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O século das Mulheres

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Tiago Neves

O que mais me vem interessando na literatura de hoje é a poesia das novas poetas. A mulher é uma equação que o mundo nunca permitiu ser resolvida. Adiada pela História, mormente pela História dos homens, à mulher nunca lhe foi dada verdadeiramente a oportunidade.

O que mais me vem interessando na literatura de hoje é a poesia das novas poetas. A mulher é uma equação que o mundo nunca permitiu ser resolvida. Adiada pela História, mormente pela História dos homens, à mulher nunca lhe foi dada verdadeiramente a oportunidade. As mais das vezes, a cultura ocidental dá a mulher como tolerada ou sacralizada. Está constantemente colocada na posição de visita no mundo, mais do que sua proprietária, seu padrão natural.
Parece-me, contudo, que com tantas limitações, hipocrisia e paternalismo, a mulher chega ao seu século, depois das primeiras gerações académicas, depois das conquistas inestimáveis das sufragistas. A mulher culta de hoje, sem mais paciência para a expectativa dos homens, parece-me chegar a uma poesia profundamente própria que contrasta com uma mais linear poesia dos homens.
A poesia é sintoma do que está por vir. Arte de pressentimento profundo, ela denuncia muito do que outras artes e ciências apenas entendem mais tarde. Há um sem licença que faz com que a poesia das mulheres de hoje não se comporte como reação para passar a comportar-se como ensimesmamento. É uma identidade plena e não um complemento. Por mais que nos vejamos como partes dos outros, seres votados para o encontro, o poema sonha o absoluto de si mesmo, quer bastar-se, valer acima do seu autor, superá-lo.
Esta geração de mulheres poetas é sem precedentes. O passado preserva as mais magníficas poetas, mas quero crer que nunca como agora se assistiu a uma geração que revelasse tão vasta quantidade de autoras, tão grande qualidade, tão entusiasmante universo discutido. De certo modo, à poesia das mulheres, com exceções, faltava-lhe o seu extremo, coisa que parecia apenas denunciada por casos pontuais. O que vejo nas poetas de agora é muito mais do que um protesto ou resistência, é liberdade. O sujeito poético deita mão da sua plena dimensão, feita de sua inteligência, desejo ou escatologia, e faz de seus assuntos um sem limite, onde o corpo se usa inteiro, a casa deixa de ser lugar de submissão, o homem acaba como sentido último da vida ou, sequer, inevitável para a realização da mulher.
Gosto de ver estas poetas nos antípodas do que as cantigas d’amigo sonharam para as mulheres. Deixaram de ser medidas pela espera do cavaleiro encantado. Deixaram de temer. A vida da mulher não pode mais justificar-se pela conquista ou, sequer, pela presença do homem. A voz das poetas deixou-se disso.
São muitos os exemplos que podemos evocar em Portugal. Contudo, com maior ou menor distância, em todos os exemplos podemos sentir a marca de Adília Lopes. A voz sem concessões, suspirando francamente por seus ensejos mas sem se conduzir a uma higienização que modere o discurso, que lhe incuta medo ou uma subserviência, desde logo uma subserviência ao homem amado. Assisto à nova poesia das mulheres, de tantas mulheres, como o verdadeiro manifesto feminista. Algo que não propende para qualquer retaliação, mas que tem que ver, sim, com a liberdade que menciono acima.
De Filipa Leal a Renata Correia Botelho, de Andreia C. Faria a Tatiana Faia, de Cláudia R. Sampaio a Sandra Andrade, de Rosalina Marshal a Matilde Campilho, e mais Margarida Vale de Gato, Margarida Ferra ou Golgona Anghel, entre tantas outras. De facto, o coletivo de mulheres poetas revelado desde 2000 é, como um todo, muito mais urgente do que o coletivo de homens poetas que lhe corresponde. Não encontro na História momento algum que se lhe compare. Faz-me acreditar que se levante um século das mulheres.
Sem ingenuidade, o futuro não está para graças. Regredimos em quase todos os índices no que respeita à paridade entre géneros, no entanto, a paridade que os homens podem não querer reconhecer já não pode impedir que as mulheres se assumam. O que espero deste século é isso. Que não deixem de ser livres por mais que o mundo que continua a ser dos homens, e a tender ser para homens, as queira disciplinar. Isto não é um apelo a um feminismo desenfreado que opere por ódio aos homens. É um sonho de ver o padrão feminino livre, sem preconceito nem submissão. Livre.
Escreve assim Andreia C. Faria: “Haveria árvores em vez de homens/ no sentido em que os homens crescem/ no lugar das árvores, ao invés das árvores”. E também: “Não desejes nada puro -/ compaixão, água fresca, incidências vegetais./ Não te queiras fímbria, orla/ humilde de substâncias imortais”. J