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A volta ao mundo em 80 livro - parte 2

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Prosseguimos a volta ao mundo em 80 livros, recuperando o tema que publicámos no verão de 2010. Conheça agora as escolhas de Francisco Guedes, Gonçalo Cadilhe, Hélia Correia e José Eduardo Agualusa. Até porque ler é a melhor forma de viajar

Francisco Guedes 



Deus, o Diabo e a Aventura, de Javier Reverte

Para lá da Terra de Fogo, de Eduardo Belgrano Rawson

Rio de Sangue, de Tim Butcher

Viagem a Portugal, de José Saramago

Viagem por África, de Paul Theroux

Podia começar por Camões e Os Lusíadas, passar por Fernão Mendes Pinto e a Peregrinação, pelo Stefan Zweig e o seu Fernão de Masgalhães, pelo Gide, pelo Conrad, etc, mas fico-me pelos que li mais recentemente (a ordem não quer dizer grande coisa). Mas destaco sobretudo Deus, o Diabo e a Aventura, de Javier Reverte, que nos devolve um certo andar pelo mundo em tempos idos, uma certa grandeza ética, hoje perdida, que nos conta a história de Pedro Paéz, padre jesuíta, missionário na Índia, mas sobretudo na Etiópia, onde converteu dois imperadores ao catolicismo, tendo sido o primeiro europeu a ver e a estar junto das fontes do Nilo, muito antes de qualquer outro branco; foi essa vida dura e deslumbrante que Pedro Paéz deixou escrita na sua fabulosa História da Etiópia.



Gonçalo Cadilhe 



Among the Believers
, de S. V. Naipaul

As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galiano

In Search of Zarathustra, de Paul Kriwaczek

Uma Ideia da Índia, de Alberto Morávia

Vislumbres da Índia, de Octávio Paz 

Há definitivamente uma deformação profissional na minha escolha pois, sendo um cronista de viagens, preciso de conhecer outras perspectivas sobre um país ou região atravessada, vozes que confirmem ou agucem ou contrariem as minhas intuições sobre o que experiencio. Nesse sentido, a minha selecção recai sobre ensaios de caráter histórico, social ou económico. A leitura mais gratificante para mim acontece quando um bom escritor se debruça sobre esses temas, em vez de ter um investigador, um autor teórico, ou seja, quando um ensaio vem escrito com a leveza de um bom comunicador. Os livros que apresento na minha escolha não são de maneira nenhuma os meus preferidos numa perspetiva emocional; são, apenas, bons exemplos desta minha necessidade de viajar em companhia de algumas das mentes mais brilhantes que a literatura do século XX produziu.



Hélia Correia 



Caderno Afegão e Oriente Próximo,de Alexandra Lucas Coelho

Recollections of a tour made in Scotland, de Dorothy Wordsworth

The Dictionary of Imaginary Places, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi

Viagens com Garrett, de Isabel Lucas e Paulo Alexandrino

O Colosso de Maroussi, de Henry Miller

Na impossibilidade de recomendar o mais precioso livro de viagens que existe na minha biblioteca - Imagens da Grécia, de Maria Madalena Monteiro, aliás da dr.ª Maria Helena da Rocha Pereira, em edição da autora de 1958 -, por não estar acessível ao leitor, dedico umas palavras a um livro que converte o que pareceria ser um simples itinerário entre literatos numa invulgar experiência espiritual. Numa das suas últimas entrevistas, Miller elegeu O Colosso de Maroussi como a sua obra mais amada. Ele viajou para a Grécia nas vésperas da 2ª Guerra Mundial, com o intuito primeiro de visitar Lawrence Durrell (autor de outras excelentes impressões do país) e ali foi hóspede de Séferis, na Villa Galini, na ilha de Poros, numa pausa entre muitas deambulações. O que há de extraordinário nestas páginas é que o mais improvável dos peregrinos, um americano deslumbrado com Paris, tenha entendido tão profundamente a linguagem antiquíssima do chão grego. Foi certamente a sensualidade - não a dos seres humanos: a do cosmos - que serviu como grande condutor. O encontro com George Katsimbalis, poeta e companheiro de Ritsos, de Sikelianos, de Elytis, mas, acima de tudo, um corpo-ressonância da alegria e do furor arcaicos, é, por assim dizer, uma janela que permite aos "malditos modernos" espreitar aquilo que ainda brilha sob os séculos.



José Eduardo Agualusa 

Goa and the Blue Montains, de Richard Burton

Longe de Manaus, de Francisco José Viegas

Mongólia, de Bernardo de Carvalho

Na Patagónia, de Bruce Chatwin

Vou lá visitar pastores, de Ruy Duarte de Carvalho

Deste conjunto destaco Vou lá visitar pastores, de Ruy Duarte de Carvalho, por ser uma mistura única entre relato de viagens, ensaio de antropologia e pura poesia. Creio que é um livro destinado a ser, daqui a 100 anos, um dos grandes clássicos da literatura angolana, um livro fundador, à semelhança d' Os Sertões, de Euclides da Cunha, ou de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre.