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Deka Purim: Pura poesia

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Deka Purim

Catarina Melo

Brasileira, natural de Curitiba, a viver nos Açores, depois de ter trabalhado12 anos no Canadá. Deka Purim, 48 anos, acaba de lançar o seu primeiro livro de poemas: Rio Virando Mar. O JL conversou com a autora

Francisca Cunha Rêgo

Às vezes, o poema surge a meio da noite, no escuro. Acende a luz. Levanta-se, corre para encontrar um dos seus muitos "papelinhos" e escreve. De um jorro. Apaga a luz. E, se a poesia deixar, talvez volte a adormecer. Para a brasileira Deka Purim, 48 anos, os versos estão em todos os lugares e podem chegar a qualquer hora. "Basta estar atenta", diz ao JL, a propósito da recente publicação do seu primeiro livro Rio Virando Mar, uma edição do Instituto Açoriano de Cultura (71 pp, 10 euros).A viver no concelho de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, nos Açores (ver caixa) e a trabalhar na freguesia da Praia - são cerca de 25 quilómetros de distância - a autora há muito que desistiu de fazer a viagem pela via rápida que une os dois lugares: "Prefiro a estrada nacional porque preciso de ver os lavradores, as velhotas a irem buscar os netos à escola. Preciso de 'xingar' o homem do trator que para no meio do caminho. Para mim, é material de escrita, é pura poesia".

Os versos sempre estiveram presentes na sua vida. Sobretudo os da Música Popular Brasileira (MPB) que, na sua Curitiba natal, chegou mesmo a interpretar, cantando num barzinho. "Sem me dar conta fui criada num mundo de poesia através da MPB. Nos anos 60, quando eu era adolescente, os Beatles estavam no auge, mas eu sempre fui Chico Buarque, Vinicius, Tom Jobim... Eles trouxeram respostas para os meus problemas e inquietações e confirmaram muito do que eu sentia", revela.Até agora, nunca tinha "ousado" escrever: "Estive sempre caladinha, a ouvir. Nem para ler em voz alta eu tinha coragem". Foi depois de ter vivido "um período de depressão, um pouco atrapalhado" que os poemas começaram, como diz, "a pingar". E explica-o em Casa: "O meu quarto/ Tem goteira/ Pinga poema/ A noite inteira.// Acordo húmida/ Derramando." A depuração e a simplicidade são dois dos traços da sua escrita: "Vou podando cada verso até estar 'no ponto'. Ao longo dos anos, tenho vindo a despir-me de muitos acessórios que acabam por se tornar pesados. A minha vida é cada vez mais simples e isso dá-me uma liberdade muito grande. Também para escrever". Tem em Adélia Prado uma das suas referências e foge "como o diabo da cruz" das palavras "complicadas, melequentas, rendilhadas que afastam os leitores". Porque Deka Purim só quer aproximar-se, sobretudo dos jovens. E brinca dizendo: "A minha poesia é muito prática. Pode-se mesmo enviar por sms". Com a depressão - completamente ultrapassada: "Sou uma pessoa tão feliz que às vezes nem sei onde colocar a minha alegria" - houve momentos bastante difíceis e os versos ajudaram-na muito. "Consegui resolver questões pesadíssimas para mim, como a religião, ou a relação com a minha mãe. Fui educada na Igreja Baptista, muito austera, em que tudo era pecado. Escrever ajudou-me a encontrar contrapontos para a alegria, para o amor. Quando vejo as palavras tatuadas no papel sinto, ao mesmo tempo, um grande alívio e um enorme prazer. Mesmo quando dói". Em Poeta, Deka Purim parece dizer tudo: "Ser poeta é/ quase/ quase/ deixar de Ser.// É se diluir/ pra pertencer.// É o gozo do/ aperto do leito/ das palavras/ das grafias/ e do divino ritmo.// Ser poeta é/ Ser Rio/ virando Mar".



Dar e ter voz

Em miúda sonhava ser jornalista, repórter: "Queria ser a voz dos que não têm voz". Mas, depressa se apercebeu que não iria ter a liberdade que desejava. "Na altura do vestibular tive algum contacto com pessoal ligado ao jornalismo e percebi que eles só escreviam o que o patrão deixava, além de terem uma situação profissional muito pouco segura", recorda. Nascida em Curitiba, capital do estado do Paraná, Brasil, em 1962, Deka Purim, teve uma educação austera, baseada nos valores da Igreja Baptista - "muito puritana e hipócrita", diz. Na família do pai havia "adoração pelos generais da ditadura" e na da mãe, de origem italiana, uma "excessiva reverência à nonna". "Hoje em dia, a minha família seria considerada disfuncional", remata. Ainda assim, foi com o pai que aprendeu que uma fuga possível era a leitura, e assim soube "que depois da cerca do galinheiro, havia mais mundo".

Desiludida com o jornalismo, Deka Purim virou-se para a Assistência Social - "Para ajudar outros a terem voz" - estudando na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais de Curitiba. Pouco depois - sem ter entregue a monografia, e portanto, sem terminar a licenciatura -, teve a oportunidade de ir para Montreal, no Canadá. Foi. Casou então pela primeira vez e teve um filho, Rodrigo. Mas, passado um ano e meio, separou-se. Sozinha, com uma criança a cargo, foi "uma verdadeira emigrante", trabalhando nas limpezas. Por essa altura, numa festa em casa de uma amiga, conheceu o seu "portuga", Marcolino Candeias, que então era leitor de português na universidade. Uma ligação, no mínimo, invulgar: "O meu marido teve a coragem de me ver, de perceber quem eu era. Estamos juntos há 22 anos. Tivemos uma filha, Maïthé. Nunca mais nos largamos".

Depois de 12 anos no Canadá - "A oportunidade de aprender bem outra língua fez com que o meu amor às palavras crescesse", afirma -, Deka Purim chegou aos Açores, em 1997. Sentiu-se em casa. Na Universidade dos Açores tratou do processo de equivalências para obter a sua licenciatura, fazendo mais tarde uma pós-graduação em Ciências Sociais e Políticas Sociais e Envelhecimento. Hoje trabalha como assistente social na Direção Regional de Prevenção e Combate às Dependências. E será que vai voltar a editar? "Tenho que juntar os meus papelinhos espalhados por todo o lado", responde, entre risos. Aí estará, certamente, um novo livro de poemas.