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O adultério como especialidade

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Marco Túlio Ferreira é um verdadeiro especialista em adultério. Professor universitário doutorado em Ciências da Cultura, com uma tese sobre o adultério na literatura portuguesa do séc. XVIII, cada vez que participa nalgum congresso internacional aproveita para dar uma 'facada no casamento'

Rita Silva Freire

Marco Túlio Ferreira é um verdadeiro especialista em adultério. Professor universitário doutorado em Ciências da Cultura, com uma tese sobre o adultério na literatura portuguesa do séc. XVIII, cada vez que participa nalgum congresso internacional aproveita para dar uma 'facada no casamento'. A personagem principal de O Cavaleiro da Torre Inclinada, último romance de José Leon Machado, acabado de editar com o selo das Edições Vercial (236 pp, 12,95 euros), tem um código de conduta muito próprio. Professor de Semiótica e de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Trás-os-Montes, José Leon Machado, 44 anos, é autor de, entre outros, O Guerreiro Decapitado, Não me Guardes no Coração e Memória das Estrelas sem Brilho.



Jornal de Letras: Este é um romance sobre a vida académica. O que lhe interessou neste tema?

José León Machado: Vários aspectos. É uma rábula ao actual sistema de ensino superior em Portugal, com uma descrição realista de certos vícios e comportamentos dos seus docentes. Além disso, como nos congressos académicos estão pessoas de todo o mundo, aproveito para pôr em confronto várias culturas, comparando os respectivos sistemas de ensino e investigação. Destaco também a chamada praxe académica. Parece que tudo parou no tempo. As pessoas relacionam-se de forma quase medieval, a apresentação de provas públicas faz lembrar a Inquisição. Depois há também a questão da obsessão pela carreira, a competitividade, pequenas traições...



É baseado na sua experiência como professor universitário?

Devido à minha carreira vou a muitos congressos. Por isso, comecei a escrever pequenas histórias baseadas nessas viagens e nos lugares que ia conhecendo, como a Alemanha, Espanha, Áustria... Quando já tinha algumas escritas decidi alinhavá-las. Mas a personagem não sou eu.

Inspirou-se em David Lodge?

Leio muito David Lodge, que é a grande referência dos romances sobre a vida académica. Mas as suas personagens raramente chegam a cometer adultério e, no meu livro, a personagem principal é um autêntico Casanova. No entanto, há uma certa influência do autor no uso da ironia e em como é vista a universidade.



Habitualmente escreve romances históricos. Como articula este livro com o resto da sua escrita?

É realmente diferente dos meus romances anteriores, não só pelo tema, como pelo próprio estilo e a estrutura. Está mais próximo dos meus livros de contos, não só por cada capítulo ter uma história diferente (apesar de a personagem ser a mesma), como por ser mais divertido. Os outros são mais sérios.



E o que está a escrever agora?

Uma trilogia sobre as três guerras em que Portugal esteve, de algum modo, envolvido. Memória das Estrelas sem Brilho, já publicado, versa sobre a partida dos soldados portugueses para a I Guerra Mundial. Agora estou a rever o segundo, em que a acção decorre durante a II GM. E, quando o terminar, quero fazer um terceiro, sobre a Guerra Colonial.