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Gonçalo M. Tavares Uma ficção que pensa

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Um "ensaio ficcional", o Atlas do Corpo e da Imaginação, hoje lançado com a chancela da Caminho, é a um tempo uma cartografia da obra do escritor e uma verdadeira filosofia de escrita. Um livro de centenas de páginas, com múltiplas possibilidades de leitura. Mais uma obra surpreendente no mapa do escritor, que avança na literatura portuguesa a toda a velocidade. À entrevista, a primeira que dá a propósito desta obra, juntamos a crítica de Miguel Real  

Luís Ricardo Duarte e Maria Leonor Nunes

Poderá chamar-se romance? Será um ensaio? São muitas as portas de entrada no Atlas do Corpo e da Imaginação, uma obra de peso, criada a partir da sua tese de doutoramento, mas que Gonçalo M. Tavares transformou num livro caleidoscópio, que oferece várias narrativas, a ensaística, a ficcional, a imagética, todas de múltiplas ligações. Uma obra em rede, que percorre as questões do corpo, da imaginação, da linguagem e da técnica, do pensamento e da escrita, passando por muitos dos lugares e preocupações da sua própria literatura, mas também da cultura contemporânea. E de todos os tempos.

São quatro as grandes áreas em que se divide - O Corpo no Método, O Corpo no Mundo, O Corpo no Corpo, O Corpo na Imaginação -, acrescentando-se ainda um conjunto de imagens, criadas pelo coletivo Os Espacialistas, e suas respetivas legendas, além das notas de rodapé. Diferentes narrativas que se podem ler fragmento a fragmento ou seguindo o fio condutor, do princípio ao fim. Faça-se a leitura à vontade do leitor, segundo o imaginário de cada um. É essa a ideia de Gonçalo M. Tavares, a quem importa sobretudo fazer refletir. Tanto se dá que este Atlas, uma edição da Caminho, seja do mundo da Filosofia ou da Literatura, é um ensaio de um escritor que procura uma ficção que faça pensar, como diz ao JL nesta entrevista, em que também fala do seu livro anterior Animalescos (ed. Relógio d'Água), escrito a tanta velocidade quanta a lentidão que Atlas implica. Dois tempos, dois percursos que segue, sem deixar para trás o seu Bairro cheio de Senhores e o Reino de Livros Negros.Uma obra com muitos ritmos, mas com a mesma vertigem da escrita, qualquer coisa de "orgânico" e absolutamente necessário na existênciadeste escritor "tranquilo", que evita sair do texto nas conversas e esquiva-se ao contexto para divagar sem limites no domínio do sub e do hipertexto. Sempre "e", nunca "ou", assim se escreve o mundo no seu rosto e na sua fala. Tudo ligado. 

Jornal de Letras: Atlas do Corpo e da Imaginação é simultaneamente umensaio e uma ficção? 

Gonçalo M. Tavares: É um ensaio ficcional. Tenho um fascínio pelo "e"e um grande desinteresse pelo "ou". 

Porquê?

Desvalorizo o "ou" porque remete para isto ou aquilo. Há um texto muitobonito de Kierkegaard que tem a ver com isso. Mas se escrevesse umlivro semelhante o título seria "e e e e". Porque o que quero fazer comoescritor é isto e aquilo e aqueloutro. O Atlas e o Animalescos, o meu livroanterior, são dois mundos completamente distintos. A própria escrita édiferente. São mesmo aparentemente incompatíveis, em termos de ummesmo autor.  

Por que sente necessidade de seguir registos tão diversos?

Tem a ver com qualquer coisa que sinto cada vez mais: um antifundamentalismo em relação a quase tudo. No limite, o "ou" é deexclusão definitiva, remete para uma espécie de inimizade, para dois campos. O "e", pelo contrário, remete para as ligações, o que me interessa muito mais. Quando escrevo, há diferentes percursos, itinerários,que levam a determinados finais. Mas para mim é muito claroque todos os livros estão ligados. Tudo está ligado. 

