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Tell a Story - Literatura sobre rodas

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"Era uma vez, uma livraria que queria contar uma história", é o mote da Tell a Story, a 'carrinha da literatura'. Em viagem há um mês, converteu-se numa história - contada mil vezes, por mil vozes diferentes.

Daniel Neves

Tell a Story é uma livraria sobre rodas que circula por Lisboa dando a conhecer, aos turistas estrangeiros, autores da literatura portuguesa traduzidos para inglês, francês, alemão e espanhol. Contando e encantando, esta Renault Estafette, de 1975, tornou-se numa biblioteca de histórias. Mas, "mais do que a carrinha, que já tanto conta, queremos que as pessoas levem uma história de Portugal, escrita por portugueses", frisa Francisco Antolin, 35 anos, um dos protagonistas desta 'narrativa'. Domingos Cruz, da mesma idade, a outra 'personagem principal', acrescenta que o projeto é uma confluência entre os escritores, a livraria e os turistas. "Os livros contam uma história, nós contamos sobre os escritores e os turistas contam-nos sobre as suas preferências literárias e vivências em Portugal."

Já há muito tempo que Francisco e Domingos são duas figuras do mesmo conto. Crescidos no mesmo bairro lisboeta e colegas de liceu, foram sempre bons amigos da literatura. Sem jeito para a música, como alternativa ao típico sonho juvenil de formar uma 'banda de garagem', criaram uma livraria ambulante. A ideia nasceu, há cerca de um ano, da dificuldade de Domingos em encontrar uma tradução de Os Maias, para oferecer a um amigo chileno. Assim, conjugando o objetivo de dar a conhecer autores portugueses, e prazer de viver numa narrativa multicultural, os dois amigos geram um enredo entre Literatura e Viagem - o início de um potencial romance, que já promete um final feliz.

Além de um símbolo para 'viagem', a carrinha surge associada a mobilidade e ao 'desassossego' que é andar atrás dos turistas. João Correia Pereira, 35 anos, responsável pela comunicação e publicidade, ajudou a conceber a imagem do projeto.

"No princípio tínhamos medo da reação dos portugueses, por não termos material para eles", diz Francisco. Uma expectativa que, logo na semana de estreia, assinalou o primeiro twist desta história, tendo sido, a Tell a Story, recebida com votos de sorte e muito apoio, tanto pessoalmente como nas redes sociais. Inovador, genial, intrigante, notável: são os adjetivos com que alguns entusiastas qualificam esta ideia de trazer a literatura para a rua.

"É uma excelente iniciativa para promover os autores nacionais", afirma, uma 'vítima' da curiosidade, Sofia Rocha, 31 anos, depois de Francisco lhe apresentar a recém-chegada tradução alemã de O Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa.

 

O MÍSTICO 

PRÍNCIPE REAL

A tarde avança debaixo de um céu abafado e o Jardim do Príncipe Real recebe mais um transeunte na sua sombra. Não há bancos para todos, mas há um lugar para cada um - as pessoas estendem-se pela relva fresca, cada uma imersa no seu livro. Aquele momento, naquele sítio, cheira a literatura.

Apesar do protocolo com a Câmara Municipal de Lisboa lhes permitir estar em São Pedro de Alcântara, nos Jerónimos, no Cais do Sodré e na Estrela, é no Príncipe Real que a carrinha passa a maioria das tardes. "Aqui sentimos uma simbiose entre as pessoas e a livraria - o turista é mais curioso, faz o seu próprio roteiro, é dono do seu tempo e tem mais vontade de interagir", esclarece Domingos.

"Já vivemos muitas histórias neste jardim: desde o turista americano que escolhe O Ano da Morte de Ricardo Reis e se senta a ler, com um copo de vinho; à finlandesa que, passado uma hora, continua indecisa entre Miguel Sousa Tavares e Miguel Torga; passando pelo fã da literatura portuguesa que, em tempos, deu lições sobre Almada Negreiros; o turista checo que vem em busca de monumentos e leva o Memorial do Convento; e as duas raparigas suíças que pedem O Livro do Desassossego e se deixam ficar à sombra, durante três horas, a ler". Relembra satisfeito, num tom que quase declara a 'missão' cumprida.

Alan Moniz, 50 anos, foi 'obrigado' a atravessar o Jardim para constatar que aquilo que parecia ser uma carrinha de gelados era, na verdade, um veículo de literatura - "Mas não deixa de ser doce", graceja o luso-americano. "Tenho visto a imagem de Fernando Pessoa um pouco por todo o lado - é um indivíduo notável pela 'pinta' carismática que tem", conta divertido, depois de uma longa explicação de Domingos sobre a heteronímia Pessoana.

 

UMA HISTÓRIA

PARA O FUTURO?

Tell a Story ainda não correu o mundo mas, em apenas um mês, já anda de 'boca em boca' por 26 nacionalidades. Em inglês, o líder de vendas é O Livro do Desassossego (The Book of Disquiet), e, em Francês, Os Cus de Judas (Le Cul de Judas), de António Lobo Antunes. Surpreendentemente, os ingleses não têm tido um papel relevante nesta estatística, ao contrário dos alemães, holandeses e finlandeses. Ainda assim, "os campeões das vendas têm sido os francófonos", denota Francisco.

É inquestionável o sucesso desta plataforma de conhecimento, que já tem inúmeras histórias para contar. Mas poderá a carrinha azul tornar-se um 'clássico' para reler? "Os números dizem que Lisboa é uma cidade turística durante todo o ano. Não temos medo do inverno. O turista de setembro, outubro e novembro vem noutro contexto, com outros interesses e acreditamos que seja mais 'literário' que o de agosto", explica Domingos, com otimismo.

Dar a conhecer os clássicos portugueses é apenas o início de um sonho, cada vez mais palpável. O próximo passo é começar a editar as 'pequenas' promessas literárias e levá-las a novos horizontes. Autores não editados, palavras por ler e histórias por contar, são viagens inacabadas. Levadas numa carrinha azul, poderão essas histórias dar asas à literatura Portuguesa? "É um desejo secreto", confessam os dois amigos. 

Anda a livraria, sobre as suas rodas, pela estrada fora, num enredo sem desenlace. Protagonista da sua história, contando e encantando, vai repleta de Literatura. Nas linhas do JL, esta viagem chega ao fim. Mas, porque nasceu a Tell a Story, senão para ser contada?