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Mécia de Sena: Trinta e cinco anos de dedicação

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Fez da sua casa um verdadeiro centro de estudos e divulgação da obra de Jorge de Sena. E o ritmo da sua atividade faria a inveja a muitas universidades. Mas a missão da sua vida está agora próximo do fim. Com o livro Entrevistas de Jorge de Sena, uma edição da Guimarães, Mécia de Sena, 93 anos, dá por concluído um ciclo de 35 anos de dedicação ao legado do seu marido. O JL visitou-a nos Estados Unidos da América, onde vive, para desvendar um pouco do seu trabalho, comentado nos testemunhos de Francisco Cota Fagundes, Helder Macedo e Jorge Fazenda Lourenço, seus amigos. Publicamos ainda duas cartas inéditas entre Ruy Belo e Jorge de Sena. E os textos de Eugénio Lisboa, sobre a correspondência entre Sena e João Gaspar Simões, e de  Gilda Santos, sobre a correspondência entre Sena e Mécia (ver completo em versão impressa) 

Luís Ricardo Duarte

És a terra em que pouso. Não paisagem,

não Madre Terra nem raptada ninfa

de bosques e montanhas. Terra humana

em que me pouso inteiro e para sempre.

In Conheço o sal... e outros poemas

 

"Não é simpatia, é feitio", diz-nos pouco depois de abrir a porta. "Só sei receber em família. Não faça cerimónia que eu também não faço". A ordem, dada entre sorrisos e atenções, é para cumprir. De parte a parte. De outra forma, Mécia de Sena não se teria sentido à vontade para começar a jantar sem esperar pela "visita". "Já se fazia tarde", lembra. "Mas a sopa ainda está quente". Retribuímos o sorriso e entramos, atravessando a porta com a sensação de penetrar num mundo à parte, num espaço onde o tempo se suspendeu: as fotografias fixam episódios passados, os objetos evocam um agitado exílio, os quadros remetem para outras épocas e os livros, os muitos livros alinhados nas paredes, reacendem a memória de infinitas leituras.

É nesta casa, num dos subúrbios de Santa Bárbara, na Califórnia, nos Estados Unidos da América, que Mécia de Sena vive há mais de 40 anos, desde que para aqui se mudou com Jorge de Sena, em 1970, dando sequência a um exílio iniciado em 1959, no Brasil. Depois da morte do marido, a 4 de Junho de 1978, aqui permaneceu, dedicando-se de corpo e alma ao seu legado intelectual e literário. Até à data já publicou cerca de 40 volumes, entre inéditos e reedições. E projetos não lhe faltam.

Para muitos, é até difícil separar o seu nome da morada desta casa.

 

Mécia de Sena

939 Randolph Road

Santa Barbara

Califórnia

 

É uma espécie de assinatura que amigos e estudiosos se habituaram a receber pelo correio. Esta casa pode estar isolada de tudo, a 4500 quilómetros de Nova Iorque e a oito fusos horários de Portugal. Pode até parecer um mausoléu erguido para perpetuar a lembrança de uma vida feliz. Mas Mécia de Sena liga-se ao mundo através da escrita. São cartas que trazem a notícias do mundo para dentro destas paredes. E comunicam para fora a sua boa nova: novidades da obra do seu marido.

"Essa modesta mas sempre convivial casa poderia simplesmente ser chamada de Centro Editorial para a Publicação das Obras de Jorge de Sena", sugere, num ensaio, George Monteiro, amigo do casal e ex-diretor do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, em Rhode Island. "Enquanto equipas de escritores têm sido criadas para publicar obras de outros grandes escritores, esta mulher, trabalhando sozinha, tomou nas suas próprias mãos a tarefa de editar e publicar o vasto corpus da obra de Jorge de Sena, e tem feito um trabalho (que continua a fazer) com rigor e eficácia", afirmou um dia a grande estudiosa da Literatura Portuguesa, Luciana Stegagno Picchio. Esse trabalho, monumental e inesgotável, iniciado logo em 1978, está hoje, 35 anos de dedicação depois, perto do fim.

Com a publicação do volume Entrevistas de Jorge de Sena, uma edição da Guimarães, Mécia de Sena considera que o essencial da obra do autor de Metamorfoses fica disponível. Falta acrescentar a volumes já publicados ensaios dispersos de temas semelhantes. Corrigir as gralhas que continua a encontrar em edições antigas e recentes. Reeditar obras há muito esgotadas. Encontrar editoras interessadas em publicar uma correspondência torrencial. Muito, quase tudo, no entanto, está feito. A arca seniana pode não ter fim, mas o que de mais significativo produziu está, de uma forma ou de outra, acessível ao público em geral e aos estudiosos em particular. A sua missão está cumprida.

 

Sento-me à mesa como se

a mesa fosse o mundo inteiro

E principio a escrever como se

escrever fosse respirar

In Coroa da Terra