Animalescos é de um percurso que começa agora a explorar?

Sinto que é um dos percursos essenciais, para mim, neste momento.Tem a ver com Canções Mexicanas e Água, Cão, Cavalo, Cabeça. Sãotrês livros que arrumei na ideia de canções e de rutura com o mundo dereflexão e pensamento. 

Em que sentido?

É uma questão de velocidade. Diria que o Atlas tem a ver com uma certalentidão de escrita e de pensamento, tal como esses livros pertencem aoutro mundo de velocidade. Toda a minha escrita é rápida, mas estaé muito mais orgânica, instintiva, veloz. O reflexivo é mais lento. Nãose trata de ser melhor ou pior. O que sinto é que chego a sítios completamente diferentes e não quero abdicar de nenhum itinerário. Todos os percursos que não percorri ainda são hipóteses, não foram excluídos. 

VELOCIDADE E PENSAMENTO

Como escolhe um ou outro itinerário de escrita?

Um livro como o Atlas tem uma estrutura. Há pontos de referência por onde sei que vou passar. No caso de Animalescos ou de CançõesMexicanas, acabo por começar a escrever sem saber o destino. É uma escrita mais bruta. Sim, mais brutamontes. A velocidade dá um choque maior. Como se sentisse a brutalidade da escrita.  

É curioso porque noutros dos romances, como Aprender a Rezarna Era da Técnica, essa violência também existe, mas parece menospróxima.

Já falei com várias pessoas que sentem precisamente isso em Animalescos. A primeira pessoa acelera muito a escrita e nesse sentido transforma-se em qualquer coisa de muito brutal. A terceira pessoa de Aprender a Rezar na Era da Técnica dá uma violência vista por alguém que está a dois ou trêsmetros. Há uma distância, uma de defesa no narrador que se calhar também é transmitida para o leitor. No 'eu' recoloca-se o narrador dentrode uma energia tensa. Não é alguém que está a tentar perceber, é alguémque está a descrever, enquanto está a ser empurrado.  

É a diferença entre o explorador e o cartógrafo?

Mais entre o cartógrafo, que está a dizer que ali há um buraco, e alguém que está a cair nele. Em Canções Mexicanas está a descrever o centímetro a seguir aos seus pés, o segundo que antecede a sua entrada em ação. Num livro como Aprender a Rezar na Era da Técnica há uma distância temporal muito mais tranquila. Mas estas coisas não são separáveis. Interessa-me cada vez mais que o pensamento coincida com o momento da escrita. E noto mesmo que no caso de Animalescos e Canções Mexicanas tirando algumas letras fora do lugar tudo surge quase pronto. 

São livros menos editados?

O estranho é que ficam muito próximos do final. Ao contrário, Aprender a Rezar na Era da Técnica ou Jerusalém são livros em que o próprio momento de escrita é claramente mais lento e a carga de trabalho posterior muito maior. A velocidade dá uma série de decisões que são tomadas sem a pessoa ter essa noção. Como se fosse mais certeira à primeira. Esta escrita é como atirar uma pedra a grande velocidade. Aqui, a velocidade coincide com a pontaria. Em relação a outros livros, até o tipo de movimento de escrita é distinto. É outro animal. 

Vê os livros como animais?

Sim e não me identifico com a ideia de que um livro é melhor do que ooutro. É como uma pessoa dizer que a girafa é melhor do que o tigre ouo elefante. Cada animal tem as suas características.  

Mas com essa aceleração da escrita, passou de algum modo da reflexãoà ação?

A reflexão é ação. O Atlas passa muito por isso: o pensamento é ummovimento, uma ação. Ao pensar não estamos a assistir, estamos afazer alguma coisa. Tal como quando partimos um copo ou atiramos umapedra. Logo não noto essa diferença. A reflexão é qualquer coisa queacho essencial. Quando fazemos um movimento estamos a executar umpensamento. Isso até se sente muito na escrita, mais ainda com a manual. Quando eu escrevo um "A" estou a fazer um conjunto de movimentos. Escrever uma reflexão é um conjunto de movimentos muito meticulosos. Por que havemos de pensar que agir é pegar numa pedra e atirá-la contra um edifício e quando eu movimento a mão de uma forma muito microscópica já não é ação? Qual é a lógica? Por outro lado, o nosso pensamento funciona muito por associação. E as nossas associações por vezes são de grandes saltos. O Atlas também anda à volta dessa ideia. 

