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Joel Neto: o refúgio dos românticos

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Joel Neto

Joel Neto

O romance é de um sportinguista, mas a apresentação esteve a cargo, no passado dia 18, de um benfiquista. Dois clubes rivais unidos pela literatura

António Pedro Vasconcelos

O novo romance de Joel Neto, "Sítios sem resposta", trata de um tema que é, com o incesto, o mais resistente dos tabús: a mudança de clube. No início do livro, o personagem principal, Miguel, o narrador, decide mudar de clube. E não é uma mudança banal: trata-se de mudar do Sporting para o Benfica, precisamente o rival dos rivais, a mais improvável das mudanças, o equivalente, no Rio de Janeiro, a trocar o Fluminense pelo Flamengo, em Buenos Aires, o River Plate pelo Boca Juniores, em Madrid, o Real pelo Atlético, e por aí fora: em todos os casos, a rivalidade entre um clube de gente com dinheiro e o clube dos pobres.

Percebi, quando me convidou para apresentar o livro, ele que é adepto do Sporting, que a escolha da minha pessoa foi por eu ser adepto do Benfica. Devo dizer que foi imprudente porque escolheu um momento ingrato. Felizmente que lhe disse que sim na véspera do jogo de Alvalade em que as duas equipas rivais - o Sporting e a equipa de arbitragem comandada por Artur Soares Dias, um reconhecido portista - deram possivelmente o campeonato ao clube do Sr. Pinto da Costa. Se tivesse sido hoje, e se não fosse o meu bom feitio, teria hesitado.

Depois, porque o clube do Joel vive um momento de grave turbulência e eu, se eu não tivesse um enorme fair-play, característico dos melhores benfiquistas, teria aproveitado para dar umas bicadas no clube fundado pelo Visconde de Alvalade (não sei se repararam que o homem nem sequer era um Conde, mas um Visconde, que é quase Conde, e esse parece ser o ADN do Sporting: ser quase campeão), sobre o qual recaíram nestes últimos dias suspeitas de gestos menos nobres para uma equipa de tão altos pergaminhos.

Mas, o livro, felizmente, não é apenas sobre esta decisão absurda e infrutífera do narrador, que tenta, mas não consegue (desculpem se divulgo o final, mas o final não podia ser outro) trocar os lagartos pelos lampiões. "Os sítios sem resposta" é um romance sobre muitas outras coisas, de que falarei adiante. Mas antes, quero arrumar este assunto do futebol. O único defeito que eu aponto ao livro são as graves imprecisões relativamente ao passado do Glorioso, clube que, para mim, além de uma paixão, é um exemplo de vida. O meu pai era da Académica, mas eu, quando me emancipei, apesar de o Sporting dos 5 violinos, que eu vi jogar várias vezes, ser na altura a grande equipa portuguesa, tornei-me benfiquista, para a vida e para a morte. E não deixa de ser curioso que é quando se atinge a "idade da razão" que se toma a decisão mais irracional das nossas vidas: a escolha do clube.

Ora, no início da 4ª parte do livro, mais precisamente na página 103, Miguel, que decidiu converter-se ao rival, comete uma heresia própria de um inveterado lagarto, intoxicado pela propaganda que o Futebol Clube do Porto e a aristocracia leonina fizeram circular durante anos ao ponto de muitos a terem por verdade. Passo a ler:

"Apesar dos problemas financeiros que de início o haviam assolado, obrigando os seus dirigentes e os seus jogadores a andarem quase vinte anos com a casa às costas (até aqui tudo bem), a caminho de sedes diferentes e de campos de jogos diferentes também (e aqui aproveito para lembrar que a cédula de nascimento do Sporting está ligada ao aliciamento de sete dos melhores jogadores do Sport Lisboa, que mais tarde se iria transformar no Sport Lisboa e Benfica, porque os fundadores do clube leonino tinham dinheiro para lhes oferecer as mordomias que um clube popular como o clube fundado pelo honrado Cosme Damião, não lhes podia dar: duche, roupa lavada, campos decentes e apoio financeiro). Mas retomando a citação: apesar de tudo isso, diz o narrador, e aqui é que a coisa fia mais fino, o Benfica "aproveitara da melhor maneira a chegada de Salazar à Presidência do Conselho de Ministros em 1932, entregando-se nas mãos do regime e, na prática, vestindo a pele de clube oficial do Estado até meados dos anos 70, altura em que se daria por concluída uma das mais longas, frustrantes e habilidosas ditaduras da Europa moderna". Fim de citação.

