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Francisco Vaz da Silva: Os pontos de cada conto

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Francisco Vaz da Silva

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Em sete volumes, o antropólogo e prof. universiário Francisco Vaz da Silva promete revelar as muitas variações dos Contos Maravilhosos Europeus. Versão completa da entrevista ao JL/Educação, de 1 de junho

Em sete volumes, o antropólogo e prof. universiário Francisco Vaz da Silva promete revelar as muitas variações dos Contos Maravilhosos Europeus, que desde tempos imemoriais continuam a fascinar miúdos e graúdos. Com a saída do primeiro livro, dedicado ao tema da Gata Borralheira, o JL/Educação entrevista este especialista que há mais de 30 anos vive mergulhado nas malhas da tradição oral, também para perceber como podem estas histórias ser lidas na sala de estar e na sala de aula

Foi quando andava em trabalho de campo, há 30 anos, que Francisco Vaz da Silva descobriu a importância do admirável mundo dos contos populares. Era, na altura, um jovem antropólogo, daqueles que vasculham os arquivos paroquiais. A certa altura, reparou que em muitas famílias do Minho, normalmente nas muito grandes, era habitual o filho mais velho ser padrinho do sétimo. Decidiu então perguntar a uma senhora de idade, também ela madrinha da sua irmã mais nova, a razão de tão sistemática opção. Ela fugiu à questão, como muitas outras pessoas. Mas, aos poucos, uma ideia foi desenhando-se na sua cabeça: "Vim a perceber que tinha a ver com crença antiga", lembra. "Se o sétimo filho não fosse apadrinhado pelo primeiro, corria o risco de se tornar um lobisomem". Era uma convicção antiga, que podia ser ligada à história do polegarzinho, sétimo filho que os pais levam para a floresta porque não tinham como alimentar e que, segundo a tradição oral, teria de lutar contra um lobisomem ou uma criatura semelhante. "Percebi que os contos maravilhosos podiam dizer coisas do universo mental das pessoas de carne e osso que os contavam. Não são isolados da realidade, antes narrativas simbólicas que revelam a visão do mundo de quem os conta e ouve."

Desde essa epifania, Francisco Vaz de Carvalho tem vindo a estudar os contos e os muitos pontos que são acrescentados em várias partes do mundo, sendo hoje um dos especialistas nesta área, à qual dedicou o estudo Metamorphosis: The Dynamics of Symbolism in European Fairy Tales. Agora, o prof. do ISCTE e membro da revista especializada Marvels & Tales dirige-se ao grande público, recolhendo em sete volumes, com a cancela do Círculo de Leitores e da Temas e Debates, os principais Contos Maravilhosos Europeus. Cada livro apresenta uma temática e as respetivamente variações nacionais. Além de novas traduções, este trabalho oferece também um comentário para cada texto, pelo que poderá ser entendido como uma introdução aos conceitos teóricos e científicos deste género literário herdeiro da tradição oral.

Depois de Gata Borralheira e Contos Similares (322 pp, 17,90 euros), saem ainda este ano os volumes Capuchinho Vermelho Ontem e Hoje e Mulheres de Outro Mundo - Fadas e Serpentes e, em 2012, Matadores de Dragão, Princesas Resgatadas, A Bela e o Monstro - Contos de Encantamento, A Morte Madrinha, Polegarzinha e Outros Contos e Branca de Neve e suas Irmãs.

JL/Educação: Lendo as muitas variações que reúne neste livro, confirma-se a sabedoria popular: quem conta um ponto, acrescenta um ponto.

Francisco Vaz da Silva:
Essa é das primeiras conclusões que tiramos quando começamos a trabalhar nesta área. Os contos maravilhosos são sempre iguais uns aos outros, sendo possível encontrá-los em distintas geografias. Mas ao mesmo tempo, nenhuma variante é igual à outra. É quase uma constatação contraditória: contos fundamentalmente iguais, mas nunca rigorosamente iguais.

Como se explica essa diversidade na unidade?

Há uma estrutura comum aos contos, ligada ao tema do renascimento. É a ideia de alguém que começa com uma falta e que vai ter de ir ao outro mundo, normalmente o dos mortos, passar por um período de encantamento. Dessa fase de provações e anonimato vai reemergir com o que necessitava e ascender a um novo patamar da sua vida. É a estrutura dos rituais de iniciação que existem em todo o mundo e dos quais estes contos constituem uma variação.

Sob a capa da diversidade, há sempre uma intenção nesses contos?

Há um modelo claro e um reportório de motivos limitado. Isto é, há uma linguagem que pode ser modificada pelos contadores segundo as suas necessidade, mas que é sempre reconhecível, qualquer que seja o contexto em que a ouçamos.

E quem inventou estes contos?

A expressão quem conta um conto, acrescenta um ponto implica relativizar quem criou estes contos. É ilusória a noção de que podemos encontrar a versão original. Os contos existem em tradições orais cuja idade não conhecemos. O que sabemos é que as variações se transformaram mutuamente até ao infinito. Tentar presumir a intenção da primeira pessoa que contou um conto é um esforço semelhante ao de perceber a intenção de quem inventou a religião ou a linguagem articulada.