De que maneira?

Também se pode pensar assim: por passos, saltos, por corrida. Não sedeixa de pensar por se estar a correr. Há coisas que só são produzidasquando se pensa passo-a-passo, como a Ciência. Alguma Arte Contemporânea, em contrapartida, pensa muito por saltos. Um pé estábem afastado do outro. O problema é julgarmos que o pensamento é umacoisa lenta, controlada. Há muitos pensamentos. No Atlas é mais passoa passo, apesar de ter saltos, mas o Animalescos é de passadas largas. Oinstinto é o pensamento mais rápido que existe. 

A velocidade, de resto, é uma das características do tempo em quevivemos.

Sim, mas aí também há várias. E falta muita velocidade ao mundo.Uma velocidade inteligente, que vá direto a qualquer coisa de essencial.Quando falamos de velocidade atual referimo-nos à passagem deum estímulo para outro, ao facto de uma pessoa cansar-se rapidamente,o que tem a ver com a multiplicação das imagens. Na Idade Média,ao longo das suas vidas as pessoas tinham acesso, no máximo, a sete ouoito imagens, pinturas ou representações. Por isso, concentravam a sua atenção durante dias, semanas, meses. Vivemos numa época emque, em dois minutos, vemos mais imagens que os nossos antepassadosdo século XVI na vida toda. O mesmo acontece com as pessoas. Umeuropeu da Idade Média se calhar conhecia 50 na vida toda, talvezaquilo que nós conhecemos num mês. Isso faz com que haja, hoje emdia, uma velocidade de consumo de imagens e de pessoas. Se umaimagem não nos salva, há milhares de outras. Com muitas exceções, émuito raro uma pessoa estar duas ou mesmo uma hora seguida concentrada num único objeto. Ou seja, há uma geração que tem muitos estímulos. Estou com curiosidade em saber o que vai acontecer em termosartísticos daqui a 10 ou 20 anos.  

Por causa da dispersão?

Ninguém imagina Miguel Ângelo a fazer uma pincelada, depois a responder a um email e voltar outra vez à pintura. Os artistas passavam semanas fechados num compartimento, sem falar com ninguém, só saíampara comprar comida, sem largar o seu objeto. Há obras de arte que só podem aparecer se uma pessoa estiver uma, duas, três, quatro, cincohoras em frente delas, sem mudar a sua atenção para outro lado. E estetempo prolongado com o mesmo objeto, concentrado, é qualquer coisa que as tecnologias e o mundo contemporâneo estão a perturbar. 

Ainda preserva esse tempo longo?

Tento sempre ter por dia três ou quatro horas no século XIX. Sem largaro 'animal'. Sem qualquer interrupção, o que nem sempre consigo. Hácoisas a que só se chega assim. Se um artesão está a fazer um objeto ede dois em dois minutos levanta a cabeça há uma dispersão. 

É o que acontece com Joseph Walser e a sua máquina.

Sim, é uma boa imagem. As pessoas abandonam muito o que estão afazer porque esse abandono não representa perigo de vida. Porque senós estivermos numa ação que, uma vez suspensa, corremos perigo devida, não a abandonamos. O desafio é pôr essa pressão no ofício artístico.De outra forma fica-se um pintor de dois minutos. E não estou a dizerque é mau ou bom. Com os anos, vai provavelmente fazer aparecer obrasde arte diferentes. Algumas talvez mais interessantes. 

FICÇÃO E IMAGINÁRIO

Voltando ao Atlas: o ponto de partida foi a sua tese de doutoramento?

Sim, mas o livro é completamente diferente. 

(Ver completo em versão impressa)