Dou o benefício a Joel Neto de considerar que não é ele, mas o narrador, o único responsável por esta falsidade, e, por isso, não vou perder o meu e o vosso precioso tempo a desmontar esta cabala que o Porto do Sr. Pinto da Costa pôs a correr em proveito próprio: a de que o Benfica era o clube do Regime! Ainda por cima, e isso, de algum modo, reabilita-o, o narrador reconhece que (e cito novamente): "Para o Benfica ganhar era uma obrigação, para o Sporting uma bênção. O Benfica talvez não se importasse que o Sporting perdesse, o Sporting queria que o avião do Benfica se despenhasse."

Eu diria que é um momento de rara lucidez, se a lucidez não fosse precisamente a principal e a mais constante qualidade do personagem. Concedamos-lhe, por isso, alguma cegueira e irracionalidade no que toca ao futebol, já que o futebol é, como diria Marx, o novo ópio do povo, e cito na íntegra a frase que tem sido sempre simplificada e por isso mal interpretada: "Bendita seja uma religião que derrama no amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança." E Marx acrescentou: "A religião é o desabafo da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de um mundo sem esperança. A religião é o ópio do povo."

Aliás, façamos justiça ao narrador que escreve sempre com rara lucidez, nomeadamente quando fala do defeso em que os jornais se enchem todos os dias de notícias de transferências de jogadores, que, na sua maioria, não se concretizam ou vão parar a um clube rival. Diz ele: " Mas era precisamente como tributo àqueles períodos de alegria pura, em que os jornais de preocupavam em disseminar a esperança, que os leitores mantinham alguma fidelidade ao longo do resto do ano, a eles e, muitas vezes, ao clube por que suspiravam. Para tudo isso servia a silly season: para a renovação da alegria, tanto quanto para o sustento de uma identidade. E agora que penso nisso, aliás, para pouco mais serviria o próprio futebol". E eu diria que já não é pouco.

É por estas e por outras, que "Os Sítios sem resposta" é um excelente livro e, confesso com alguma vergonha, para mim que não havia lido os livros anteriores de Joel Neto (mas já estão na calha para reparar essa falta), uma bela surpresa.

Mais do que o fait-divers da tentativa de conversão de um sportinguista ao clube rival, o livro fala-nos de coisas importantes e faz-nos um retrato do vazio, e do seu rosto mais nobre: a solidão e o silêncio. Leia-se o que ele diz, a certa altura, a propósito do caos ruidoso que é o nosso mundo de hoje: "Em todo o caso, não se podia entender este mundo sem considerar a solidão - e essa é que era a tragédia".

O narrador é um céptico - ou cínico, se preferirem -, alguém desencantado, como Philpe Marlow, mas que não tem, como o herói de Chandler, casos para resolver à falta de causas para defender. Miguel, o narrador, é um novo "vencido da vida", alguém que tem a descrença arrasadora dos lúcidos, que descrê do amor, que observa com ternura a melancólica vida conjugal dos seus dois amigos, que acredita apenas (e não é pouco) na amizade, na fidelidade às recordações de infância, alguém que substituiu as ilusões românticas do amor pela cínica conversão ao sexo sem compromissos, quando uma misteriosa mulher invade a sua vida, oferecendo-lhe prazer em vez da ilusão mirífica da felicidade, da traiçoeira ilusão do amor, da hipócrita promessa de fidelidade. Na solidão da sua casa de celibatário, Miguel queima o tempo a ver televisão, a zapar entre os filmes pornográficos e os de ficção científica, e a comer pipoca, numa fuga para a doce irrealidade da ficção, porque, como disse Elliot, "human kind can not beare too much reality". Ou, na versão do narrador, que não lhe fica atrás, "para vida real já basta a minha - e se calhar, já era demais".

