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A 'primeira' jornalista

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Manuela de Azevedo no ínicio da carreira, em 1935

Aos 98 anos, Manuela de Azevedo, a primeira mulher jornalista portuguesa, edita livro de memórias

Francisca Cunha Rêgo

Aos 98 anos, Manuela de Azevedo, a primeira mulher jornalista portuguesa a ingressar nos quadros de uma redacção - estreou-se no República - acaba de editar um volume autobiográfico: Memória de uma Mulher de Letras. Trata-se de uma co-edição do Museu Nacional da Imprensa e das Edições Afrontamento. Foi lançado ontem, dia 9, na Fundação Mário Soares, em Lisboa (onde também pode ser vista uma exposição sobre a autora) e estará dentro de dias nas livrarias. Poesia, dramaturgia, ficção, ensaio e jornalismo. Foram muitos os ofícios que Manuela de Azevedo tomou para si ao longo de uma vida cheia. Nasceu a 31 de Agosto de 1911, como recorda nas páginas iniciais da obra: "Naquela madrugada (...) pelas duas horas e vinte minutos, a D. Rosa parteira pendurava pelos pés uma menina que berrava o seu protesto por ter nascido, lançando para o ar um grito lancinante (...) Essa menina era eu". E, como confessa no capítulo Nascimento e infância viveu uma infância feliz: "Viva, movimentada, influenciada pela criatividade de meu pai, na infância eu iria cimentar a força de viver e o optimismo que irão acompanhar-me a vida inteira".No capítulo seguinte - No país da juventude - conhecemos a jovem mulher que escrevia abundantemente poemas e artigos para jornais da região de Mangualde, onde então vivia. Ao mesmo tempo, era professora e começava a 'alinhavar' os poemas que surgiriam no seu primeiro livro Claridade. Editado em 1935, teve prefácio de Aquilino Ribeiro.Veio mais tarde para Lisboa, convidada para ser uma das jornalistas do República, passando depois para a redacção do Diário de Lisboa. "Tenho saudades desse tempo da juventude não pelo que fui ou vivi, mas pelo amor daqueles que perdi", refere Manuela de Azevedo. Seguiu para o Diário de Notícias, onde trabalhou até aos 80 anos, especializando-se em reportagens e na crítica teatral. Depois do 25 de Abril de 1974, foi afastada do DN, tendo regressado, com o grupo dos 24 expulsos, após o 25 de Novembro de 1975. Nos capítulos seguintes de Memória de uma Mulher de Letras - À la minute, Ossos do Ofício e Para um mundo melhor - Manuela de Azevedo conta-nos vários episódios da sua actividade jornalística ao longo de sete décadas. Recorda a censura, quando os seus textos passavam pelo lápis azul, como a peça de teatro A Dona de Casa, que escreveu em conjunto com José Ribeiro dos Santos e que, no ensaio geral, foi censurada.Humberto Delgado, Henrique Galvão, o ex-rei Humberto de Itália, Kubitschek e Hemingway, entre muitas outras figuras do século XX, são algumas das personalidades que conheceu e cujas impressões relata nesta obra.Manuela de Azevedo escreveu e publicou dezenas de livros, de poesia, contos, novelas, ensaios, biografias, crónicas, romance e peças de teatro. Destaque ainda para o seu trabalho sobre a obra de Luís de Camões, sendo uma das responsáveis pela construção da Casa-Memória de Camões, em Constância, além de coordenadora da obra A Camões: colectânea de estudos comemorativa da inauguração da Casa-Memória de Camões de Constância.  Em Dezembro, no Porto, durante a apresentação de Memória de uma Mulher de Letras, no Museu Nacional da Imprensa, Manuela de Azevedo anunciou a preparação de mais dois livros. O próximo sairá já em Maio. Mesmo antes de completar 99 anos.