Jornal de Letras

Siga-nos nas redes

Perfil

Alberto Pimenta Um olho que ri e um olho que chora

Letras

Zombo, de Alberto Pimenta, lido por Maria Irene Ramalho

Maria Irene Ramalho

Zombo é uma re-escrita joco-séria e desmitificadora da tradição que informa a cultura (“alta” e “baixa”) do mundo em que vivemos. O poema inaugural de imediato define o tom: a exaustão do poeta e o tempo, que obsessivamente o poema invoca, a dizer desse extremo cansaço de quem há muito o vem atravessando, um tempo de constante aprender e, sobretudo, um tempo de constante aprender a desaprender, como o Caeiro de Pessoa: “cenas que aprendi/ e gostava de não ter aprendido,/ porque depois desaprender/ é certo modo novo de aprender/ mas mais difícil” (8).
Este último, e desassossegante, novo livro de Alberto Pimenta, mais do que qualquer outro, exige um olhar panorâmico. As simetrias do desenho da capa – o reflexo do título a zombar de si próprio e a zombaria a sobrar para as duas figuras de contrastante decoro e desconchavo, e ainda a impertinente mosca a servir de testemunha – apontam desde logo para a circularidade satírica da estrutura do livro. O diálogo da epígrafe que o inaugura repete-se, com diferença, no fecho. Ao Alberto do Porto, o Mínimo, e não o Magno, como o do século XIII, podemos talvez imaginá-lo no homem do salto mortal da capa, deixando entrever o Sábio Periandro de Corinto na outra imagem de homem sisudo e pensativo. Mas quem continua a arriscar-se, no que zomba, é só o do Porto.
O primeiro olhar da leitora vai, pois, para começos e fins. Há “Porta 2” (13-16), que paradoxalmente fala da arte dos fins em inglórios suicídios de artistas e revolucionários: Ièssenine, Isadora, Sá-Carneiro, Meinhof, Andreas. Mas será que há mesmo um começo que se não repete, como acreditava Heraclito (“mas o rio já não é o mesmo” [8])? Ou o fim e o princípio são um tempo de eterno retorno, como cria Parménides (“pouco dá onde começo/ porque lá vou dar sempre” [49])? Zombo não se compromete. “Harpílogo”, que parece anunciar um “concerto de harpa” para epílogo, descarta comicamente a filosófica questão da origem com um toque de campainha: “trim-trim,/ acho que isto está sempre/ a prometer o começo,/ mas verdadeiramente/ ainda não começou” (12). E será que um poema, que jocosamente reflete sobre a importância relativa de prólogos e corpos-de-texto, e se intitula “Prolapso” (22-24), tem algo a ver com as materialidades corpóreas da literatura, de que tanto se fala hoje? Ou, já que existe um outro poema intitulado “Poslapso” (90-92), haverá gralhas a ter em conta? Tempo antes e tempo depois da queda? Bom, as gralhas “são da conta” de quem lê... (40)
A verdade é que o poeta de Zombo, tal como o Camões dos Lusíadas (X, 145) – “No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho/ Destemperada e a voz enrouquecida” –, chega cansado da sua longa caminhada: “estou exausto deste serviço, mais não, não peçam/ despeçam-me” (7). O trocadilho que resulta daquela sequência métrica (“peçam”/ ”des-peçam”) anuncia um outro tipo de cansaço – o das próprias palavras – explicitado em poema posterior: “não/ nem mais/ uma palavra só, não,/pobres palavras sós,/em si exaustas/ou antes, exaustas em si,/palavras sós, mesmo palavras/que sejam palavras,/ porque nem todas o são:/ algumas não passam de/ resmoneios reles” (61). Na “Ressonância Magnética” (65) – em que o poeta se diz “influenciado” pelo serialismo desconstrutivo de Boulez – ouve-se bem o resmungo das palavras, estafadas de tanto uso: “somi ...... cegh ...... somi ...... cegh ...... somi ...... cegh ......” – “Soma e segue” (sem cansaço?) aparecerá mais tarde (80).
Zombo evoca, mais comicamente ainda, outros cansaços da implacável rotina da cultura, como o fastio do discípulo, prestes a ser traidor, na hilariante “Penúltima ceia”. Ao abandonar a ceia, diz o apóstolo que os colegas acusam de “estragar sempre a festa”: “estou farto, vou-me embora” (77). E há ainda, em “Que é isto?” (93-110), o pavor da perplexidade total ante uma vida de recíprocas e perversas lutas e lutos (82), que acaba por revelar-se absurda viagem em comboio descarrilado “que não é para perceber” (105). Não falaram os românticos alemães eloquentemente da importância poética e filosófica da incompreensibilidade?
Este livro não pode ser lido senão com um olho a rir e outro a chorar. A rir, porque é irresistível a denúncia do imenso ridículo que povoa o percurso do nosso humano ser, como quem, contra a “discriminação”, exige uma “missa da galinha” (35), ou o obsessivo verbo de encher que poucos dispensam: “digamos” repetido mais de 40 vezes num dos poemas (84-89). A chorar, porque o ridículo é sempre por de mais insuportável, como o “Bolso ignaro”, de que o poema nos não liberta, mesmo, ou por isso mesmo, kafkiano, “de pernas para o ar” (81).
Quem disse que estava cansada, ou farta, a musa de Alberto Pimenta? Ainda que Zombo zombe de “Doces musas” que não são mais que nomes de bananeiras (25-27)? Vejamos o último poema, a celebrar, sem nada lamentar, tal como a Piaf (82), o tempo que o livro acaba de denunciar, um livro que muito seriamente zomba ainda de quem o lê – e não menos de quem o escreve:
“Soneto errático”: “Com duas caudas/ (codas, para gente distinta)/ foi já há muito tempo/ mas eu não lamento/ eu não lamento/ o pouco/ tempo/ que foi./ pois é/ parece que/ lamentar esse/ tempo que se diz/ pouco fá-lo maior/ mas já não é o que foi/ só finge ter sido mas não/ é”.