Até que entra na sua vida, e esse é o episódio mais surpreendente do livro, Cristina, uma mulher deslumbrante, sensual e misteriosa, cuja relação não exige mais do que fazer sexo com ele, a certas horas do dia ou da noite, e que lhe retribui a excitação do prazer clandestino com quatro notas de 50 euros que o narrador acaba por não ter escrúpulo em aceitar, entrando num jogo erótico literalmente gratificante, que lhe preenche as desilusões românticas do amor, substituindo-as por aquilo a que Chamford, há mais de dois séculos, reduzira cinicamente a paixão amorosa: "o contacto entre duas epidermes e a troca entre duas fantasias".

Mas, se me pedirem para escolher o meu "morceau" preferido, eu escolhia o primeiro capítulo da Quinta Parte, em que o narrador evoca a sua infância em São Bartolomeu, a que ele chama o "subúrbio mais desconsolado de Angra do Heroísmo". O culto da nostalgia nunca nos trai, porque a memória emoldura as imagens, congela o tempo, embalsama as recordações. "Julgo que não me engano se disser que foi o melhor tempo da minha vida, esse em que praticamente vivi em casa da minha avó", escreve Miguel de regresso à terra natal. Temos tendência a confrontar o que consideramos ser a felicidade passada (porque ela já não nos pode trair nem decepcionar), com o presente, sujeito, esse sim, às contingências da vida e à erosão do tempo, em que temos que aprender a viver com a falência dos nossos sonhos, a imperfeição do mundo e a duplicidade dos homens.

Não resisto a ler mais uma passagem desse capítulo, de um lirismo que não é abafado pela lucidez, em que o narrador, em presença dos locais, ao mesmo tempo que remói e adia a decisão impossível de anunciar ao pai que mudou de clube, evoca os seus amigos de infância: "Não tinha exactamente saudades deles: tinha talvez saudades do que eu próprio era na presença deles, desse miúdo rebelde e terno que o tempo e a América e a morte e a perda da inocência e o tédio, no seu sempre infernal encolher de ombros, se haviam encarregado de adestrar".

Sem a mesma inocência nem a mesma frescura, Miguel refaz amizades, anos mais tarde, com outros amigos, Pedro e Alberto, colegas de trabalho, numa grande cidade moderna como Lisboa, amigos a quem dedica uma tocante ternura e simpatia, sem condescendências porém, mas com uma cumplicidade que não é nunca embaciada pela complacência. Alberto preso a uma tocante relação com Margarida, a professora de inglês por quem se apaixonara aos 16 anos, e que tinha, na altura, o dobro da sua idade, a quem chamava "o Melro Preto" e a quem devotava uma surpreendente fidelidade, Pedro, dividido entre duas mulheres, Carla e Rita, e que acaba um dia por lhe confessar que, num acto inadvertido, "havia deitado para o lixo todas as suas fotografias mais antigas, incluindo as que guardara dos tempos em que fora casado com Carla", e que passa da depressão ao alívio, porque, ao contrário do narrador, se libertara das amarras das recordações e se sente, por isso, livre para amar Rita de forma incondicional. E remata este gesto fortuito, que ele transformou em decisão, de uma forma lapidar, e que resume aqueles momentos libertadores em que somos visitados pela lucidez. Diz ele: "A culpa é uma coisa extraordinária. No limite, até somos capazes de confundi-la com amor".

A lucidez, sempre pensei, é o refúgio tardio dos românticos. 

 

 

Joel Neto 

Os Sítios Sem Resposta

Porto Editora, 192 pp, 15,50 euros