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Captura, de Hélia Correia

Letras

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A partir de A Imitação da Rosa
de Clarice Lispector

Hélia Correia

I

   Apesar do terrível sobressalto, sim, a nossa missão ficou cumprida. A mulher está entregue. E nós podemos agora dedicar-nos a morrer, aos pormenores da morte luxuosa, esta morte em salão. Talvez já esta noite, o mais tardar sob a primeira luz. A criada de Dona Carlota dará um grito ao ver as pétalas por terra. Um grito pequenino, um grito desses que não passam de anúncios de si próprios, dos que encontram a mão já preparada para se encostar à boca, a impedir. Porque Dona Carlota certamente precisa de acordar devagarinho. Com café e somente os cuidadosos murmúrios da manhã, sem um assunto, sem a mais leve implicação doméstica. É uma mulher fácil de entender, não há mistério algum no seu carácter, basta que mostre uma faceta e vê-se a composição toda da pessoa. Pelo modo como ela recebeu a notícia ao telefone e a anunciou depois à criada e ao marido, vimos logo que ela é dessas que sabem, que é da espécie que entre os humanos corresponde aos cardos, aos organismos bem apetrechados para se manterem vivos e nutridos. Tanto pior se a inveja transparece, dirão: "Que disparate! E a beleza?". Mas a verdade é que eles também conseguem dar flores belas e raras e grandiosas, flores que os humanos raramente colhem, não porque tenham medo dos espinhos - não nos colhem a nós? - mas porque fazem muita cerimónia com aquela simpatia, como quem teme a entrada num banquete cujas regras sociais ninguém explicou. Dona Carlota é, de certo modo, uma regra social transfigurada. Bela e sobrevivente, bela e dura, criando as leis da casa e os seus horários, e os seus "parece mal", "parece bem", pouco coincidentes com os gerais.

  Ela pousou o auscultador e disse: "Teve uma recaída. Já não vêm". Os outros dois olharam para a mesa, que brilhava, apesar de não se servir vinho, esticaram os pescoços para verem como aquele projecto desabava sem que um grão de poeira se agitasse. Dona Carlota disse: "Achei que as rosas não eram bom sinal".

"Que rosas?".

"Essas". E apontou para nós.

 

II  

   Sim, apesar deste deslocamento totalmente inesperado. Para a sala de Dona Carlota. Trazidas pelas mãos de uma criada que detestou o encargo. Por ter de, nessa noite de folga, desviar-se, até, pode dizer-se, um outro bairro - pareceu-nos que era longa a caminhada - com o papel de seda a desfazer-se dentro da mão fechada, que era a esquerda, com a direita tomada pelo cabaz onde levava restos de comida mais ou menos roubados: distraídos. Nós, ferrando os espinhos numa pele tão calejada que os batia em resistência e não deixava que fizessem sangue. Que vergonha! Um buquê de rosas assustadas. Arremessadas para o desconhecido, como filhotes de mulher no parto. Com o nosso trabalho por fazer. Quando Dona Carlota nos viu, não percebeu nem por que razão Laura nos mandava nem por que umas pequenas coisas claras a fizeram gemer de repugnância. Talvez porque a viagem e o susto nos tivessem deixado combalidas. Talvez porque uma rosa transtornada exala um cheiro em que há residualmente bactérias do chão podre em que nasceu e a promessa da própria podridão. O certo é que pareceu desagradar-lhe, como um problema que se põe a hora imprópria. Porque é que Laura, saindo para jantar pela primeira vez depois da doença, nos mandava entregar pela criada um pouco antes? Dona Carlota era do género de achar graça a coisas intrigantes. A nós, não. Pois Laura, e tudo o que de Laura vinha, necessitavam de ponderação. De mais cuidados do que alguém feliz podia dedicar. Tinha de ser, e ela não era, um adivinho para ver que o nosso envio era, de facto, um episódio bélico. E parecia que fôramos vencidas. Que não déramos conta da missão.