Mal comparado, é como as anedotas, que não têm autor?

Na tradição oral, um contador ouviu o mesmo conto de fontes diferente, assimila essas variantes que ouviu e num ato criativo faz uma síntese. O que faz de cada contador um criador, mas só até certo ponto. É um criador dentro dos limites tradicionais.

Qual o segredo da longevidade destes contos?

É precisamente o que me fascina. Estes contos são narrativas manifestamente "não verídicas", porque falam de criaturas, como dragões, bruxas ou tapetes voadores, que sabemos que não existem. Se calhar, temos de relativizar a noção de "verdadeiro" e perguntar como é que elas, apesar da sua "falsidade", dizem algo às pessoas suficientemente forte ao ponto de estas histórias não desaparecerem. A resposta talvez esteja no simbolismo e na linguagem figurada que é usada para tocar na essência das coisas. Estas narrativas abordam elementos do nosso psiquismo e em temas que nos são caros, mas com os quais lidamos de uma forma inconsciente.

O império da razão não é suficiente para as pessoas entenderem o mundo?

Os contos são certamente racionais de uma maneira própria, que tem a ver com o simbólico. Mas, usando uma frase feita, temos de os ver com as razões que a razão desconhece.

Mas é importante ler as muitas variações?

Os contos são uma cadeia infinita de variações sobre um tema fundamental. Por isso, lidar com um texto é uma tarefa infrutífera. Tomados individualmente, os contos funcionam como espelhos, que refletem o que queremos ver neles. Só fazendo com que as várias versões dos contos se espelhem umas às outras, de uma forma comparativa, conseguimos uma imagem holográfica, se assim podemos dizer, e com ela perceber as noções subjacentes a cada história.

Que critério definiu na divisão dos vários volumes?

Tentar, da maneira mais económica, incluir o maior número de temáticas possível, quer as que o grande público conhece melhor, quer os que são menos divulgadas. Ou seja, explicitar temas sobre os quais o leitor possa ter um conhecimento mais ou menos imperfeito, para assim aprofunda-lo.

Nesse sentido, o ciclo da gata borralheira é um dos mais populares.

É também bom para começar porque conhecemos a gata borralheira como a coitadinha que vive com a madrasta e que tem de estar no borralho da cozinha. Desconhecemos, no entanto, que se trata de parte de um ciclo de histórias mais vasto. O meu argumento é que só podemos compreender a gata borralheira à luz das outras variantes do mesmo tema. Este alagar de perspetivas implica uma outra maneira de pensar e olhar os contos que eu queria afirmar desde o primeiro volume.

Um instrumento educativo

Um bom tema de conversa entre avós, pais e filhos ou uma forma de promover o poder de síntese e a capacidade de reinterpretação. Para Francisco Vaz da Silva, os contos maravilhosos podem ser um instrumento ao serviço da educação, apesar de na sua origem não serem um género infantil, nem educacional. Bem enquadrados, no entanto, talvez sejam um meio para "estimular o espírito crítico e a criatividade". 

Estes contos podem ser usados no contexto escolar?

Como explica Bruno Bettlheim, no livro A Psicanálise dos Contos de Fadas, que tem tradução portuguesa, a leitura e o trabalho com os contos maravilhosos é psicologicamente benéfica para as crianças, em várias idades. É um estudo criticado por alguns especialistas, sobretudo por usar apenas uma variação dos irmãos Grimm, mas a tese continua a fazer sentido. Os contos maravilhosos são infinitamente plásticos e as crianças tendem a relacionar-se imediatamente com eles. Por isso, tudo o que tem a ver com incentivar os alunos ao trabalho de interpretação e criatividade é bom. Dizer a mesma história por outras palavras, reforçar a confiança dos alunos nas suas capacidades, incitar o poder de síntese, tudo isto está manifesto no trabalho de ler e recontar, que pode ser usado nas aulas de português ou afins.

A dimensão intergeracional pode também ser explorada?

Sim. Pela sua complexidade, os contos maravilhosos apelam a pessoas de todas as idades, que tendem a vê-los de maneira diferente. Um conto, lido pela avó, pelo pai e pelo filho, pode muito bem ser um interessante tema de conversa, no sentido de acentuar convergência e delinear especificidades.

Alguns países têm disciplinas próprias que levam as crianças a decorar contos e quadras populares. É uma ideia que lhe agrada ou teme a componente nacionalista que lhe está subjacente?

Não tenho a certeza que se possa falar tão abstratamente em Educação. Acima de tudo, temos de nos perguntar para o que educamos ou que modelos queremos implementar. Pessoalmente, não sou favorável a formas nacionalistas de pensar a Educação. Devemos educar as crianças como cidadãs do mundo, enraizadas numa cultura, é certo, mas para a partir dela olhar o mundo. Deste ponto de vista, claro que é importante saber-se coisas sobre os contos portugueses, mas é mais importante perceber que eles dialogam com outros de outros países e fazer com que os alunos sejam introduzidos a essa conversa, mantendo-a viva.