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Alexei Bueno: Trazer as imagens do passado ao instante do poema

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Alexei Bueno "Uma das vozes mais poderosas da poesia contemporânea brasileira"

JORNAL DE LETRAS Maria João Cantinho fala sobre novo livro de poesia de Alexei Bueno, Desaparições, que chega pela primeira vez a Portugal

Maria João Cantinho

Finalmente chega a Portugal a obra poética de Alexei Bueno, poeta, ensaísta, tradutor e editor brasileiro que urge conhecer como uma das vozes mais poderosas da poesia contemporânea brasileira. Esta antologia, Desaparições, publicada pela nova editora Exclamação, sediada no Porto, foi cuidadosamente organizada e prefaciada pelo prof. Arnaldo Saraiva, reunindo a sua poesia desde a sua primeira obra, publicada em 1984 no Brasil, intitulada As Escadas da Torre. Também aqui se encontram os Poemas Gregos, Livro de Haicais, A decomposição de Johann Sebastian Bach, Lucernário, A Via Estreita, A Juventude dos Deuses, Em Sonho, Os Resistentes, A Árvore Seca, As Desaparições (dando o título a esta antologia) e Anamnese, o último livro, publicado em 2016.
Ivan Junqueira, acutilante crítico brasileiro. saudou o seu aparecimento como devedor de uma tradição helénica e herdeiro da tradição simbolista, aquando da publicação das suas primeiras obras. Ainda que nunca tenha renunciado a essas marcas estéticas que se têm mantido sempre presentes na sua obra, elas foram, todavia, cedendo o seu espaço a uma matriz vigorosa em que a filosofia e a metafísica dialogam com temas quotidianos, coadunando-se com o apuro formal da sua poética.
Como assinala Arnaldo Saraiva, logo no início (p. 11), Alexei Bueno revela um espantoso domínio das formas poéticas como a ode, o rondó, o epitáfio, o uso do mais diversificado tipo de estrofe, desde o dístico até à forma da oitava, jogando com uma métrica versátil e prolixa, que nos deixa esclarecidos sobre a sua pujança poética, a qual não é apenas (e meramente) formal. O modo como agilmente concilia a sua riqueza vocabular com a sua capacidade reflexiva, retomando a tradição filosófica e entrelaçando-a com a poesia, são aspetos nucleares que encorpam a sua escrita e conferem aos seus poemas discursivos uma arquitetura irrepreensível, que aparece. E o mais extraordinário é que ela já apareça claramente nos primeiros poemas, como é o caso dos poemas “Suma”, “Egogonia” e “Babilónia”.
Leia-se em “Egogonia”: “Lá tudo está escrito. Eu leio a morte/Do horror na grande contorção do vento./Até a queda sem causa e a sua corte/Retornarão à vida, e sob o alento/Da unidade perdida, e sob a forte/Voz do início final, num movimento/De formas numa só, livres do não,/As almas, como as folhas, dançarão!” (p. 40). Por exemplo, “A decomposição de Johann Sebastian Bach” de 1989, é um conjunto notável, para um poeta tão jovem (à altura com 26 anos). Os seus versos mais livres são reflexivos e vibrantes, evocando Píndaro ou Álvaro de Campos, ou ainda Walt Withman. Da mesma forma, as suas odes (de “A Via Estreita”) constituem uma poesia exaltante e cujo ritmo vertiginoso nos arrasta: “Ouve, e entende: tudo é veste./Sem as máscaras e os mantos somos nós ainda, intactos./Sem as auroras e os vidros o que não tem nome permanece,/Sem as amadas e os cachorros, o labirinto e as folhagens, ele é/o instante/ Que nos limita, nossa cadeia eterna, nosso brasão glorioso.//Tudo é veste, o nosso rosto, o nosso nome,/Tudo é veste, a mão materna nas manhãs, o elevador parado, /Tudo é veste (…)” (p. 85).
Conhecido também pelas suas posições polémicas, na sua obra Uma História da Poesia Brasileira, Alexei Bueno põe o dedo na ferida e defende corajosamente o seu ponto de vista contra uma certa visão estereotipada da poesia brasileira contemporânea. Dessa postura decorre naturalmente a sua poesia, que se centra na exploração dos efeitos da linguagem, no que respeita à sua energia semântica e simbólica, assim como aos efeitos rítmicos da mesma, ignorando as suspeitas que os herdeiros do concretismo lançam sobre uma boa parte da tradição poética brasileira e recuperando o que o concretismo deixou de fora. O que lhe importa é a procura de uma ligação entre o antigo e o moderno, que é identificável desde os primeiros livros, numa plena assunção da condição de imemorialidade ou de atemporalidade da poesia. Se a modernidade configurou uma rutura com a tradição, a lucidez do poeta moderno não pode, todavia, tornar-se refém dessa condição, reclamando exemplarmente uma transtemporalidade na sua poética. Ao homenagear poetas como Horácio, Catulo, Camões, Tasso, ele incorpora-os na sua poesia como contemporâneos seus. Trata-se assim de trabalhar a linguagem como legado, incorporando as vozes do passado na poesia atual como um modo (feliz) de as trazer ao presente, glorificando o instante.
