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Fernando Campos: O filme da História

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Fernando Campos com o folhetim Ravengar encadernado pela sua mãe e pela sua tia

Luís Barra

Foi há duas décadas e meia que surgiu no panorama literário português e desde então nunca mais parou. Autor de várias ficções, lança agora Ravengar, a recriação de um filme que marcou a sua infância. Mesmo sem nunca o ter visto. Como nos romances históricos, na falta de factos ou de documentos, Fernando Campos, 88 anos, abre a porta à imaginação. O JL visitou o escritor na sua casa, em Lisboa, a propósito deste novo livro e da edição comemorativa da história que mudou a história da sua vida: A Casa do Pó 

"Todos os livros começam em branco", garante Fernando Campos, recorrendo à sua experiência de uma dúzia de romances históricos escritos ao correr dos últimos 25 anos. Mas este que agora lança na sua nova editora, a Alfaguara, que está a relançar a sua obra, tem uma história prévia. Na primordial página em branco desta ficção, havia os traços bem vincados que nunca conseguiu, nem quis apagar da sua memória. É por isso que gosta de apresentar Ravengar - assim se chama o livro - como um "divertimento" e uma "saudade". Muito antes de Fernando Campos nascer, a sua mãe imigrou para o Brasil, com os pais. Procuravam uma nova vida, as oportunidades escasseavam em Portugal, no início do século XX. Foi uma aventura marcante, recordada em muitos serões e que até inspirou um livro seu. Ainda criança, ao ouvir aqueles episódios, a atenção de Fernando Campos concentrava-se num tal cavalheiro misterioso, apenas conhecido pelo seu primeiro nome, Sir Ravengar, e que protegia uma bela donzela das "garras do seu marido". Tratava-se da personagem principal de um filme que a sua mãe e a tia tinham visto no Rio de Janeiro, mas não só. Também o leram. É que todos os dias, no jornal A Noite, o argumento do filme mudo era publicado num folhetim que durou semanas. E todos os dias, as duas irmãs recortavam o jornal, viviam a história, sofriam com a protagonista. No fim, encadernaram os fascículos e guardaram um lugar especial para eles na estante da sala. De onde agora os retirou. "A história estava muito mal contada", brinca Fernando Campos. O estilo era pesado, com muitas repetições, imagens forçadas. Se não tivesse o peso de uma memória de infância, provavelmente nunca lhe prestaria atenção. "Quis dar-lhe um toque pessoal", garante. Acrescentou-lhe um pórtico a abrir, simulando uma sequência antes do genérico, e criou de raiz um primeiro capítulo para dar espessura às personagens. Depois, seguiu as tramas da narrativa, típicas do cinema mudo, que mantinham o coração dos primeiros espectadores em constante espanto. Ainda tentou obter mais dados sobre o filme, realizado por Louis Gasnier, um mestre da aurora da sétima arte. As informações, porém, não podiam ser mais misteriosas. Tão misteriosas como o Sir Ravengar, símbolo das artes mágicas e das artimanhas, da elegância e do amor eterno. Perante as vicissitudes do destino, tão cruel e engenhoso neste tipo de narrativas visuais, ele mantém a dignidade do cavalheiro que sempre foi, evidenciando a ganância dos que rodeiam a sua amada Jessie. "Folhetim mal escrito o de A Noite, com a linguagem de lugares-comuns convencional da época, cheio de incríveis e inverosímeis lances, e personagens quase vazias de alma, tem no entanto o condão de nos prender do princípio ao fim, como prendeu e fez correr multidões aos cinemas do mundo", lembra Fernando Campos. "Resolvi reescrevê-lo e, de certo modo, reconstruí-lo, conservando no entanto a trama, mas não avançando, como faz o folhetim, o que só no fim se deve saber, e pondo, hors texte, na boca das duas meninas, alguns comentários jocosos aos exageros do enredo, às repetições de situações, aos milagrosos aparecimentos em cena dos adereços necessários para provocar perigos e, no último segundo, salvar os nossos heróis". Nas páginas deste livro, reencontramos a mãe e a tia de Fernando Campos. Uma homenagem. O tempo reencontrado.



