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Agrada-lhe imaginar como seria o mundo em épocas distantes. José Leon Machado, 44 anos, fá-lo através da escrita, para melhor conhecer e compreender as suas "origens". Em A Vendedora de Cupidos, o seu mais recente livro, parte da morte misteriosa do padre de uma aldeia para criar um retrato pitoresco do país, atrasado e rústico, durante a II Guerra Mundial.

Carolina Freitas

Agrada-lhe imaginar como seria o mundo em épocas distantes. José Leon Machado, 44 anos, fá-lo através da escrita, para melhor conhecer e compreender as suas "origens". Em A Vendedora de Cupidos, o seu mais recente livro, parte da morte misteriosa do padre de uma aldeia para criar um retrato pitoresco do país, atrasado e rústico, durante a II Guerra Mundial. Com a chancela das Edições Vercial, o romance é o segundo título de uma trilogia que atravessa a História do século XX em Portugal, desde a queda da Monarquia até ao 25 de Abril.

Licenciado em Humanidades, pela Faculdade de Filosofia de Braga, e com mestrado em Ensino da Língua e Literatura Portuguesas, na Universidade do Minho, José Leon Machado conta com mais de duas dezenas de títulos publicados, como Memória das Estrelas sem Brilho (o primeiro título da trilogia), O Cavaleiro da Torre Inclinada, Jardim sem Muro ou Os Incompatíveis. A par da atividade literária, é professor de Semiótica e de Língua e Literatura Portuguesas, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, onde se doutorou em Linguística Portuguesa.

JL: Como surgiu a ideia de escrever este livro?

É o segundo livro de uma trilogia sobre a História do século XX português. O primeiro, de 2008, passa-se entre 1910 e 1930, e retrata, sobretudo, a participação de Portugal na Guerra das Trincheiras. O terceiro será sobre a Guerra Colonial. A Vendedora de Cupidos decorre durante a II Guerra Mundial, na aldeia de Gralheira, perto de Braga. Apesar de não ter entrado diretamente no conflito, Portugal não só foi palco de um conjunto de acontecimentos a ele ligados, como também sofreu as suas consequências. A guerra é, então, o cenário desta história.

Qual é a ação principal?

O ponto de partida é uma situação misteriosa: a morte do padre da aldeia. Mas o romance tem sete núcleos narrativos. Há a residência paroquial, onde o padre aparece morto; a Quinta do Casal do Tojo, onde vive o regedor, uma espécie de 'polícia da aldeia', que vai investigar o caso; uma mina de volfrâmio, administrada por um alemão que, curiosamente, não simpatiza com Hitler; uma taberna, qual centro informativo da aldeia; a casa do presidente da Junta de Freguesia, agente da PIDE; a Capela da Nossa Senhora do Bom Encontro, que funciona como refúgio de encontros proibidos; e a Quinta dos Barbadinhos, onde vive um ex-emigrante português no Brasil com a sua esposa carioca, que é a personagem principal da história.

É ela 'A Vendedora de Cupidos'?

Sim, a Glórinha. No seio de uma aldeia atrasada, de gente rústica, esta personagem representa a alegria e uma certa novidade, com aquele dom tropical das mulheres do sul. Ex-amante do padre, não só vive os seus amores, como incentiva e protege os romances alheios. É ela a verdadeira heroína deste romance.

Uma heroína estrangeira...

É que a sociedade portuguesa da época era muito moralista, fechada, preconceituosa. Para acrescentar alguma graça ao romance, tinha de ir buscar uma personagem de fora. Escolhi uma brasileira porque, nessa altura, havia muitos casamentos entre mulheres brasileiras e emigrantes portugueses, que vinham para cá viver. Essa mistura veio dar uma vida nova à sociedade portuguesa, à semelhança do que aconteceu depois do 25 de Abril, com a chegada dos retornados.

A guerra é o pano de fundo da trilogia onde se insere A Vendedora de Cupidos. O que lhe interessa neste tema?

O meu interesse não passa propriamente pelo tema da guerra, mas pela História do século em que nasci. Não vivi na época dos dois primeiros romances da trilogia, e era muito novo quando se deu a Guerra Colonial, mas cresci a ouvir falar das guerras, desde a experiência do meu bisavô na I Guerra Mundial à fome e miséria que havia em Portugal durante a II. Mais tarde, o meu pai foi recrutado para combater em Moçambique. No fundo, interesso-me pela História para conhecer as minhas origens e as da sociedade em que me insiro.