Para Alexei Bueno, o tempo é uma dimensão absolutamente crucial. A ele regressa incansavelmente, para nos falar da eternidade procurada: “O instante, o glorioso instante, o instante eterno/em que fôssemos, e sendo, nos cravássemos na eternidade/ do ser,/Na hora do ser, no ser agora!”. Se o Tempo, como diz o poeta, aludindo à figura mitológica de Cronos, é parricida do ser, então, como nos diz, na “Ode III”, “Passamos alheios ao lado do único absoluto tesouro,/O instante, o glorioso instante, o instante eterno/em que fôssemos, e sendo nos cravássemos na eternidade do ser,/Na hora do ser, no ser agora!” (p. 84). Também a presença da morte é constante, mas, à semelhança do tempo, ela é irmanada com a vida. Na “Ode III”, a morte mostra-se nos rostos da multidão e o tom, aqui, aproxima-se bastante dum certo olhar alegórico, reconhecível, por exemplo, em Baudelaire ou, ainda, em Eliot: “E quando, já sem rostos nem nomes, em qualquer memória/humana, passassem/Pelo meio das ruas, entre o febril meio-dia/Quem os poderia reconhecer como mortos, sorridentes fantasmas/No seio da multidão distraída?” (p. 88). Esses mortos, para o poeta, são os vivos, “Ressuscitados, perfeitos, os mortos que se despiram de toda/ a memória/ Marcham agora nas ruas, com os rostos iguais e outros nomes,/ com os mesmos nomes talvez e outros rostos” (p. 88). Condição infernal, tal como o era em Pascal e em Baudelaire (evoco sobretudo o poema de Baudelaire “Les Sept Veillards”), a repetição é a apresentação da morte, nos seus vários sentidos.
Nos seus últimos livros, Árvore Seca (2006), Desaparições (2009) e Anamnese (2016), Alexei Bueno retoma novamente as formas fixas, no que respeita ao jogo de estrofes e de rimas. Se já se sentia a radicalização da violência na sua obra Os Resistentes, ela acentua-se nas obras posteriores, como no poema “La mort des pauvres”, cujo sarcasmo é uma lâmina cortante que percorre todo o poema para terminar assim: “Bom é morrer falido, endividado,/ cortados gás e luz, o nome imundo/ Na praça, todo crédito negado (…)” (p. 136). Ou no poema “As desaparições”, onde se diz: “Nossa vida é o sonho apenas/ Do Deus que dorme.” (p. 140). O poeta fala da vida como uma ilusão ou uma fantasmagoria, aquela que os vivos vivem, “Os vivos/ Vivem a morte do sonho/ do Deus dormente (…)” (Ibidem).
Neste poema, como noutros, despertar equivale a ter consciência de que tudo não passa de ilusão, de um sonho de um Deus que dorme, no reconhecimento de uma alienação humana que tem a medida do saber de Caldéron de la Barca, quando diz que “La Vida es Sueño”. É uma visão desencantada, ácida e melancólica que atravessa “As Desaparições”, apresentando-se mesmo como “constatação”: “Ser fragmento, ser caco, ser a corda/Que não se amarra em nada, o elo partido,/o escorrer puro, o rio sem sentido” (p. 143). Ou ainda no poema “Anamnese”, onde se diz: “Não procures atravessar o espelho,/não há nada atrás dele e nada nele.” (p. 161).
Para Alexei Bueno, é a poesia que nos garante ainda um lugar a salvo na noite, esse ancestral abraço maternal: “Amo-te, Noite, mais velha que os deuses,/…// Pois sinto em ti, mãe negra, e não nos deuses/ Outros diurnos, que a verdade existe,/ E que em seu rosto, como o teu velado,/ Não morrerei.” (p. 52). Como diz o poeta no espantoso poema “Poesia” (p. 77), a poesia “nunca nos trai,/ Nunca nos solta”, faz da nossa indigência e da “lama /Da alma” uma “chama/ que a noite entende”, nunca nos mente e “mira de frente/ Glória ou desgraça.// E quando a Morte/nos pisa, branda,/ Essa diz, forte:/ Levanta-te e anda!”. E porque a poesia é luminoso antídoto a tudo o que a vida nos dá, morte e dor, sofrimento, ela oferece-nos o milagre da ressurreição, exorcizando a morte e as suas múltiplas manifestações e aparências, sacode-a e metamorfoseia-a em vida eterna, em celebração do “instante, na sua glória, o instante eterno”. De outra forma não saberíamos fintar a morte.JL