Jornal de Letras

Siga-nos nas redes

Perfil

Nélida Piñon: "A sarça ardente"

Letras

JORNAL DE LETRAS Entrevista a Nélida Piñon sobre o sua obra recente, Filhos da América

Leonor Xavier

Filhos da América é o último livro de Nélida Piñon, lançado em Portugal na passada 2ª feira, 23, com apresentação do poeta e ensaísta José Tolentino Mendonça. E com a presença da autora, uma vez mais em Lisboa, para participar na reunião do júri do Prémio José Saramago, que integra. Nélida é, como se sabe, uma das mais destacadas escritoras brasileiras e de língua portuguesa, com uma vasta obra distinguida com importantes prémios, no Brasil e fora dele, como o Jabuti, o Rosalía de Castro, o Casa de las Americas, etc. Entre esses prémios se podendo realçar dois: o Juan Rulfo, talvez o mais importante da América Latina, e o Príncipe de Astúrias das Letras - em ambos os casos sendo ela o primeiro escritor da nossa língua a recebê-lo. Além disso, e muito mais, a autora de A República dos Sonhos foi a primeira mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras, ou a qualquer grande academia congénere.
O livro agora lançado e sobre o qual a ouvimos, reúne textos, de vária índole, sobre escritores já clássicos como Machado de Assis e José de Alencar, mas também sobre Rachel de Queiroz e Antônio Torres, sobre a atriz Marília Pêra, a famosa agente literária e amiga Carmen Balcells, de par com outros sobre a Galiza da sua infância, os familiares que com ela vieram para o Brasil e outras memórias, mormente a propósito de alguns dos seus livros de ficção.

Jornal de Letras: Qual é o sentido de Filhos da América, neste momento da sua criação literária?
Nélida Piñon: Avancei pela criação de Filhos da América superando os pedregulhos da linguagem. Enquanto, atada a conceitos estéticos, fazia um balanço da existência, sem fugir das lembranças pungentes. Conduzia-me a fome pela vida que ainda me sobrava. Via-me em um espelho realista que em geral contrariava meus interesses. Não queria ser Nélida, a escritora, mas antes a vizinha dos demais. Pois, associada aos sinais impercetíveis do cotidiano, era serva das turbulências humanas. A mulher que arde como uma sarça ardente.

Pode-se considerar o seu texto como que uma antologia de reflexões, assumindo esse espaço como motivo de entendimento do mundo?
Para o livro tinha à disposição um repertório criativo desafiante. Ciente, porém, de não haver soluções na criação literária, mas interdições. O próprio ato de pensar propunha-me uma zona de sombras onde o mistério se refugiava, para eu não o alcançar.

A sua assumida formação na cultura da antiguidade clássica é neste livro ampliada pela evocação da cultura milenar do Novo Mundo?
Certo espírito que me inquieta reflete-se no cotidiano literário. Presente nos textos atuais, registro neste livro a minha estética narrativa, minha renovada aliança com culturas milenares que foram alicerces do meu imaginário. Desde cedo fruí da escrita alheia e da minha, em graus variados, o que foi um martírio para a minha curiosidade. Lutei, para não 'cair', no meu contínuo esforço em galgar as pirâmides, o Anapurna, a cordilheira dos Andes, meus patamares estéticos, paragens onde iriam desaguar os saberes. Talvez estes Filhos da América expressem mudanças sofridas, que bem sei quais foram. Pressinto que cada frase do livro superou minhas intenções iniciais. Quisera ter fracassado, porque peco por ser frondosa. Nunca fui franciscana. Sou quem visita o avesso e as vísceras das frases. Tudo na ânsia de transmitir ao leitor meu derradeiro frémito.

Heródoto é guia para o caminho dos leitores, iluminando a identidade da autora, sempre presente na sua escrita. No livro, o papel iniciático é explícito: “Introduziu-me ao banquete encantatório da história antiga.” Nesta frase, está a chave da sua personalidade literária?
No ensaio-confissão “Heródoto“, submeto-me aos questionamentos da arte que exerce seus plenos poderes sobre o escritor. Sei, porém, que o desastre acaso constatado no livro não é culpa da arte, mas de quem usou seu santo nome em vão. Como o escritor vaidoso que sem preparo ou descortino humanístico desafiou as regras básicas da criação literária.

O afeto é um dos sentimentos maiores em todas as dimensões de sua criatividade. No ensaio também?
Desejo que meus ensaios, conquanto racionais, se submetam aos acordes do coração coletivo. Quero-me assertiva na defesa da solidão que elegi, povoada de intensas memórias. No arcabouço da minha vida, nada ficou atrás, não há sobras, nem convicções daninhas.

Quais são hoje, escritora tão consagrada na imensidão da viagem, as suas inquietações?
Indago o que motiva uma vida, como a minha, a devotar-se apaixonadamente à arte. Acaso é uma decisão crucial, irrevogável, que justifica tanto sacrifício? E que leva a renunciar a pompas e circunstancias que circundam os entretenimentos frívolos? Para ter a coragem de expulsar da escrita o que lhe pareceu em certo momento perfeito, mas que não passava de uma joia falsa?JL