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Miguel Real escreve sobre Jalan Jalan, de Afonso Cruz

Letras

Afonso Cruz

Lucília Monteiro

Miguel Real escreve sobre Djalan Djalan, de Afonso Afonso Cruz publicou Jalan Jalan (viajar, em língua indonésia), recolhendo as suas reflexões enquanto viajante de “longo curso” (prefácio de Pedro Mota), isto é, de quem, ao contrário do turista, faz da viagem uma forma de estar e de ser, uma espécie de nomadismo cosmopolita.

Miguel Real

Afonso Cruz publicou Jalan Jalan (viajar, em língua indonésia), recolhendo as suas reflexões enquanto viajante de “longo curso” (prefácio de Pedro Mota), isto é, de quem, ao contrário do turista, faz da viagem uma forma de estar e de ser, uma espécie de nomadismo cosmopolita.
De certo modo, tendo em conta a totalidade da obra do autor, Jalan Jalan. Uma Leitura do Mundo prolonga os quatro volumes da Enciclopédia da Estória Universal, e talvez por isso mesmo não houve novo volume desta série publicado em 2017. Se a estes poderíamos atribuir o estatuto de ficção, ficção cultural e filosófica, roçando o ensaio (isto é, as personagens, não apresentadas alegoricamente como realmente existentes, encarnam ideias culturais e civilizacionais), Jalan Jalan obedece a outra categoria, enquadrada, como é evidente, na Literatura de Viagem. Porém, as viagens de Afonso Cruz (AC) relatadas neste livro obedecem a um horizonte da literatura muito singular – aqui, interessam menos as paisagens rurais ou urbanas e mais, muito mais, as ideias. Como que o autor viaja perseguindo ideias, intentando descobri-las em cada nova partida: encetar a viagem é como, na Enciclopédia, abrir um novo verbete sobre um autor, um tema ou uma ideia.
Dito de outro modo, viajar para AC é um motivo ou um estímulo propício para pensar. Na viagem descobre novos ambientes geográficos, sociais, culturais, civilizacionais que se constituem como rampas de lançamento para pensar os grandes temas da existência, como o fazia nos volumes da Enciclopédia. Neste sentido, viajar é, para o autor, sinónimo de pensar, de reflexão sobre a Morte, sobre o Outro, sobre as Emoções (a Empatia…), sobre o Acaso e a Circunstância, a Necessidade e a Contingência, o Finito e ao Infinito, o Bem e o Mal…
Pensar é não aceitar as evidências culturais, criticar os conceitos filosóficos e sociais firmados, e questioná-los, recorrendo ao paradoxo ou ao absurdo, evidenciando que a Verdade, mais do que lógica e formalmente dedutiva, é contraditória (de recordar que um dos melhores livros de AC, ainda que dirigido à infância, uma espécie de chave ou de porta de entrada para a totalidade da sua obra, é A Contradição Humana, de 2010), melhor, que a Verdade se alimenta e se concretiza por paradoxos; e viajar corresponde a uma idêntica atitude cultural: “Mas a viagem, de um modo geral, foca-se exatamente no oposto [da rotina]: na diferença, no insólito, em tudo o que surpreende. A rotina praticamente não existe, senão como sobrevivência de hábitos pessoais. (…) Durante as viagens colecionamos momentos, objetos cuja estranheza possa impressionar, e, apesar de o mundo moderno ter já poucas surpresas no que diz respeito a povos e geografia, a viagem continua a ser um espaço de novidade e surpresa, não como era para o viajante romântico do século XIX, mas, ainda assim, com capacidade para nos fazer sentir maravilhados ou angustiados com paisagens, danças, monumentos, arte ou rostos” (pp. 49/50).
Como se constata, viajar, para AC, é operar uma transgressão no mundo do quotidiano. E pensar, como sabiamente o ilustram os volumes da Enciclopédia, é de igual modo operar uma transgressão, mas no mundo das ideias, do pensamento. Assim, sempre que, em Jalan Jalan, o leitor lê os derivados do verbo “viajar”, pode substituí-los por termos derivados do verbo “pensar”, aplicando cada um ao domínio ora da mundanidade, ora da reflexão pessoal. A atitude idiossincrática é a mesma.
Na bagagem do viajante, segue a memória dos grandes livros e temas da cultura ocidental, operando o contraste com as culturas locais, não tomando partido por uma ou por outra. Pelo contrário, são motivos para uma reflexão pessoal e para novas conclusões (provisórias) sobre ambas. Os livros e a cultura são assim os grandes intermediários entre o autor e o mundo do passado e do presente.
O estilo de ambas as obras é igualmente o mesmo, como substituição da narração na terceira pessoa (Enciclopédia) pela primeira no caso de Jalan Jalan, dando a este uma configuração literária reflexiva no interior da literatura de viagem. De resto, é o mesmo estilo claro, sintaticamente límpido (logicamente explicativo, sem tropismos de eloquência), semanticamente luminoso (cada viagem, cada reflexão, implicam necessariamente novas e contínuas transgressões, que geram a revelação de novas descobertas), ainda que o primeiro se sustente de uma escrita mais conotativa e o segundo mais denotativa, como não poderia deixar de ser. Mas uma e outra suportadas por um conteúdo transgressor.
O corte com a rotina do mundo e o corte com a rotina do mundo das ideias constituem a singularidade da escrita de Afonso Cruz. Note-se que a maioria dos títulos dos seus livros resulta desta transgressão do sentido habitual das palavras: A Carne de Deus (2008), Os Livros que Devoraram o meu Pai (2010), Jesus Cristo Bebia Cerveja (2012), O Cultivo de Flores de Plástico (2013)…, Nem Todas as Baleias Voam (2016) e Vamos Comprar um Poeta (2016).
A leitura de Jalan, Jalan transmite a sensação estética de se estar em presença de um autor em plena maturidade literária e filosófica. Aproveite, caro leitor.