade problemática e, ao mesmo tempo, íntima, a evocação das vozes populares açorianas ou do Brasil, ou até, como nota Fernando Pinto do Amaral que dirige este número da revista dedicado a Vitorino Nemésio, um sentido lúdico infantil. Mas, aqui, vamos fixar-nos no que se poderia designar por um conhecimento da perda, porque Vitorino Nemésio soube também exprimi-lo no que escreveu.

Num dos poemas do livro atrás citado diz-se: "morte seria vida que amanhece". Talvez se possa ler neste verso algo que se aproxima de Heidegger quando ele na sua célebre obra Ser e Tempo teoriza sobre a morte. O destino da nossa existência - isto é, do indivíduo humano - é o regresso ao nada: o homem é um "ser para a morte". Mas é a tensão emocional, a preocupação aqui latente que faz com que a existência ganhe sentido. A consciência da nossa finitude concorre para que a nossa existência se empenhe na sua autenticidade. Ela é uma "maneira de ser". Por isso Nemésio, em o Verbo e a Morte, diz que a morte é a "foz das vidas", de modo que o finito se torna completo como um rio o é em si mesmo na sua infinidade.

Um pensador de língua espanhola, Eugénio Trias - afastando-se, aliás, de Heidegger e inspirando-se em Nietzsche - admite que o sentido da morte reside na noção de futuro a partir do horizonte da nossa existência, num eterno retorno (estando aqui, neste eterno retorno, a pegada nietzschiana). Note-se que Trias não interpreta esta noção como se ela se reduzisse a uma mera repetição cíclica. Não é um círculo, é uma espiral, uma figura que apresenta em si mesma a potencialidade de um progresso. Ou, melhor ainda, de um movimento ou existência vital. Daqui deriva uma permanente tensão ou, como diz Trias, a afirmação de um "eros produtivo", de uma projetiva realização criadora que se manifesta através do conhecimento, da ação, da própria criação artística.

A partir destas raízes mais ou menos nietzschianas ou daquelas que são as que a obra de Heidegger lança - e de que Nemésio mais se aproximou - podemos entender como neste poeta um tema, que neste caso é o da morte, se pode tornar poema, revogando assim o enquadramento reflexivo estritamente lógico que a Filosofia por vocação há de consagrar, sem que, com essa perda, o enlaçamento da reflexividade com a poeticidade tenha que ser posta em questão. Não o foi em Nemésio, até porque ele soube "exprimir isto que faz o fundo do homem". Ora um empenhamento como este pode ser entrevisto em alguns ensaios que saíram neste número da Relâmpago. Nele, além de uma recolha da correspondência com Miguel Torga, de um diário (que, aliás, é uma sucessão de cinco poemas inéditos), de vários testemunhos e de uma biobibliografia, encontram-se três ensaios de fundo assinados por Fátima Freitas Morna, Fernando J. B. Martinho e Rita Patrício.

No artigo de Fátima Freitas Morna há uma passagem que, se a adaptarmos à questão que tem sido aqui tratada, pode exprimir bem como uma ideia ou um tema pode surgir num poema não enquanto ideia ou tema, mas como transferência metafórica, como figura, de modo que tal transferência se insere, como neste ensaio se diz, numa "poética que se concebe como inseminação e multiplicação de sentido através da organização, isto é, da ordenação em sistemas, das palavras, sumariamente entendidas como seres dúplices, de som e sentido". E este ponto de vista é corroborado, noutro contexto, por Fernando J. B. Martinho quando refere o modo como Nemésio explora "todo o tipo de variações em torno das metáforas, e o desenvolvimento das formas musicais que fazem uso sistemático das variações sobre um tema".

Quando o poeta nos confidencia "compareço à morte" - sendo este um passo de um poema que Rita Patrício comenta no seu ensaio -, recupera na palavra morte que é som e sentido uma metáfora que ganha certas virtualidades reflexivas que a finitude ou a superação dessa finitude tem levantado e que poderíamos aproximar da já citada noção de "eros produtivo", noção essa que não anda longe daquele "sangue adiante" ou criatividade vital de que nos fala também esta poesia de Nemésio que no ensaio em questão é citado: "Se me ficar da vida o tê-la certa noutros, / como a brasa que passa ao pinhal o clarão, / fica-me muito: à morte compareço / perdido do sangue adiante, aonde eles já vão".

Tudo isto vai ao encontro de outros dois livros publicados recentemente. Neles perpassa como se afirma num deles, embora sob uma forma geralmente diferida, uma reflexão sob a morte. São eles Quando se Apagam as Cerejeiras, de Luís Serrano, e Concerto ao Vivo, de Rosa Alice Branco. Com efeito, Luís Serrano é sob uma forma implícita que no seu livro por vezes se refere à morte; o último poema, porém, intitula-se Escrevi sob a morte: "escrevi sob a morte / sobre as neblinas que a precedem / [...] encostei o ouvido à terra". O diferimento advém do facto dos poemas serem, como no livro é referido, "uma reflexão sob a morte filtrada através de grandes obras de arte nos domínios da pintura, escultura, música, cinema e literatura". E, sendo assim, talvez pudéssemos falar de novo no "eros produtivo", isto é, na possibilidade do homem se metamorfosear nas suas próprias criações...

Luís Serrano recorre à ekphrasis, isto é, à descrição. E fá-lo de uma maneira que se diria quase literal, exata, marcada intencionalmente por uma espécie de secura, o que converte todo o poema na própria metáfora da visibilidade: "os tempos / intersetam-se não na terra mas na tela; / são contemporâneos de El Greco / os cavaleiros o rosto sombrio /pela amargura da despedida // É o primeiro quadro coletivo / da arte espanhola / mas o senhor de Orgaz está só / embrulhado na sua morte / que é única e à qual está / unido para sempre".

Na poesia de Rosa Alice Branco há também essa consciência da perda, como se pode entrever nestas passagens: "eras tu que já não eras e ocupaste /todos os lugares da tua ausência", "ainda não me tinhas dissolvido / nas cores da noite", "a casa tem pó nas dobras / do vestido. // Tens um dia mais / que a tua ausência", " as raízes expostas. / [...] As mãos caem na terra / e apodrecem ao sol". Há ao longo destes poemas uma notação muito viva da relação familiar, sobretudo materna e fraterna, a qual se alarga para um espaço que é o da casa: as paredes, a despensa, o quintal ... Tudo isto é pontuado por referências - geralmente apresentando-se como epígrafes que antecedem alguns poemas - letras de composições musicais brasileiras bem conhecidas (Chico Buarque, Maria Betânia, etc). É numa circunstância como esta, aliás, que se apoiará o título do livro: Concerto ao Vivo. Ora tal título, como antítese, dá particular relevo a um sentido em que o conhecimento da perda se pode conjugar com o da morte.



Vários Autores

Relâmpago N.º 28 (dedicado a Vitorino Nemésio)

Fundação Luís Miguel Nava, 234 pp, 14 euros



Luís Serrano

Quando se Apagam as Cerejeiras

Chiado Editora, 106 pp, 10 euros



Rosa Alice Branco

Concerto ao Vivo

& Etc, 68 pp, 12 euros