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O arquipélago Valter Hugo Mãe

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DR - Fernando Veludo

Sente-se, muitas vezes, uma ilha, não só por a escrita ser um ato solitário, mas também por acreditar que "nunca ninguém chega perto o suficiente". Por isso, o mais que pode é convocar outras ilhas para, em conjunto, formarem um arquipélago. Antecipando o lançamento do seu novo romance, o primeiro depois de ter vencido, em 2012, o Prémio PT de Literatura do Brasil, o JL percorre toda a sua geografia afetiva, da família aos amigos e da literatura às viagens que lhe inspiram livros. Como a Islândia, cenário e protagonista de A Desumanização, que chega às livrarias na próxima sexta-feira, 20 de setembro, e que Miguel Real já leu. À sua crítica juntamos o depoimento de Miguel Gonçalves Mendes sobre o filme que está a rodar e que tem Valter Hugo Mãe como um dos seus atores principais. Tal como a Literatura Portuguesa da última década (ver completo em versão impressa)

Luís Ricardo Duarte

Não falam de outra coisa. "O livro, quando é que podemos ler o livro?", pergunta, sorridente, Marisol, a irmã mais velha de Valter Hugo Mãe (VHM). A cada lançamento o entusiasmo não esmorece. "É sempre uma excitação", garante. E um orgulho também, partilhado pela família, que se junta hoje para um jantar (só não veio o irmão). Faltam poucos dias para se poder falar livremente do livro, divulgá-lo no Facebook, comentá-lo nas conversas de café, lê-lo de enfiada, como fazem sempre. Só Flor, a irmã mais nova do escritor, está mais tranquila. Teve o "privilégio" de o ler em "fascículos", ao ritmo dos capítulos que lhe iam chegando às mãos. O sorriso espelha o seu entusiasmo. "É um romance muito forte", diz, aumentando ainda mais o interesse da mãe, Antónia Rodrigues Alves, e divertida inveja de Marisol. Uma das suas sobrinhas é que não teve meias medidas. "Encontrou o meu exemplar lá em casa", brinca Flor. "E ainda não o largou". A comida está prestes a ser servida e Valter descansa os espíritos mais curiosos: "Não se preocupem, esta semana vão poder ler tudo". 

O entusiasmo que a sua família demonstra não é muito diferente do que tem rodeado o lançamento de A Desumanização. É uma das grandes apostas deste ano literário, o trunfo que a Porto Editora guardou para a rentrée, depois de ter oficializado um namoro antigo ao integrar o escritor no catálogo do grupo. Ao seu correio, quer eletrónico, quer em papel, não param de chegar reações às suas crónicas, intervenções públicas e romances. Também do Brasil chegam boas novas. Com A Máquina de Fazer Espanhóis, VHM foi o vencedor do Prémio PT de Literatura, para obras de todos os países de língua portuguesa, ficando ainda em primeiro lugar na categoria de romance. E este ano vai voltar a estar entre os finalistas do galardão, um dos mais importantes do Brasil, a par do Jabuti (este só atribuído a livros brasileiros). Não faltam ainda convites para festivais e outros encontros literários, a que nem sempre sabe dizer que não. Nos próximos meses vai estar no Egito, na Islândia, no Brasil (duas vezes), no Uruguai, Moçambique, Inglaterra, França (duas vezes) e na Alemanha, onde os seus livros estão a ser traduzido e publicados com grande sucesso. 

Deste sucesso, garante a família, Valter nem sempre tem consciência. É frequente, dizem entre sorrisos as irmãs e a mãe, estar toda a gente a olhar para o autor de O Remorso de Baltazar Serapião, que lhe valeu, em 2007, o Prémio José Saramago, e disso ele não se aperceber. O escritor sente, no entanto, que é tratado de uma forma especial. E aprecia o gesto. "As pessoas falam comigo como se me conhecessem há muito tempo. Talvez seja por causa das crónicas do JL", afirma. "Às vezes é bom, outras vezes atrapalha-me, porque estendem-me a mão, sentem-se à vontade comigo, querem abraçar-me e tomar conta de mim durante um bocado". Mas reconhece: "É incrível que me abordem e partilhem comigo o que eventualmente não partilham com mais ninguém". E que "acreditem" em si, no que diz e no que escreve. Foi isso, de resto, que mais o comoveu, por exemplo, no Festival Literário de Parati, onde, em 2011, levou a plateia às lágrimas. "Não pode haver recompensa maior do que a de alguém desconhecido que, numa manifestação honesta, imediatamente se compadece com o que estamos a dizer. É isso que eu colho de praticamente todos os meus leitores, a garantia de que receberam a mensagem e que a entenderam como verdadeira". 

Como diz a família: "O Valter está dentro de todos os livros. E as pessoas percebem isso".

A ILHA DE CAXINAS

O sucesso, contudo, não impede que VHM se sinta por vezes, tantas vezes, uma ilha. O seu novo romance é fruto dessa sensação, não só por se passar na Islândia, a ilha de todas as suas fantasias, mas também por a esses pedaços de terra rodeados de mar o escritor associar a solidão. De resto, a epígrafe do livro, retirada do romance Gente Independente, de Halldór Laxness, o único Prémio Nobel da Literatura islandês, sublinha isso mesmo: "Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho". 

