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O amor e a morte

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Patrícia Reis

Entretinha a vida, não vivia. Novela paradoxalmente triste e bela, reflexo de uma escrita dolorida. Uma leitura do novo romance de Patrícia Reis, Antes de Ser Feliz

Miguel Real

Antes de Ser Feliz, novela ora publicada de Patrícia Reis, escritora que tem vindo a ganhar, livro a livro, um sólido lugar na literatura portuguesa actual, prolonga as duas características básicas dos seus romances anteriores, nomeadamente Morder-te o Coração (2007) e No Silêncio de Deus (2008): por um lado, a exploração da singularidade individual da personagem face à normalidade social, e, por outro, a relação compulsiva entre o amor e a morte.

Pela primeira, Patrícia Reis desenha personagens que parecem flutuar acima ou paralelas ao todo da sociedade, animadas de um afã de vida que não se esgota na normalidade das instituições, sofrendo em silêncio (Pedro) ou ostensivamente (Inês foge para Londres). O título, "antes de ser feliz" possui justamente este significado - a felicidade ambicionada supera e nega a rotina, a integração social, a mesmidade de um viver comum e aponta para uma existência lírica, porventura poética, embebida de um "amor verdadeiro" (título de um capítulo), que a sociedade rejeita.

Pela segunda, Patrícia Reis estatui o amor e a morte como os dois vínculos substanciais psicológicos e sociológicos mais fundos e permanentes da sociedade, espécies de beijos fatais de cada personagem, pelos quais desafiam o todo da sociedade: Pedro pelo amor, Inês pelo desejo do amor, as restantes personagens, incapazes de superarem os constrangimentos sociais, vão morrendo sem terem conhecido um "verdadeiro amor" (apenas a "tia" de Inês o conhece, sofrendo, como paga, a exclusão social): o pai de Inês morre, João, o irmão deste, morre, os pais de Pedro morrem, a mãe de Inês já tinha morrido (personagem ausente, mas sempre presente) - todas as personagens morrem, menos Pedro, Inês e Miguel, irmão daquele. Inês vivera inquietamente na adolescência o desejo de um "verdadeiro amor", entregando o seu corpo aos "estrangeiros" no areal da Figueira da Foz, embora só perca a virgindade com Pedro, e de um modo desastroso, como o são todas as "primeiras vezes".

Com efeito, Patrícia Reis escreveu uma novela sob o signo mítico dos amores medievais de Pedro e Inês. Quem o faz, não pode deixar de seguir o paradigma trágico da narrativa. Porém, a tragédia hoje, não significa já violência de sangue, o assassínio de Inês, mas, verdadeiramente, uma existência alienada e banalizada pelo horizonte de sobrevivência no quotidiano. A mais trágica das personagens femininas do romance português contemporâneo não é Maria Eduarda, de Os Maias, de Eça de Queirós, mas Margarida Dulmo, de Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, que abdica de uma vida singular para se integrar na existência normal e banal de esposa - como Antígona, Margarida fica "emparedada", não em paredes de pedra, mas em preconceitos rotineiros sobre o papel de uma esposa nos Açores na primeira metade do século XX.

Margarida, ao casar-se, abdica dos seus desejos e de uma existência feliz. Resigna-se. A Inês, de Patrícia Reis, não se resigna, foge da Figueira para Lisboa e depois para Londres, donde não mais regressa, nem para o funeral do pai, tornando-se uma pintora famosa. Inês paga a sua ousadia trágica com o apagamento da sua memória pelo pai, que a deserda.

Eivados de amor e morte, de quase-felicidade que esgota as personagens, incapazes de uma realização autêntica, os romances de Patrícia Reis são atravessados por uma tristeza profunda, uma tristeza lírica e nostálgica, que leva o leitor pela mão a um ninho de dolência, de mágoa, de sofrimento psicológico, mas não de amargura ou de revolta. Sente-se a tristeza a evolar-se das páginas de Patrícia Reis, passando para o coração do leitor, que acaba a leitura com o sentimento difícil de uma forte pena ou pesar psicológico.

São, de facto, dos romances mais tristes que se escrevem hoje em Portugal. Expressão da vida dos portugueses em geral, as personagens de Patrícia Reis não conseguem ser habitadas por uma verdadeira felicidade, não se realizam, embora (como pai e o tio de Inês) possuam uma vida satisfeita. Existe nos seus textos uma subtil escala ascendente entre Satisfação - vivência comum no interior das instituições sociais -, Realização - o legado de uma marca pessoal no seio destas instituições - e Felicidade. As personagens estão presas ao primeiro degrau, por vezes atingem o segundo, mas muito dificilmente atingem o terceiro, e, caso o atinjam, serão penalizadas pela sua felicidade. Será que Inês regressa de Londres para a sua casa da Figueira, que agora é de Pedro? Serão então felizes ambos, isolados, lendo, andando de bicicleta e passeando no areal? O romance termina sem se saber: desenhou-se uma existência pré-feliz. Sobre o futuro, nada se sabe, a não ser que a morte espreita.

Entre a vida diária (o estado "antes de ser feliz"), a realização e a felicidade, abre-se um vazio existencial semelhante ao dos romances de Vergílio Ferreira, projectando as personagens para um espaço de indefinição vivencial, como a vida de Pedro, cheio de dinheiro e sucesso e incapaz de se sentir feliz, ou a vida de João, um dandy figueirense, ou, mesmo, a de Vicente, o pai de Inês, um "homem estranho" porque nele habitava, sem a realizar, a "crença da felicidade", por isso se entretinha no casino, nas corridas de cavalos, no invariável cigarro que o matará. Entretinha a vida, não vivia.

Novela paradoxalmente triste e bela, reflexo de uma escrita dolorida, que, no final, sem magoar o leitor, o entristece.

Patrícia Reis, Antes de Ser Feliz, Ed. D. Quixote, 134 pp, 10,95 euros.