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Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013) O escritor e o cidadão

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Um dos mais importantes nomes da Literatura Portuguesa da segunda metade do século XX morreu aos 89 anos. Deixou um vasto legado estético de quatro dezenas de ficções, além de numerosos ensaios e traduções. E a ética de um escritor que amava a liberdade, a justiça e a tolerância. O JL evoca a sua vida e obra, designadamente com textos de Maria Alzira Seixo, Maria Graciete Besse e Miguel Real

Maria Leonor Nunes

Escrevia sempre. Inevitável e avidamente. Urbano Tavares Rodrigues tinha a "ânsia" de escrever e de viver. E nele dificilmente se poderia separar a vida e a obra, como adiantava ao JL, em 1993, quando saiu o seu romance Deriva: "A escrita é sempre autobiográfica, assim como a biografia não deixa de ser romanesca".

Uma ideia que já afirmava ao JL  em 1991: "Boa parte da minha obra é projeção da minha vida. Não no sentido biográfico, mas naquele em que espelha preocupações, angústias, esperanças, formas de estar no mundo (...) As minhas grandes opções e as minhas grandes rejeições marcaram inegavelmente o que escrevi".

Noutra das muitas entrevistas que ao correr do tempo deu ao JL, onde de resto colaborou desde o primeiro número, por ocasião da publicação de Nunca Diremos Quem Sois, em 2002, ano em que celebrou meio século de vida literária, distinguida com o Prémio APE em 2003, Urbano sublinhava mesmo a  importância vital da Literatura: "Para o meu equilíbrio fazem-me falta duas coisas, quase como respirar: ler e escrever".

O amor, a morte e a solidariedade social foram, ao correr de seis décadas, os três pilares temáticos da sua ficção, que se desdobrou em romances, novelas e contos. Ao todo, somando ainda o ensaio, a crítica, os livros de viagens, são quase uma centena de títulos publicados, a que se acrescentará ainda um livro póstumo, Nenhuma Vida. Escrito no princípio deste verão, constitui uma espécie de testamento literário, a sair no final do ano na D. Quixote, que está a editar as obras completas do escritor. Com essa publicação a editora pretendia assinalar os 90 anos de Urbano, que completaria a 6 de dezembro se a morte não tivesse chegado primeiro, na madrugada do passado dia 9 de agosto. Parou-lhe o coração. E tinha-o grande. 

Não foram poucas as vezes em que a uma afronta respondeu com um murro direto - praticou boxe e natação, fazia ainda umas 20 piscinas já com 70 anos -, mas apesar do temperamento impetuoso, Urbano era acima de tudo um homem gentil, de uma enorme generosidade e coragem, com uma "costela de comunista e outra de franciscano", como disse certa vez. Uma condição que também transparece na sua obra. Era um escritor amável, mesmo quando a sua literatura era de "combate".

"Não tenho qualquer fé religiosa, sou um homem do Iluminismo, um livre-pensador. Sinto, porém, a Natureza como divina, numa renovação permanente de que fazemos parte, como os animais e as plantas", afirmou ao JL, em 2007, altura em que celebrou os 55 anos de publicação do primeiro livro, A Porta dos limites, de 1952. "Penso que não vamos para nenhum céu ou inferno, mas alguma energia se liberta dos seres que vão morrendo. É como uma cadeia, vamos sendo substituídos, mas alguma coisa fica". Dele ficará  uma  esfusiante energia criativa, a grandeza ética de uma vida exemplar, tanto no domínio da Literatura, como na docência universitária, no jornalismo e na intervenção política e de cidadania. 

 

Fiel a si próprio

"Vivi muito", reconheceu, numa das últimas conversas. Na proporção direta, naturalmente escreveria muito. A certa altura, à média de um livro por ano, um ritmo só afrouxado após o 25 de Abril, porque a Revolução impunha outras prioridades. E ao correr dos tempos, a sua veia ficcional pulsou mais existencialista nos primeiros livros, como é o caso de A Noite Roxa, interventiva como em Os Insubmissos, e sempre com um mesmo cuidado estético, de que é exemplo Bastardos do Sol, o seu livro mais vendido, 80 mil exemplares. "Enfim, eu sou tudo isso: existencialista, até surrealista, realista social... E onírico", afirmava ao JL na referida entrevista de 2007. "Mas, além de tudo isso, sou eu próprio: um escritor que tentou sempre escrever o seu livro, o seu grande livro, e achando que ainda não era aquele. Fui sempre escrevendo mais, com a preocupação de não me repetir".