Esse é o movimento de Halldora, a narradora de A Desumanização. É dela esta ideia, que também podia ser de Valter. "Aprender a solidão não é senão capacitarmo-nos do que representamos entre todos". Para si, não é só o facto "de a escrita ser um exercício de solidão". É também "a certeza de que por mais acompanhado que esteja, por mais gente que me procure, a comunicação, como dizia Wittgenstein, é impossível". Nunca ninguém chega perto o suficiente, diz, e acredita "frustrantemente" nisso. "Todos os afetos são apenas tentativas e até certo ponto estamos enclausurados". Como as personagens de A Desumanização

Felizmente as ilhas não têm de viver sozinhas. Podem formar um arquipélago convocando para si outras ilhas. É o que VHM faz. Não abandona essa necessidade de estar só, essa vontade de ter coragem de encarar a solidão de frente, como viu tantas vezes acontecer na Islândia. Mas chama assim o que é mais seu. A família é a sua primeira ilha. As Caxinas, a segunda. É por estas ruas, em Vila do Conde, ali junto à Póvoa de Varzim, que nos mostra com prazer, que se sente mais à vontade. Anonimamente, até. "As Caxinas são a minha normalidade", diz. "Nas minhas viagens tenho sempre um limite. Ao fim de sete dias começo a pensar que Nova Iorque não chega aos calcanhares das Caxinas. Aqui não preciso de parecer inteligente, nem chique, posso abandalhar-me à vontade, ser eu próprio". Nas ruas que vão dar ao mar, onde ainda vive a sua mãe, toda a gente o conhece. No café Homem do Leme, que antes, com o nome Cadilhe, foi dos seus pais durante muitos anos, nos restaurantes da cidade, onde é tratado por Senhor Valter, ou ainda no Pátio, bar de paragem obrigatória todas as noites para encontrar os seus amigos. Hoje estão cá a pintora Isabel Lhano, o poeta João Rios, Isabel Neves e Luís Paiva. Os quatro são professores. 

De todos, só João Rios leu o novo livro. E assim que o amigo se senta, dispara: "Este vai surpreender ainda mais os teus leitores". O comentário é certeiro. E o próprio escritor que o admite. "Não tenho dúvidas: este é o meu romance mais poético". "A linguagem sempre me interessou, mas neste vou à procura do indizível, já que tento dar voz ao esplendor da natureza e de um lugar".  

A ILHA DA ISLÂNDIA

Era uma paixão antiga, a Islândia. Uma viagem sonhada há muito, desde os tempos da adolescência. E a sua paixão por ilhas deve-se a este fascínio que, como nos Açores, outras ilhas da sua predileção, não diminuiu com a confirmação do olhar. Antes, porém, a Islândia era apenas um nome, ainda antes do tempo em que a internet esclarecia todas as curiosidades e permitia viagens sem sair de casa. Certo dia foi-lhe parar às mãos um fanzine, uma dessas publicações que se fazem com poucos meios e muita boa vontade, com um artigo sobre os Psychic TV, um grupo de música e performance experimental. Entre os seus colaboradores encontrava-se um tal de Hilmar Örn Hilmarsson, que VHM teve o prazer de agora conhecer, em Reiquiavique, durante as filmagens de O Sentido da Vida, de Miguel Gonçalves Mendes (ver caixa). Mas pela descrição que dele fazia, imaginou-o como um "ser exótico", estranho ser de um país ainda mais estranho. "Foi por causa do Hilmar Örn Hilmarsson", diz o escritor, "que comecei a imagem de um lugar de fantasia, de permissões esquisitas e irreais". A bandeira da Islândia, que já sabia de cor devido a uma coleção de cromos que fez no início da juventude, ganha então novos contornos, outros rostos. 

Depois vieram os Theyr, os Purrkur Pillnikk, os Sigur Rós, uma quantidade de bandas que ficaram no ouvido. Acima de todas, "a deusa Björk", agora já na época das entrevistas televisivas, dos telediscos, da internet, da sociedade do espetáculo. E como a cantora islandesa, um dos grandes símbolos culturais da Islândia, nunca negava a existência de elfos e trolls e outras criações maravilhosas, a conclusão impôs-se: "Comecei a achar que a Islândia era uma espécie de Disney World, um parque de diversões para gente grande".

A ilha do norte da Europa tornou-se, assim, um lugar mítico na sua vida. E o seu poder de atração ia aumentando ao ritmo de cada viagem que fazia. De um lado, a certeza de um país fantástico, do outro a verificação de que o mundo, muitas vezes, lhe parecia "demasiado normal". "Poucas vezes tive a sensação de estar num lugar que, ou pela sua preservação ou pela sua destruição, não se parecia com mais nada". 

Em agosto de 2011, partiu para a Islândia e não demorou muito a confirmar as suas suspeitas, ele que em tudo segue sempre a sua intuição. Ainda estava no autocarro que faz a ligação entre o aeroporto de Keflavík e a capital e já tinha a sensação de "incómodo", que é o mesmo que dizer de "desafio". "Senti o autocarro como uma cápsula que me protegia contra uma besta, um monstro que, apesar de adormecido, tinha vida própria". Vieram-lhe à cabeça as histórias que lhe contavam em miúdo e que faziam da Islândia um corpo com o coração em chamas a arder debaixo de um manto de gelo. E também os relatos de turistas engolidos em poços de lama, na temperatura do enxofre e em bocas de rocha. Ficou lá um mês, voltou duas vezes, e já tem agendada outra viagem para outubro. Viveu sempre um misto de "maravilha e susto". "A opulência da natureza afeta-me muito", garante. "Assusta-me tanto quanto me fascina". A Desumanização é o espelho dessa experiência.