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A suave delicadeza dos (des)encontros

Letras

David Foenkinos

DR

Nomeado para os principais prémios franceses, do Femina e do Médicis ao Ranaudot e ao Goncourt, A Delicadeza, o último romance de David Foenkinos, é um dos destaques desta rentrée. Com a sua publicação em Portugal, na Presença, o JL ouviu o escritor e rendeu-se a esta história de (des)encontros amorosos

É palavra de mil subtilezas, doces carícias e suaves encantos. A delicadeza - dos gestos, das falas, das sensações - seduz qualquer um. E ao seu feitiço não foi indiferente David Foenkinos, que se deixou inebriar ao ponto de fazer dela o tema do seu último romance. É a partir da delicadeza que o escritor francês traça o contorno das personagens e as coloca em ação, numa história de amores e desamores, alegrias e tragédias, encontros e desencontros. De França, por e-mail, Foenkinos respondeu às perguntas que o JL lhe enviou, a começar por esta:



Jornal de Letras: O que é, para si, a delicadeza?

David Foenkinos: Uma forma de ouvir o outro. De prestar atenção àquilo que ele diz.



É uma qualidade humana que o seduz particularmente?

Sim, é muito importante. O ouvido é a chave de qualquer relação.

E quando percebeu que a delicadeza podia ser o centro de um romance?

Quando reparei que o mundo andava demasiado depressa, ou era demasiado brutal, e que era necessário abrandar até à doçura.

Talvez seja essa a angústia de Nathalie. A viver uma relação perfeita, sem tristezas nem lamúrias, ela vê-se atirada para um vórtice de emoções. De um momento para o outro, tudo passa a andar rápido demais. Depois de sair para correr, o seu marido sofre um acidente mortal. Deixa-a sozinha, entregue à velocidade do sofrimento e ao insuportável peso da dor que se instalou no seu corpo. "Abrandar até à doçura" é o caminho que tem pela frente, para assim conseguir reconstruir a vida, perspetivar o futuro e equacionar a hipótese de um novo encontro.



Uma vez focado na delicadeza, qual foi depois o ponto de partida desta história?

Um homem chega mesmo no bom momento na vida de uma mulher. Porque este é um livro sobre a ideia de que, no amor, o que conta é o bom momento do encontro.

Parece ser também uma história sobre o amor depois do amor (ou da felicidade depois da felicidade). Concorda?

É uma história sobre um amor que acreditamos estar morto e que se regenera de uma forma incessante.



E sobre a ausência de razão no sentimento...

Exatamente! Não decidimos nada no amor, pois é o nosso corpo que decide!

Escutar o corpo, ouvir a mente. Nathalie reaprenderá, aos poucos, estas básicas leis da sobrevivência e do instinto. Sair da escuridão em que se enfiou depois da morte do marido e regressar à vida, às relações, à rua, ao trabalho. Sobretudo ao trabalho, onde pode entregar-se às suas rotinas, sem se preocupar com decisões íntimas ou com consequências pessoais. Será na opacidade dos espaços empresariais, neste caso numa sucursal francesa do IKEA, que Nathalie avançará por fragmentos de um discurso amoroso, surpreendendo e surpreendendo-se.



Por que razão escolheu um local de trabalho para cenário deste romance?

Queria que o livro se desenrolasse num ambiente depressivo... E uma empresa pareceu-me o ideal!



A tensão que estes espaços emanam não é muito abordada na literatura. Foi um desafio?

O mundo da empresa é o mundo do olhar. Toda a gente se espia constantemente. É como um país em tempo de guerra. Há alianças, conspirações...



De alianças e conspirações teriam muito a dizer Nathalie e Markus, que entre corredores e secretárias, dossiers e reuniões, encontraram os seus respetivos bons momentos. A delicadeza, entre os dois, começará, mesmo que nenhum deles saiba para onde se dirige. E sem que disso se apercebam, os dois serão transformados em personagens de um teatro cuja plateia é o escritório em que trabalham. Como dois polos opostos, Nathalie e Markus usam a energia que os rodeia para inevitavelmente se atraírem.



