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Escritores em 'tempo de indigência'

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"Provocar" foi a palavra de ordem do 3.º Festival Literário da Madeira, que se assumiu como fórum de debate sobre o futuro do país, da Europa, do Mundo, e sobre o lugar da literatura. Quatro dias no Funchal, onde não faltaram humor, ironia e denúncia. Poema inédito de Maria do Rosário Pedreira na edição em papel

Carolina Freitas

Entre a Livraria Esperança e o Teatro Municipal Baltazar Dias, pedi coordenadas a um senhor. "Ah, não é de cá". "Não. Vim ao Festival..." Não precisei de acabar a frase: abraçou-me, de sorriso aberto, deu-me dois beijos, e disse: "Obrigado". Ainda que caricatural, a imagem ilustra o acolhimento do 3.º Festival Literário da Madeira (FLM), que decorreu de 3 a 6 de abril, no Funchal, a que o público acorreu em massa, assim como se mostrou mais entusiasmado, atento e participativo do que nas edições anteriores. E ávido de protesto.

Sinal dos tempos, é certo, mas também de um festival que, segundo a organização, a editora madeirense Nova Delphi, queria "sobretudo provocar", propondo como tema 'Manifesto à Arte'. Conseguiu. Falou-se da 'crise' de Portugal, da Europa e do Mundo, da prisão de Guantanamo, de sexualidade feminina, de viagens físicas e psicológicas, do poder das palavras, de notícias de última hora, como a demissão de Miguel Relvas e a decisão do Tribunal Constitucional sobre o Orçamento de Estado para 2013, e, claro, de literatura e do papel dos escritores.

"Os poetas não servem para nada". Foi assim que a jornalista e poetisa Filipa Leal tomou a palavra na mesa que tinha como mote os versos de Hélia Correia para quê, perguntou ele, para que servem/ os poetas em tempo de indigência? E continuou: "Os poetas gostam de dormir até tarde. Os poetas não têm horários para escrever. Os poetas amam e fumam demais. Os poetas morrem mais cedo do que os romancistas. Os poetas repetem-se muito (...)". Fragmentos de um longo texto "auto-irónico", sublinhou Filipa Leal, a partir do poema Defesa do Poeta, de Natália Correia - Senhores jurados sou um poeta (...)/ um defeito. Um "manifesto em defesa do leitor de poesia", para ser lido na ocasião, que terminou assim: "Os poetas não servem para nada. Os poetas só servem para ser lidos. Em tempo de indigência, manifestemo-nos a favor dos leitores de poesia, (...) Morra a prosa, morra! PIM". A sessão, moderada por Manuela Ribeiro, em que também interviram Maria do Rosário Pedreira, Ana Luísa Amaral e Inês Fonseca Santos, foi um dos pontos altos do FLM, no qual não faltaram emoções fortes.

Do riso suscitado pela autora de Vale Formoso, fez-se pranto, como diria Vinicius. Começando por defender que "é como cidadãos, e não como poetas, que temos de intervir", Maria do Rosário Pedreira revelou que a atual situação política e os seus efeitos na vida das pessoas têm "contaminado" os seus últimos poemas. E trouxe dois de um conjunto inédito que tem como título provisório Mulheres de 2013 - dois gritos "contra a indigência", que calaram a sala [ver caixa].

A poesia esteve, de resto, omnipresente nesta edição. No lançamento de Habitação de Jonas, o segundo livro de Inês Fonseca Santos (ed. Abysmo), e um pouco por todas as sessões. Como naquela dedicada ao tema A arte de morrer longe (título de um romance de Mário de Carvalho), em que Tiago Patrício leu o poema Subida para o castelo, da sua autoria, evocando a ligação à Madeira, onde nasceu.

Mas foi também cantada, pelo italiano Mariano Deidda, acompanhado por Massimo Cavalli, no contrabaixo, e Nino Lapiana, no piano, num concerto só com poemas de Fernando Pessoa e Cesare Pavese. E por Sérgio Godinho, que pôs o Teatro Municipal Baltazar Dias a cantar em uníssono clássicos como 'Primeiro Dia', 'Balada da Rita' e 'Liberdade'. O clímax chegou com 'Quatro Quadras Soltas', quando depois dos versos Ó patrãozinho/ desculpe lá essa seca/ estive a beber um copito/ com uma quadra do Zeca, substituíu a quadra seguinte por um excerto de 'Grândola, Vila Morena'. P'ra agitar a malta.

