Jornal de Letras

Siga-nos nas redes

Perfil

Conto inédito de Sophia continuado pelo neto

Letras

  • 333

Os Ciganos, assim se chama o conto inédito e inacabado de Sophia de Mello Breynner Andresen e concluído pelo neto, o jornalista Pedro Sousa Tavares. Vai ser lançado pela Porto Editora, com uma sessão de apresentação, a 16, às 19, na livraria Bertrand Chiado

É sabido que quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto. Mas não é esse o caso de Os Ciganos. Trata-se antes de uma história a quatro mãos, quase um pergaminho ou uma 'jóia de família'. É um conto inédito e inacabado de Sophia de Mello Breynner Andresen e concluído pelo neto, o jornalista Pedro Sousa Tavares. Vai ser lançado pela Porto Editora, com uma sessão de apresentação, a 16, às 19, na livraria Bertrand Chiado. A Porto Editora, como o JL pode adiantar, adquiriu, de resto, todos os direitos de publicação da obra em prosa de Sophia. A 6 de novembro, data de aniversário da escritora, serão lançados os primeiros títulos com a chancela: A Menina do Mar, com ilustrações de Fernanda Fragateiro, A Fada Oriana, com ilustrações de Teresa Calem, e Quatro Contos Dispersos, ilustrados por João Caetano. Os Ciganos, em pré-lançamento nas livrarias virtuais, tem ilustrações de Danuta Wojsiechowske.

Foi na Primavera de 2009 que Maria Andresen, poetisa e professora universitária, a filha de Sophia que tem cuidado do seu espólio, se deparou, entre outros inéditos, com um conto enunciado, iniciado e intitulado Os Ciganos, que surpreendeu desde logo pela "singularidade" no universo das suas obras para crianças. "Há algo de inesperado neste início de uma história, quer por aquilo que conta, quer por aquilo que não chega a contar", escreve Maria Andresen no prefácio. "Em vários contos, há semelhanças com o que aqui chega a ser contado, mas ao mesmo tempo, muitas  dissemelhanças".

Embora não estivesse datado, nomeadamente por comparação caligráfica, deduz-se que tenha sido escrita em meados dos anos 60. E parece vocacionado para o público juvenil. Curiosamente, termina no preciso momento da narrativa em que o personagem Ruy, que "já não era um rapaz pequeno, mas ainda não era um rapaz crescido", como escreve Sophia, e "pensava na liberdade", saltava o muro para descobrir o mundo do outro lado, na senda de um grupo de  ciganos. "Neste conto, o muro foi saltado, o jovem partiu, mas é aí que a narradora emudece, como que tão perturbada quanto Ruy pelo que se poderá seguir", escreve ainda Maria Andresen.

Por si, esse início pareceu-lhe  ter uma unidade e fazer sentido trazê-lo à "luz do dia". Mas mais tarde, quando se pensou na sua publicação, pôs a hipótese de esse início funcionar como um "motivo literário aberto a ser continuado por outras mãos". E pensou no irmão, Miguel Sousa Tavares, atendendo à circunstância de ter publicado também livros infanto-juvenis. Porém, o escritor quis ouvir os filhos. A questão que se impunha era mesmo saber da pertinência da publicação deste conto. "Criminoso" seria não o fazer, não hesitou responder Pedro Sousa Tavares. É que achou tão "bom" o que leu que seria pena não o divulgar. "Era um início quase como um guião. Estavam lá todos os sinais do que iria ser a história", adianta o jornalista ao JL. "Corresponde a cerca de um terço do livro e, de alguma maneira, acabava no momento em que ia começar a desenvolver-se". Pensa, aliás, compreender as razões por que a avó deixou de lado esse original: "É uma história que tem sentidos distintos dos seus livros infantis. A relação entre o rapaz e a rapariga é diferente e são de mundos diferentes. Talvez isso tivesse criado algumas dificuldades na continuação da história", salienta. Pedro Sousa Tavares não se limitou portanto a pugnar pela sua  publicação, teve algumas ideias para dar continuidade a essa narrativa que a avó deixara interrompida há tanto tempo. O mesmo é dizer que encontrou o fio da meada ficcional. Avançou essas ideias ainda sem pensar concretizá-las. A sua escrita é outra, ainda que secretamente tenha os seus escritos literários na gaveta. Talvez  haja mesmo um qualquer gene responsável pela predisposição literária. E a questão se pode ser de ADN, tornou-se sem dúvida de família, já que a tia, Maria Andresen, acolheu bem as sugestões e disse-lhe que acabasse então a história da avó. Houve uma espécie de coincidências do destino, pois tinha acabado de nascer o seu segundo filho e a licença de paternidade permitiu-lhe mais tempo disponível para escrever. Tudo se conjugou para um final feliz.

Dar seguimento a uma narrativa de Sophia não é tarefa fácil, mesmo sendo no caso a avó, que lhe havia contado muitas e até explicado como as começara a escrever para os filhos, por achar que as existentes não a satisfaziam. Pedro Sousa Tavares não ignorava as "implicações", as possíveis consequências ou desconfianças. Mas confessa que nem pensou duas vezes: "Era uma oportunidade que não poderia recusar. Se o fizesse, passaria o resto da vida a pensar o que  poderia ter feito daquela história", adianta. E se teve medo, espantou-o com uma certeza tranquilizadora: "Seria absurdo tentar imitar a minha avó, o que resultaria numa caricatura. Pensei sobretudo respeitar o que era essencial na sua escrita: a simplicidade". Dito de  outra maneira: Não iria nem tentar escrever como Sophia, mas nunca a perderia de vista na memória, enquanto escrevesse. E assim fez. "A verdade é que  Sophia está em todo o livro, num excerto  que ela escreveu e aparece na minha parte, nas descrições de personagens que têm as  características dela", diz ainda.  Seguiu  o seu rumo, a "mensagem que a história tinha inscrita nas primeiras linhas". Espera agora que Os Ciganos sejam lidos como um "todo". As partes  de Sophia e de Pedro Sousa Tavares estão devidamente diferenciadas, mas os leitores por certo, mesmo dando pelas diferenças, vão seguir a leitura sem sobressaltos. "A minha esperança é que, ao fim de algumas páginas, esqueçam as diferenças e sigam apenas a história e a apreciem como tal. Se isso acontecer, já fico satisfeito".

E se a avó Sophia, de algum modo, lhe legou este "presente", também lhe transmitiu um ensinamento  que agora, porventura como nunca antes, faz sentido: "As histórias têm que merecer ser lidas e cativar os leitores", diz. "Espero ter continuado  o que ela estava a fazer bem, nesta história". Tanto mais que vinda do passado, pode falar ao presente. "É  um livro sobre a transcendência, sobre a vontade de ir além do que os outros esperam. E sobre a importância de ter sonhos e não desistir deles. Também por isso  acreditei que  era uma história que fazia sentido nos tempos que correm, sobretudo para os mais novos", sublinha. "Isto além do próprio tema, os ciganos, que é pouco tratado, ainda menos na literatura infantil e juvenil. E curiosamente esta história chegou-me numa altura em que  os ciganos estavam a ser expulsos de França. Parece mesmo que estava destinada a ser contada".