Como desenhou as duas personagens principais? Partiu de algumas imagens ou ideias concretas?

Alguns disseram-me que era um pouco "a bela e o monstro". Eu queria que o casal fosse muito bizarro ao princípio e perfeitamente evidente no fim.



A originalidade é um dos talentos de Markus (e uma das angústias de Charles, o seu patrão e o de Nathalie também). Qual o seu segredo?

O Markus tem sobretudo humor e isso é o essencial.



Um homem encontra uma mulher. Uma mulher encontra um homem. Os dois encontram-se. Há séculos que a Humanidade revisita este tema, sem que por isso deixe de nos cativar. Parece que cada história particular é suficiente universal para tocar em leitores de proveniências muito distintas. Mas não é pela imaginação ou subtileza que Foenkinos nos prende nesta história. É pelo seu narrador, que conta e comenta, descreve e intui, julga e absolve. É uma voz forte, que nos acompanha do início ao fim, muito mais do que as personagens, tão imersas que estão nos seus dramas afetivos.



Criar um narrador com uma voz forte foi algo que o preocupou?

O escritor deve sempre estar lá, mas sem tornar o texto mais pesado. Eu levo as minhas personagens pela mão. E vivo com elas. Gostaria muito de ser o Markus quando ele beija a Nathalie.



E em relação à forma através da qual essa voz se expressa (umas vezes em longos capítulos narrativos, outras em pequenos apontamentos ou curiosidades): o que procurou com estas mudanças de ritmo?

É como uma respiração. E depois, se não se gosta do livro, pelo menos aprende-se muitas coisas! Até há receitas em A Delicadeza!



No entanto, nem sempre é fácil identificar uma lógica nesses capítulos curtos.

Alguns têm um grande interesse para o livro, outros são apenas leves e permitem-nos aprender pequenas coisas sobre artistas.



A solução é entrar no jogo e aproveitar essas pausas para recordar o que se leu e supor o que se seguirá. Alguns apontamentos, de facto, pouco acrescentam e, em certos casos, são inclusivamente de duvidosa utilidade. Mas outros abrem pequenas janelas dentro do livro, como aqueles pintores renascentistas que pintavam quadros dentro dos quadros ou aqueles escritores meta-literários que nos deixam a pensar em livros e autores que não existem. Caberá ao leitor decidir se vai a jogo e se aprecia a sua aparente ausência de regras. Porque tudo é feito tendo em vista o seu conforto. A começar pelo humor, que atravessa o livro como uma linha que ata os personagens e os capítulos.



Procurou intencionalmente esse registo humorístico?

Sim! Quero que o leitor tenha prazer. É uma história séria e triste, mas quis tratá-la com humor.



Que livros o fizeram rir nos últimos tempos?

Gosto de livros divertidos, como os de Albert Cohen.



A literatura e a música são as marcas do percurso de David Foenkinos, que nasceu em Paris, em 1974. Ao mesmo tempo que estudava na Sorbonne, completava a sua formação em jazz. Talvez seja essa a razão por que muda tanto de registo literário, assim como quem muda de instrumento. Estreou-se, em 2001, com Inversion de L'idiotie, logo distinguido com o Prémio François Mauriac, e nos últimos anos publicou romances, guiões para cinema, peças de teatro e bandas desenhadas. É caso para perguntar se:



A música e a literatura são campos que se cruzam?

Deixei a música para escrever, e ainda bem para os vossos ouvidos.



E o que o levou a ser escritor? Ou, recorrendo à pergunta clássica, por que escreve?

Era a melhor forma de me exprimir. E de seduzir.



O que está a escrever?

Neste momento, tenho um livro que vai ser lançado em França que se intitula Les Souvenirs. E adaptei A Delicadeza ao cinema [com o seu irmão, Stéphane Foenkinos], com Audrey Tatuou como atriz principal. Estreia em França, em dezembro. Espero que depois chegue a Portugal.