 

III

   Tínhamo-la observado desde sempre. Ou, pelo menos, desde os tempos do colégio, quando Laura, tão metódica e limpa, quase enervava as freiras com a sua arrogância submissa, elas que achavam que o oxímoro requeria competência papal. Porém, já nessa altura, onde a menina parecia estar, não estava. As suas boas mãos trabalhadoras faziam coisas sem se aperceberem, sem darem garantias. De maneira que ela voltava atrás, uma e outra vez, para verificar se realmente a coisa estava feita. Pois a sua atenção e tudo o resto que havia em Laura não acompanhava o seu corpo operário nem tão pouco ia com ela ao estudo. Ficava oculto, à espera, cheio de olhos. Dos nossos olhos que não perdem nunca uma oportunidade. Que pairam como moscas, que são moscas em suspensão na tarde. Nós, o puro organismo. O primitivo. Esse cujas partículas se espalham em criações diversas, moscas, rosas. Nós, os atento+s, como cães de guarda. Tentando unir de novo, reunir aqueles que nos escaparam. Os humanos. Certos humanos, pelo menos, como Laura, ainda passíveis de restauração. Os carnais. Os que albergam no seu sono uma vaga memória florestal. E por isso combinam o desastre com o apuramento de maneiras. Não se cansando nunca de lavar, de pôr em ordem, de tapar as brechas de modo a que não passem nem formigas nem pensamentos por fundamentar. Pequenos pensamentos desconexos que resplandecem como divindades.

Somos um pouco como curandeiros, à espreita dos sintomas para lucrar. Correndo as vilas à procura de sintomas. Na verdade, eles revelam-se bem cedo, às vezes, na criança que vacila quando já deveria caminhar, vacila porque o espaço em frente dela, se parece vazio, não o está, e ela vê a pequena multidão, muito festiva e ameaçadora: as entidades da devoração. São esses casos em que a luz, uma poalha, a meio de um corredor, traça um destino. Pois nós tomamos conta da criança, erguemo-la, e ela nunca há-de pisar bem. Tropeça e um dia morre atropelada, ou cai no fundo da ravina, apenas porque via tão mal, via demais.

Laura também se desequilibrava quando menina mas a razão disso estava nas suas pernas gordas, curtas. Pernas que poderiam vir a dar no mais potente dos saracoteios ou na mais triste das deselegâncias. Na verdade não deram nada disso pois Laura, com o seu talento para o método, passou a usar cinta assim que o corpo manifestou contornos sexuais e ela acabou de se desenvolver como as damas antigas, aprumada e com dificuldade em respirar.

Nós, quanto a Laura, esperámos com paciência. Tínhamos como certo que acabávamos por apanhá-la pois que tudo nela estava coeso à força de vontade, como as coxas na cinta. Era fatal que as costuras viessem a romper. E que a Laura de dentro, à semelhança da sua silhueta violentada, se expandisse na direcção contrária, na direcção do que não é doméstico, na solta e misteriosa direcção. Ela sentia a nossa presença no ambiente, sentia a falha na estruturação do espaço, como um buraco nos mosaicos, e temia. Temia toda a desarrumação.1 Temia as suas próprias aberturas por onde se escoavam os maus cheiros e as crianças haviam de nascer. Temia que da boca lhe saíssem frases incontroladas e vadias, e que a deglutição num sítio público corresse mal e ela se engasgasse, enojando os presentes. De maneira que comer fora se tornara uma tragédia de que ela não falou, nunca falou. Dava a impressão de uma delicadeza muito espiritual, tal o cuidado com que partia e mastigava os seus legumes.

Ia crescendo com os seus segredos que nada tinham em comum com os segredos vulgares de adolescente ainda que mostrasse insegurança e timidez. O que deixava os pais apreensivos era a falência de graciosidade. As suas prendas femininas, como o asseio e o gosto pelas tarefas rotineiras, não se evidenciavam. Dependiam de alguma espécie de publicidade difícil de fazer. E quando o pai levou a filha ao altar, aquela filha que jamais dera o mínimo motivo para preocupação e, apesar disso, tanto os preocupava, nem ousava sorrir para que não vissem quanto a realidade lhe convinha. Pai que levava ao altar a sua filha castanha e pouco airosa, transformada num agradável movimento de cetim.

Nessa altura ninguém adivinhava que aquele seria um casamento sem proveito para a perenidade da família. Não iria nascer criança alguma. O marido, porém, manteve toda a amabilidade. Como acontece a certos homens, deu a Laura vários papéis para desempenhar. O natural, que era o de esposa, e os outros, o de filha a proteger, e os noturnos, em que ela se mostrou surpreendentemente talentosa.

 

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