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João Pedro Marques - Amor em tempos de escravatura

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João Pedro Marques, 66 anos, doutorado em História, foi professor do ensino secundário e da Universidade Nova de Lisboa e, ainda, investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical. Acaba de publicar o seu quarto romance, Do Outro Lado do Mar, depois de ter lançado Dias de Febre, Uma Fazenda em África e o Estranho Caso de Sebastião Moncada. Ao fim de 30 anos de estudo sobre a escravatura, achou que era um "desperdício não escrever um romance sobre o assunto", até porque a ideia de o fazer sempre esteve lá. Assim, com rigor histórico, entra numa realidade dura, mas que nos marca pela mensagem final, um sinal de esperança mesmo nos momentos mais difíceis. Uma realidade histórica dura cruzada pela amor feliz entre Vasco Lacerda e a escrava Sara.  

Daniela Marques

João Pedro Marques, 66 anos, doutorado em História, foi professor do ensino secundário e da Universidade Nova de Lisboa e, ainda, investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical. Acaba de publicar o seu quarto romance, Do Outro Lado do Mar, depois de ter lançado Dias de Febre, Uma Fazenda em África e o Estranho Caso de Sebastião Moncada. Ao fim de 30 anos de estudo sobre a escravatura, achou que era um "desperdício não escrever um romance sobre o assunto", até porque a ideia de o fazer sempre esteve lá. Assim, com rigor histórico, entra numa realidade dura, mas que nos marca pela mensagem final, um sinal de esperança mesmo nos momentos mais difíceis. Uma realidade histórica dura cruzada pela amor feliz entre Vasco Lacerda e a escrava Sara.  

Depois do ensaio Who Abolished Slavery? retrata o tema da escravatura através da ficção. O que distinguiu cada abordagem? 

É sempre mais difícil abordar através da ficção. Porque a história, que é uma atividade intelectual, tem regras lógicas. Já lá está, tenho apenas que tentar perceber o que foi e encontrar uma maneira de explicar o que aconteceu. Com a ficção é diferente, tenho que dar ao leitor uma ideia de como foi a escravatura e construir uma intriga.  

Os romances têm mais impacto nos leitores?

São mais cativantes, apelativos, coloridos, próximos das emoções e das pessoas. Porque num romance posso pôr emoções, num livro de história, não. É algo mais distanciado e racional. O romance tem descrições muito fortes.

Foi uma forma de transportar o leitor para essa realidade?  

Sim, pretendi ser o mais realista e o mais completo do ponto de vista histórico possível. Temos a ideia de que a escravatura foi uma coisa horrível. Não o escondi, mas quis também que o leitor percebesse o que era um navio negreiro, um trabalho de um engenho de fabrico de açúcar, o que era ser chicoteado. Que ele percebesse ainda que essa prática abarcou mais gente do que geralmente se diz, e que não foi apenas a questão dos brancos que foram escravizar os pretos, os africanos tiveram envolvidos desde o inicio no processo de venda de escravos.

No entanto, no meio de tanto sofrimento, um amor vinga... 

É uma das mensagens centrais do livro. Mesmo em contextos de grande injustiça e sofrimento, há sentimentos e emoções positivas. Elas estão presentes ou surgem até nas situações mais horríveis, como a da escravatura ou dos campos de concentração. Como mensagem final pretendo deixar essa ideia: quando parece que não há saída ou mais horizonte surge a esperança. 

A escravatura tem estado afastada da investigação? 

Só em Portugal. Em países como os Estados Unidos é uma questão central. É um tema que toca as pessoas, até porque ainda não acabou, pois continuamos a ver outras formas de escravatura a reaparecer. 



Como por exemplo? 

Todas essas formas de escravatura sexual ou de crianças que atingem números perfeitamente alucinantes. O transporte de pessoas que dão tudo o que têm para poder fugir de uma situação difícil, que atravessam o mediterrâneo e morrem em condições inacreditáveis, muito semelhante às do tráfico de escravos no século XVIII e sobretudo XIX.