Europa crítica

A Europa foi outra grande 'protagonista'. Sem surpresa num encontro que teve como cabeça-de-cartaz Zygmunt Bauman, um dos mais destacados sociólogos da atualidade, que o JL entrevistou no número passado, e que acaba de lançar entre nós Europa Líquida, uma série de entrevistas com Giuliano Battiston (ed. Nova Delphi). A sua 'entrada em cena', todavia, aconteceu logo no primeiro dia do Festival, numa conversa entre Rui Tavares e Naomi Wolf, que se revelou um curioso jogo de espelhos. É que a sessão cujo ponto de partida era o livro O Fim da América (ed. Nova Delphi, da autoria da norteamericana, com prefácio do eurodeputado português), começou por centrar-se na crítica à democracia dos Estados Unidos e acabou com o dedo apontado às fragilidades da União Europeia.

Anti-Bush, a autora de O Mito da Beleza não se mostrou muito mais favorável a Obama, insurgindo-se contra o "despotismo" de Guantanamo. "Estive lá como jornalista. Aquelas pessoas estão detidas há 10 anos. Guantanamo viola a Constituição e, pior, viola todos os direitos humanos por que lutámos. É um gulag no século XXI", disse. Depois, quis saber como funcionavam as instituições europeias. Rui Tavares, que lançou recentemente A Ironia do Projeto Europeu (ed. Tinta-da-China), provocou: "As instituições europeias não são democráticas, a União Europeia não é democrática. Seria uma democracia se nós elegêssemos quem nos representa, o que não acontece". E explicou: "O Parlamento Europeu, único órgão eleito, não tem poder para aprovar leis. Quem inicia o processo é a Comissão Europeia e o Conselho Europeu é que tem a palavra final".

Estava dado o tom, replicado em várias conversas: a Europa em estado crítico. Dando uma autêntica aula de História do Velho Continente, Bauman identificou o que julga ser "o grande desafio" dos tempos que correm: "O poder já é global, mas a política ainda é local. Como recasar poder e política que estão neste momento divorciados?". Rui Tavares, que partilhava a mesa (cujo mote era um poema de T.S. Eliot) com Antonio Scurati e Tabish Khair, deixou um aviso e um apelo. "Não pensem que somos menos estúpidos do que os que fizeram as guerras porque os erros que eles cometeram, nós também podemos cometer", afirmou, lembrando um "ensinamento" do seu antigo professor António Manuel Hespanha. E pediu uma maior participação dos cidadãos no futuro da UE: "Perguntem aos líderes europeus: Devemos ficar na Europa nos próximos 15 anos ou emigrar para o Brasil ou Angola? Mas não se fiquem pela pergunta: criem uma resposta". "Façam qualquer coisa com a vossa ironia", rematou. A ironia foi aliás quem mais ordenou, num festival em que também estiveram presentes Rui Zink, João Luís Barreto Xavier, João Tordo, Raquel Ochoa, Tiago Salazar, Waldir Araújo, Gina Picart, Anselmo Borges, João Paulo Cotrim, Carlos Quiroga, Raquel Varela, Paula Moura Pinheiro, Carlos Vaz Marques e Pedro Mexia.

Foi de olhos postos no futuro que se encerrou o FLM. "Como resolver a crise do Euro?", perguntou José Rodrigues dos Santos, defendendo que apesar de duro, talvez o melhor fosse abandonar a moeda única. "Não é uma ficção falar-se de soberania nacional perante o estado em que se encontra a UE?", perguntou Bauman, para logo considerar que "os países teriam menos dificuldade em preservar a sua soberania fora do que dentro da UE". Sempre mais interessado em ver o 'quadro inteiro', o pensador polaco afastou-se da Europa e olhou para o Mundo: "A grande questão para a qual se procura urgentemente uma resposta não é tanto o que deve ser feito para melhorar a sociedade, mas quem: quem vai fazer o que deve ser feito?".

Para tantas dúvidas, sobraram duas certezas. O FLM cresce a cada nova edição e para o ano há regresso assegurado. "Agora é quase uma obrigação", afirmou Francesco Valentini, diretor-geral da Nova Delphi, que prometeu novidades para 2014. Como convidar editoras estrangeiras, na expetativa de que o FLM possa ser também um espaço para negociar os direitos de autores portugueses. Mais autores. Mais música. Mais literatura lusófona. E a mesma inquietação.