Urbano Tavares Rodrigues nasceu em Lisboa em 1923, mas seria batizado já em Moura, onde passou a infância, na herdade do pai, Urbano Rodrigues, o Monte da Esperança, a 5 quilómetros, uma propriedade que mais tarde, tal como o irmão, o jornalista Miguel Urbano Rodrigues, doou ao Sindicato dos Trabalhadores Agrícolas de Beja. Só deixou essa sua "pátria", como costumava dizer, aos 10 anos para  estudar em Lisboa, no Liceu Camões e depois na Faculdade de Letras, onde se licenciou em Filologia Românica, em 1949.

Da infância alentejana ficou-lhe, como disse ao JL, "um paraíso, depois perdido, a que sempre quis voltar. E a descoberta ainda da miséria, do povo".

Se cedo despertou o seu sentido literário, porque a casa dos pais era cheia de livros e começou a ler tudo o que apanhava à mão, precoce foi também a sua consciência da desigualdade e da injustiça. Na faculdade, com Augusto Abelaira e David Mourão-Ferreira, liderou uma greve académica em 1947 e alguns anos mais tarde integrou-se nas Juntas de Ação Patriótica. Estaria ligado à revolta da Sé e ao assalto ao Quartel de Beja, participando ativamente na luta contra o fascismo, ajudando mesmo a 'passar' muitos clandestinos que transportava até à fronteira no seu próprio carro. Foi preso e torturado várias vezes, a primeira das quais em 1963. Durante uma prisão em 1968, escreveu Contos de Solidão, usando papel higiénico e um aparo de mina, porque tudo lhe tinha sido retirado. Em 1969, aderiu ao Partido Comunista Português, de que foi militante até à morte. Considerava-se um "comunista humanista".

Ainda na faculdade, começou a trabalhar como jornalista no Diário de Notícias. E mal concluiu a licenciatura, com uma tese sobre Manuel Teixeira Gomes, que seria a sua primeira obra publicada, foi como leitor de português para Montpellier. Ficaria em França até 1955, tendo sido assistente universitário, primeiro em Aix-en-Provence, depois na Sorbonne em Paris. Nesse período de "grande felicidade", que viveu com a primeira mulher, a escritora Maria Judite de Carvalho, mãe da sua filha Isabel Fraga, também escritora, Urbano conheceu Malraux, Aragon, Duras e Camus, de quem foi amigo. Deu conta dessa vida parisiense em trabalhos para o Diário de Lisboa. Estava em França quando saiu o seu primeiro romance, A Porta dos Limites, que teve desde logo uma crítica muito favorável de Gaspar Simões, embora tenha sido classificado imoral por outros críticos.

De regresso a Portugal, deu aulas no Camões e em 1957 foi convidado por Vitorino Nemésio a lecionar Literatura Francesa e Portuguesa na Faculdade  de Letras de Lisboa. Porém, o seu envolvimento na campanha de Humberto Delgado, em 1958, valeu-lhe a expulsão do ensino. Só depois do 25 de Abril regressaria à Universidade de Lisboa para ensinar, uma tarefa de que gostava muito pela possibilidade de "ajudar os outros" e "transmitir" o conhecimento. Foi catedrático, um professor amado pelos alunos, e fez o seu doutoramento já na casa dos 60, em 1983, com uma tese de novo sobre Teixeira Gomes.

Foi jornalista ainda em O Século, onde começou por fazer crítica de teatro, no Jornal do Comércio ou no antigo Artes e Letras, que chefiou durante um curto período. Só abandonaria o jornalismo em 1975, impedido de lecionar no ensino público, foi professor do Colégio Moderno e do Liceu Francês e trabalhou numa agência de publicidade do irmão Jorge Rodrigues. Traduziu, prefaciou e apresentou inúmeras obras e autores, outra face do seu amor à literatura e do respeito aos outros escritores.

Uma Pedrada no Charco, Terra Ocupada, Dissolução, As Pombas são Vermelhas, As Aves da Madrugada, A Vaga de Calor, Imitação da Felicidade, Violeta e a Noite, Filipa nesse Dia, são outros dos seus livros de referência.

De uma vida longa e cheia de lutas, livros, amores, viagens, grandes causas e pequenas coisas, disse que gostaria de deixar a lição da tolerância. Foi isso que ainda quis transmitir ao seu filho, do segundo casamento com a psiquiatra Ana Maria Santos, António Urbano, com apenas sete anos, a quem deixou como herança uma carta para abrir quando tiver dez. E ao JL fez há uns anos um balanço do vivido: "O essencial, por um lado, é o sentimento de perdurar através dos meus livros, de não morrer completamente. E também o de, entre ventos e tempestades, interrogações, incertezas, angústias, ter-me mantido sempre fiel ao mais profundo de mim próprio".