Da casa saiu um escritor

Ravengar é também uma homenagem ao cinema, uma grande paixão. Na sala da sua casa, no bairro do Arco do Cego, em Lisboa, as caixas de DVD rivalizam em número com os livros nas estantes. E à medida que percorre um século de cinema com a ponta do dedo, destacando clássicos e contemporâneos, outras obras sobressaem. São pinturas e esculturas, com paisagens de Azeitão ou motivos religiosos e mitológicos, retratos de família ou evocações das quatro estações. Além de escritor consagrado, Fernando Campos é homem de muitos talentos. Sente-se tão à vontade com a pena como com o pincel, domina o escopro como o Grego Antigo e o Latim, as suas áreas de formação, que lecionou numa longa carreira no Ensino Secundário, juntamente com a disciplina de Português. Neste contexto, a escrita foi a última a chegar.Na sua juventude coimbrã, durante os tempos de faculdade (nasceu no concelho da Maia, em 1924), ainda viu uns versos publicados. Sabendo da sua vocação literária e da sua relutância para a divulgar, um amigo "surripiou-lhe" o Poema ao Absoluto, que Campos foi descobrir na Brisa, a revista dos estudantes. Anos mais tarde, em 1961, ainda publicou um conto no jornal Notícias de Chaves, intitulado Farrapos de Noite. Mas a dedicação ao ensino e as ocupações familiares - é pai de seis filhos e agora avô de três netos - adiaram esse reencontro com a escrita. Também porque quando a vontade de contar uma história se impôs, Fernando Campos revelou-se um investigador obsessivo e minucioso. A 18.ª edição do seu romance de estreia, que assinala duas décadas e meia da sua publicação, esconde o muito trabalho que o escritor dedicou à recolha de documentos.Na verdade, em vez de comemorar os 25 anos de A Casa do Pó, devíamos estar a celebrar os 35. É que foi por volta de 1976 que Fernando Campos descobriu o livro que mudou a sua vida, o Itinerário da Terra Santa, de Pantaleão de Aveiro, um clássico da literatura de viagens do final do século XVI. Conhecia a obra, mas nunca a tinha lido na íntegra. Encontrou-a numa pequena banca de livros e histórias aos quadradinhos, que havia no cruzamento entre a Avenida de Roma e a Rua João XXI, em Lisboa, onde então já morava (iniciou a docência no Porto, de onde se mudou para o Liceu Pedro Nunes, na capital). Foi amor à primeira vista, mas namoro demorado. Teve de fazer a corte ao livro e à vendedora. "Pediu-me cinco mil escudos, o que era muito mais do que eu ganhava em vários meses de ordenado", recorda o escritor, entre risos. Dias mais tarde, ofereceu mil escudos, o que a alfarrabista recusou imediatamente. Mas não há água mole que não acabe por furar pedra dura. Reconhecendo o enorme interesse demonstrado pelo seu cliente mais assíduo, a vendedora lá se deixou convencer. "Dê-me os mil escudos e não se fala mais nisso", disse-lhe. Fernando Campos não hesitou. "É a quarta edição, raríssima. Um livro para lá de qualquer valor".De início, a ideia era fazer uma antologia, mas a curiosidade em descobrir quem era este Pantaleão de Aveiro levou-o pelos caminhos da História. Recusando a tese de que seria natural daquela vila, colocou a hipótese de se tratar, contudo, de um descendente do Duque de Aveiro. A investigação que realizou procurou provar esta tese ou, pelo menos, que esta não fosse de todo improvável. É que, logo no primeiro romance, o escritor definiu as suas regras. "Respeito o que está documentado", afirma. "O resto, invento". A fórmula relevou-se de sucesso. A Casa de Pó foi um enorme êxito, esgotando edições atrás de edições. Apareceu nos jornais, na televisão, passou a ser reconhecido nas ruas. Feito notável para um novo autor de... 62 anos. Certo é que não deixou escapar a oportunidade. Reformou-se quando pôde e lançou-se no segundo livro. E no terceiro. E no quarto. E por aí fora. Depois da estreia, seguiu-se O Homem da Máquina de Escrever, Psiché, A Esmeralda Partida, A Sala de Pergunta e O Cavaleiro da Águia, entre outros. Romances que a Alfaguara está a reeditar, seguindo, por sugestão do autor, a ordem cronológica. Entre um manuscrito novo, já pronto, e outro que tem há muito na cabeça, Fernando Campos dedica-se à revisão dos seus livros, há muito afastados das livrarias. A 18.ª edição de A Casa do Pó e a primeira de Ravengar assinalam, na verdade, o regresso de um autor que nunca nos deixou. Como um filme que cria raízes na nossa memória.